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22/05/2021 às 00h00min - Atualizada em 22/05/2021 às 00h00min

GREGÓRIO DE BASTIÃO

(Série: personagens – vida real-IV)

 
 
Havia naquelas bandas uma grande e boa porção de terras ditas DEVOLUTAS; terras essas que acabaram por atrair aventureiros das bandas do CAFUNDOCA, um sertão dali distante em “léguas esquecidas”, tal a distância, já pertencente a outra Freguesia. Atraídos pela versão de “terras de ninguém), três famílias de aventureiros, aventuraram-se em “léguas esquecidas”, a pé, trazendo seus “teréns”, num magricelo cavalo de cangalha, tal  o pauperismo daquela gente. A viagem em “léguas esquecidas” que fora um sofrimento, que o cavalo cansou no caminho, ainda houve a desdita do marido de Processa (uma ex-escrava, liberta pela lei da Princesa Isabel), ter sido assassinado, a flecha, por índios, no percurso.

Aqueles “estrangeiros”, em três famílias logo procuraram situar-se cada qual ao seu ponto, naquela vastidão de terras, ali então ditas DEVOLTAS. Ocorreu entanto que, sem mais demora, um filho do lugar, SENHOR MDC, tratou de adquiri-las junto ao Estado do  Maranhão, enlaçando aqueles infelizes analfabetos e descendentes quilombolas, deixando-os dependurados e sem chão. Maldito Estado que vendeu aquela possessão por trinta dinheiros, deixando aqueles míseros desdentados à própria sorte! SENHOR MDC entanto, suportava-os a gosto amargo, de cara virada, qual um osso na garganta.

Os dois irmãos Mané e Bastião, que se situaram às proximidades um do outro, tornaram-se ali conhecidos como Mané Folhá e Bastião Folhá e representaram, cada qual o maior gueto de pauperismo jamais visto por ali em todos os tempos. Mané, então, esse tornou-se o bobo da corte quando de suas cachaças, ao mesmo tempo em que compunha uma família de filhas e netos todos  briguentos entre si. X-C o genro-mor, passava o vassourão nas cunhadas e o pé de guerra entre as irmãs, filhas do velho Mané, mantinha-se acesso.

Bastião tão pobre quanto o irmão era mais quieto. Menos exposto. Teve uma leva de filhas trabalhadoras. Nessa leva, teve ARGEMIRO (Agermiro), valente, brigador,  “confusista” sanguinário; encrenqueiro. Depois que puxou penitenciária, fazia questão de recitar em prosas e versos a sua experiência, o seu lado forte, resistente, na prisão. Ele, simplesmente, era O CARA. Sabe aquele cara do “EU SOU EU E BOI NÃO LAMBE?” Esse era Agermiro de Bastião. E GREGÓRIO, seu irmão? - Esse é o nosso personagem, doravante.

A LENDA GREGÓRIO DE BASTIÃO

Desde cedo, Gregório deixou claro que os embates duros, sofridos e difíceis da roça não eram, nem seriam a sua praia. Juntou-se a Joana de Migué – Migué de Luzia -  um legítimo afro-descente que apareceu por ali vindo das bandas da beira do campo. E com mais duas outras famílias compuseram “OS MORADORES DE DENTRO DO MATO – um tema que escrevi nestas colunas. Sim porque moravam verdadeiramente dento do mato, servidos ali por uma quase entupida vereda que ali chamava-se “rumo” (que nem caminho não era) e que consistia em divisão de terras. A vereda (espécie de velha picada) dos rumos eram enfim suas vias de saída para o mundo civilizado, lá fora.

Gregório, dentro do mato, nas terras dos herdeiros de Zé-da-Legara (José de Olegária), à beira do “rumo”, tinha um breve e pequeno casebre, tomado em volta pelo matagal bruto. Além de mulher e três filhas, todas magricelas e visivelmente desnutridas, eis que o seu bem maior, eram três cachorros, seus servis companheiros de caça. Gregório era caçador nato e profissional. Vivia disso e nisso. Não cuidava de roças nem de mais nada. Não tinha sequer um cavalo de cangalha e no quintal de sua casa também não havia “criações de terreiro” – nem galinhas, nem porcos, nem nada, senão apenas seus três magricelos cachorros de caça.

Gregório era tão obstinado em suas aventuras de caçador que tantas vezes dormia no mato com seus cachorros, tal a distância de casa em que se encontrava “atucanado” mato a dentro. Em verdade, na arte da caça e a duras lutas Gregório conquistava o seu sofrido de comer. Vendia suas caças e por vezes, recebia antecipado pelas suas futuras presas ainda no mato. Foi Gregório quem inaugurou o ditério que dizia que “quem paga adiantado merece ser enganado”.

Diziam as línguas que Gregório de Bastião tinha “pacto” com Currupiro (Curupira) para o qual deixava fumo em lugares estratégicos, no mato. É sabido por ali, que o Curupira (Currupiro na linguagem daquela gente), uma entidade das matas é o protetor das caças e bichos do mato. Dizem até hoje que essa estranha entidade faz o perseguidor dos animais, perderem-se na mata ou serem tomados de forte dor de cabeça, -  todavia, deixava-se corromper pelos mimos em fumo que Gregório lhes dedicava, facilitando-lhe em suas caçadas.

O personagem GREGÓRIO DE BASTIÃO era por ali um sujeito estranho. Não era de ter amigos, não era visto em lugar nenhum, não frequentava ambientes convencionais, senão em eventuais bodegas em grogues de cachaça. Além de amigo declarado de Curupira, também mascava fumo e diziam que ele virava “labisonho”. Mudou-se daquele mato, como não se sabe e foi morar no asfalto, em terra alheia, longe dali. Sua mulher morreu, atropelada, quando caminhava à beira da pista. E até hoje as pessoas se exclamam que iniciativa, que ideia foi essa que teve Gregório de Bastião para mudar-se de dentro do mato! Tal o salto na vida que deu!!!

 * Viegas questiona o social
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CLEMENTE VIEGAS

CLEMENTE VIEGAS

O Doutor CLEMENTE VIEGAS e advogado, jornalista, cronista e contesta o social.

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