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28/06/2021 às 00h00min - Atualizada em 28/06/2021 às 00h00min

IMGUINORAPULIS

Capítulo XVII

*Republicado a pedidos
**Publicado originalmente em 9 de dezembro de 2012

Tem emprego para todo mundo

Passados uns quatro ou cinco dias que tinha eu assumido o honroso cargo de secretário municipal de Educação, o bondoso padre SANTOBALDO, vigário da paróquia, que tinha como padroeiro um santo que jamais ouvi falar (um tal de SÃO RISAL, que conforme piadinhas do povo era o protetor dos cachaceiros), convidou a população local para participar de uma concentração popular que aconteceria às 17 horas, no patamar da igreja. Na oportunidade, estaria presente o senhor Bispo Diocesano, que viria a IMGUINORAPULIS para uma visita e tratar sobre as Santas Missões. E era só no que se falava! Comentários aqui, comentários ali, e o senhor prefeito decidiu tomar uma providência bem ao seu estilo: decretou ponto facultativo naquele dia, ou seja, somente iria trabalhar na prefeitura quem assim o quisesse.

Mais uma vez, me surpreendi com o que acontecia na cidade: fechar os órgãos públicos municipais em plena segunda-feira (lembro bem que era este o dia da semana) por causa da visita de uma autoridade, que iria acontecer às 17 horas, quando o expediente já estava quase se encerrando. E resolvi ir até o senhor prefeito para protestar daquela decisão, com o chefe da municipalidade, ao ouvir as minhas considerações, me ameaçando de demissão do cargo. "AQUI QUEM MANDA É EU, E PRONTO! O SIO CUMO MEU IMPREGADO TEM QUI MI BEDECER! ORDE DE CHEFE NUM SI DISCUTI!". Tentei ainda contra-argumentar, mas o DOTO LADRONESIO FURTADO se mostrou um "terrível" discípulo de Calígula, Nero, Atila, Hitler e outros ditadores e males da humanidade. Não tive outra alternativa a não ser me calar. Quando ia me retirando, o prefeito me lembrou para estar presente na concentração, pois certamente ele iria precisar de mim. Só não me explicou como e para que.

Passei o dia normalmente, lendo algumas revistas e livros, andei um pouco pela cidade, almocei, dei uma cochilada e, por volta das 15 horas, comecei os preparativos para ir ao encontro do bispo, ou melhor, do prefeito. Vesti a tradicional "roupa de ver Deus", qual seja aquela melhor roupa que possuímos e a usamos apenas aos domingos para ir à missa, calcei o sapato e elegantemente vestido me dirigi à porta da pensão. No corredor, encontrei-me com o VIADINO, que veio me dizer que a cidade estava cheia de gente, vinda de todas as cidades circunvizinhas. "Eu nasci aqui há vinte e quatro anos e esta é a primeira vez que o bispo vem aqui", repetia o rebolativo jovem, fazendo questão de revelar a sua idade: 24 anos. "Santa coincidência!", comentei com os meus botões.

E lá estava eu no meio da multidão, conversando com um e com outro, quando o prefeito fez sinal para que eu me aproximasse dele e, ao chegar lá, ele foi categórico: - VO DISCURSAR PRO BISPO E PRO POVO. E SIO MI APREPARE UM DISCUSSO BEM BUNITO! Mais uma vez, ouvi uma nova ameaça de demissão quando ponderei que tal discurso não era necessário, que dizia respeito exclusivamente à igreja. Mas o prefeito me lembrou que queria ser candidato ao governo do estado e não iria perder a chance de falar para aquela multidão do seu estado. Mas como escrever um discurso naquela situação? Sem uma máquina de escrever, sem uma caneta, um pedaço de papel. Então, decidi dar uma de político: "mentir". Falei para o prefeito que ele se expressava maravilhosamente bem e, como tal, poderia fazer o discurso de improviso, como costumeiramente acontecia. O DOTO LADRONESIO FURTADO se sentiu bastante lisonjeado com os elogios e me fez um pedido: - TUDO BEM! MAS SI EU COMEÇA A FALA BESTEIRA, O SIO DÁ UM CHUTE NA MINHA CANELA, e assim ficou combinado.

Depois das palavras de uma das beatas, do sacristão, do padre SANTOBALDO e do senhor bispo diocesano, o prefeito municipal de IMGUINORAPULIS inicia o seu pronunciamento, um verdadeiro festival de besteiras, um crime contra a língua portuguesa. Em dado momento, ao comentar sobre a sua administração, citou que tudo o que a cidade tinha foi construído por ele: - EU PARALELIPEIDEI TODA AS RUA DOS BAIRRO, EU CONSTRUI DEZ ESCOLA E DEZ HOSPITAL, e conforme o combinado, eu dei um chute na sua canela e sussurrei baixinho no seu ouvido: "Empregue o plural!", e de imediato o prefeito fez esta promessa maravilhosa: E INDA VOU FAZE MUITO MAIS! VOU EMPREGA O PLURAL, O PAI DELE, A MAI DELE. TÁ TODA A FAMIA IMPREGADA NA PREFEITURA!
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JAURO GURGEL

JAURO GURGEL

JAURO José Studart GURGEL, durante muitos anos Editor Regional de O PROGRESSO, em Araguaína (TO),

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