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29/10/2022 às 00h00min - Atualizada em 29/10/2022 às 00h00min

Jefferson, Jefferson, ah!, se fosses um pobre favelado!

AURELIANO NETO

AURELIANO NETO

Doutor Manoel AURELIANO Ferreira NETO é magistrado do Tribunal de Justiça do Maranhão

 
Pra que foram decretar a prisão de Jefferson, que, entre tantos insultos ao Supremo Tribunal Federal, chegou à grosseria, própria de um bêbado de cabaré, de chamar a ministra Cármen Lúcia de prostituta? E, ainda com deboche, como se fosse um bandidinho de quinta ou décima categoria (e o é), após toda agressão às instituições democráticas e ao Estado de Direito, continua com o seu mesmo palavreado de mafioso frustrado, conforme se constata nas notícias veiculadas pela mídia. Vejamos: “247 - O ex-deputado federal Roberto Jefferson (PTB-RJ) voltou a ofender, nessa segunda-feira (24), a ministra do Supremo Tribunal Federal (STF) Cármen Lúcia após chamá-la de “prostituta arrombada” na semana passada. ‘Quero pedir desculpas às prostitutas pela má comparação, porque o papel dela foi muito pior, porque ela fez muito pior, com objetivos ideológicos, políticos. As outras fazem por necessidade’, disse o petebista em audiência de custódia. As declarações dele foram publicadas nesta terça-feira (25) pelo jornal Folha de S. Paulo.” Penso que, para Jefferson, pintou um clima, e aí, como braço direito do bolsonarismo, resolveu baixar a bola murcha da sua caricata posição de influenciador petebista no poder bolsonarista e caprichar nos insultos. E aí me veio a saudade dos grandes petebistas como Fernando Ferrari, Leonel Brizola, Alberto Pasqualini, João Goulart e políticos sérios, com farto cabedal ideológico, como Almino Afonso. Hoje, vem para ribalta um cangaceiro, que consegue superar em caráter o banditismo de Lampião.

Mas isso é de menos. A depender do caráter de quem ouve. Essas palavras de um depravado bolsonarista não atingem a pessoa respeitável da ministra Cármen Lúcia, que, desde sua entrada para compor a Corte Suprema de Justiça, sempre se portou com absoluta integridade, manifestada nas decisões embasadas em fortes fundamentos jurídicos, com a específica finalidade de fazer justiça.

A cena de fancaria, patrocinada por Roberto Jefferson, bolsonarista empedernido, porquanto sempre ao lado do seu líder, se assemelha a um ato de cangaço dos tempos modernos. Cono dizem os especialistas, armado até os dentes, tentou vestir-se de mártir, para criar um fato político, e, travestido de guerrilheiro sem causa, tentou facilitar a vida eleitoral do seu mito, como ocorreu no caso da famigerada facada. Vestido nessa falsa indumentária de herói fracassado, se danou, como um louco em crise de demência, a dar tiros e jogar granadas contra os policiais. Ao mesmo tempo, num linguajar de falsidade, de uso comum de falsos cristãos, que se apropriam do nome de Cristo, para tirar vantagem econômico-financeira, atitude típica de fariseus, aos berros fantasiosos e encenados, extravasava sentimentos não sentidos, como liberdade, democracia, respeito às famílias, à vida pública, como se fosse um falso profeta, que morreria na luta insana pela liberdade. E aí me veio essa necessária interrogação feita a mim mesmo: Que liberdade? A liberdade do desrespeito, de afrontar as instituições públicas, de ser arruaceiro, de cometer crimes, de desrespeitar as mulheres, chamando-as de prostitutas, ou de apenas ser amigo do rei e poder fazer o que bem entende. São esses os fundamentos da luta pela liberdade? Não, Jefferson. Sorte a tua que a encenação para mártir de fancaria falhou. Talvez, quem sabe, Jefferson, o planejado desse certo, se tu fosses um favelado da Rocinha, do Alemão, do Jacarezinho, de Paraisópolis, onde o não menos famigerado Tarcísio, candidato a governo do Estado de São Paulo, mandou apagar o vídeo que filmou o suposto tiroteio, em que restou a morte de um pobre favelado suspeito (???), assassinado a tiros.

Pois bem, meu caro Jefferson, se não fosses amigo do rei e, portanto, braço direito do bolsonarismo, mesmo com o arsenal de armas encontrado na sua casa, conforme constatado pelo Polícia Federal - “247 - Imagens divulgadas pela Polícia Federal mostram um arsenal de guerra ilegal escondido na casa do bandido bolsonarista Roberto Jefferson (PTB), preso na noite deste domingo (24) por promover ataques contra a ministra Cármen Lúcia, do Supremo Tribunal Federal (STF), ao chamar a juíza de ‘prostituta’. Em um vídeo, é possível observar centenas de munições. Outra imagem que circula na internet mostra o fuzil 762 de mira telescópica utilizado pelo ex-deputado para atirar nos policiais que cumpriram o mandado de sua prisão.” - tu, rotulado por alguns afobados de “bandido do bolsonarismo”, estaria debaixo da terra, com o corpo crivado de balas. Mas, felizmente, a tua origem é de uma estirpe mais burguesa, da elite, e só passaste pelas favelas para pedir voto, elegendo-se para o parlamento de nossa malfadada república. Pois é, ainda bem que não eras favelado, porque, se fosses, não haveria nenhuma necessidade de compareceres a uma audiência de custódia. Uma certeza: Bolsonaro, teu amigo, sequer iria ver o teu corpo crivado de balas, como normalmente ocorre nas incursões policiais nas favelas, onde não escapam crianças e mulheres, negros e negras, todos, como disse o vice-presidente Mourão, eleito senador, bandidos.

O dia 30 está se aproximando. Te aviso que o teu mito tem votos, até mesmo no Judiciário, tão vilipendiado e escrachado por ele. Alguns condenaram a ministra Cármen, sob a justificativa de que tu estavas certo. Como vês, continuamos a viver a velha dicotomia da casa grande, onde vivem os aristocratas, e da senzala, a morada dos serviçais, ainda escravizados pelo sistema de exploração capitallista. Mas aguardemos o dia 30. Esperar contém o sentido desejado da esperança.

* Membro da AML e AIL
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