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10/04/2021 às 00h00min - Atualizada em 10/04/2021 às 00h00min

Caminhos Por Onde Andei

LUÍS, RESPEITA JANUÁRIO

(Um texto de quem não entende de música)
(Este tema, na origem, foi criado para a crônica PÁGINA DE SAUDADE  (há 13 anos no ar) -  partícipe do Programa CLUBE DA SAUDADE - Rádio Mirante/AM, 08:00 hs., da manhã, há 32 anos no ar) e adaptado para estes... CAMINHOS POR ONDE ANDEI)

Longe se vai aquele velho tempo, final dos anos 1960  em que recebi um convite para participar de um programa nas felizes tardes de domingo, na Rádio Educadora/AM., na capital. Era o Programa PANORAMA ESTUDANTIL., do Grêmio Arariense dos estudantes. Jaime Pinto, Ribamar Muniz Pinto,  Damasceno Pinto  e Eu-Viegas, compúnhamos o quarteto da apresentação do programa. A Rádio Educadora, então, muito boa de audiência na cidade e no interior e a gente pegava carona na vantagem.  De minha parte eu, opinava sobre trânsito, serviço público, dia a dia da cidade e ainda me aventurei em criticar sobre músicas (canções) que tocavam na época. Eu não entendo, como enfim nunca entendi de música. Mas foi aí que despontou a Crítica de CLEVIEGAS (codinome por mim mesmo atribuído, com o qual me tornei conhecido.  Hoje, dando uma de CLEVIEGAS, dos belos tempos de PANORAMA ESTUDANTIL, eu viajo na música de Luiz Gonzaga:  REPEITTA JANUÁRIO

A canção composta por Humberto Teixeira,a pedido de Luís, retrata o exato momento em que Gonzaga, depois de 16 anos que “arribou de casa”, voltava agora famoso e endinheirado e com uma sanfona de 120 baixos querendo “mangar” (fazer troça, brincadeira),  da sanfona de oito baixos (modesta) do pai.  Comentários da canção lembram  uma “tunda” (quer dizer uma surra) que  Gonzaga levou de sua mãe (Dona Santana) e do seu pai, por conta de uma desfeita havida com o pai de uma moça com quem Gonzaga queria casar e que o pai o considerou um “safoneirinho, sem futuro” e daí um breve entrevero entre os dois e o aborrecimento da mãe/Santana face do filho.

O interessante no conjunto  da canção é a cena, o enredo, a leitura ao vivo e a cores, em tudo material e palpável, que nela se vê. Gonzaga queria chegar em casa alta noite e fazer uma surpresa ao seu pai (e seu ídolo), a quem mais ele se refere. Menciona que, de passagem por Granito (cidade de Pernambuco), foram logo lhe dizendo: De Taboca a Rancharia (cidades), de Salgueiro a Bodocó Januário é o maior”. 

Gonzaga chegou ao terreiro de sua casa, madrugada altas horas. E então ele deu um grito: Ei de Casa (ninguém responde).Torna gritar: Ei de casa (nada...) Votou a gritar (ôxi) e ninguém responde.  Então ele lembrou-se que àquela hora, no sertão, ninguém responde a um chamado. E então lembrou-se do “prefixo”, quer dizer da louvação, do costume:“Louvado seja o nosso senhor Jesus Criiiisto”. É quando de dentro de casa, Januário responde: “PARA SEMPRE SEJA DEUS LOUVADO”. Gonzaga na treita da surpresa lança um chamado: “Seu Januário, tô vindo do Rio de Janeiro, trago um recado do seu filho e trago até uma coisinha pra botar na sua mão. E mais:  “quando vier de lá me traga um coco d’água que eu tô morrendo de sede”. Esse “botar uma coisinha na sua mão”  seria par despertar o interesse do favorecido e dar maior pressa ao atendimento. Avalia Gonzaga.

Interessante é como na canção a gente assiste aos detalhes, a gente olha e ouve os fatos, as pessoas, as vozes e todo um cenário daquela chegada.  Gonzaga então observa pela “greta” quer dizer  pela fresta da janela quando o seu pai acende o candeeiro (que  é a lamparina), e com um caneco leva-o ao fundo do pote; TIBUM... Esse “tibumgado” para quem conhece o pote como eu, conheço de perto, é a própria realidade.  E esse COCO D’ÁGUA? Quem é nordestino e pobre, num tempo em que não havia bolsa família nem,  bolsa escola e outras mesuras do governo, a casca de coco (esse coco da praia, ou coco da Bahia) era serrado e prestava-se a uma vasilha, uma caneca, um copo. Daí que o filho pede ao pai – “quando vier me traga um coco d’água”. Quanta originalidade!!!  Vi tantas vezes pedir; “me traga uma cuia d’água”...

Tudo muito extraordinário explícito e genial na interpretação desse momento. O velho pai, então arreia o coco d’água e a lamparina no batente da janela, retira a tramela,  levanta a lamparina acima do rosto,  para  ver o chegante. É quando Gonzaga na canção faz a voz do pai: QUEM É VOCÊ???  E Gonzaga na mansidão e matando saudade responde como na sua voz: “Sou eu, Luiz Gonzaga seu filho..” É quando o  velho pai dá o grito de exclamação e louvação na interpretação   do filho: “Santana, Gonzaga Chegou. Viva Deus!”.  Que momento extraordinário! É quando a filhara acorda e logo em seguida, a casa se enche de gente e Gonzaga toca e canta até dia amanhecer....

Ocorreu que a certa altura daquele improvisado forró, Raimundo Jacó deu um brado: “Luis, respeita Januário, moleque. Esse “moleque” da voz de Raimundo Jacó,  não tem sentido nem intenção  de ofensa. É a composição da linguagem do cearense/nordestino.E aí a composição completa:Tu pode ser famoso/ mas teu pai é mais tinhoso e com ele ninguém vai. Luís, respeita os oito baixos do teu pai”.

Tudo na canção é marcante e expressivo, explícito, contagiante, extraordinário! Tudo! Mas a passagem que me chama particular atenção é quando Gonzaga fala, na sua chegada, daquela “madrugada branca, madrugada sertaneja, com o céu cheio de estrelas, todas suas conhecidas, todas no mesmo lugar”. As pessoas do asfalto, com as luzes da cidade acesa na noite, vida corrida,  não observam, nem avaliam o romântico, a beleza, o incrível, o extraordinário que é  para o sertanejo UMA MADRUGADA BRANCA, UMA MADRUGADA SERTANEJA,  assim como na canção deLuís Gonzaga: RESPEITA JANUÁRIO.

A canção assim considerada pelo próprio Gonzaga, “foi uma pérola que Humberto Teixeira lhe deu”. É um clássico, um ícone do forró “pé de serra”. Não é só uma extraordinária criação, é também um livro contendo as molduras de em tudo o que nele se vê – tanto na composição quanto na leitura, na interpretação
                                       * Viegas questiona o social
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CLEMENTE VIEGAS

CLEMENTE VIEGAS

O Doutor CLEMENTE VIEGAS e advogado, jornalista, cronista e contesta o social.

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