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02/04/2022 às 00h00min - Atualizada em 02/04/2022 às 00h00min

Não me arrependo... E o casamento continua...

AURELIANO NETO

AURELIANO NETO

Doutor Manoel AURELIANO Ferreira NETO é magistrado do Tribunal de Justiça do Maranhão

 
As frases acima - “não me arrependo” e “o casamento continua” - sinalizam para uma outra ética de vida e convivência dos tempos desta nossa passageira travessia. Reflete o novo viver, o novo sentido da vida, da família, dos valores que estão por aí dispersos na formação de uma nova cultura. Da tão decantada Grécia aos nossos dias, quanto coisa mudou. E teria mesmo que mudar. A mulher não mais nasce mulher, nem se faz mais mulher. Beauvoir talvez estivesse certa quando, em O Segundo Sexo, cinzelou a célebre dedução filosófica: “Não nascemos mulheres, tornamo-nos mulheres.” Não é bem em razão dessa premissa, mas não há mais bissexualidade nem unissexualidade, e sim uma plurissexualidade. Ou, até mesmo, uma admitida assexualidade. Nem mulher nem homem. Sem gênero. E assim caminha a humanidade, título de um velho filme em que o machismo imperava, e se não me engana, com o célebre galã James Dean, morto ainda muito jovem.

Mas, tão-só para ilustrar, transcrevo esta interpretação que foi dada à famosa frase de Simone de Beauvoir: “É a frase mais clássica de Beauvoir, retirada do livro O Segundo Sexo. Para ela, ‘nenhum destino biológico, psíquico, econômico define a forma que a fêmea humana assume no seio da sociedade; é o conjunto da civilização que elabora esse produto intermediário entre o macho e o castrado que qualificam o feminino’. Em outras palavras, ela defende a distinção entre sexo e gênero. O primeiro é um fator biológico, ligado à constituição físico-química do corpo humano. Já o segundo é construído pela sociedade, ou seja, ser homem ou ser mulher não é um dado natural, mas algo performático e social — ao longo da história, cada cultura criou os padrões de ação e comportamento de determinado gênero.” Tem-se aí uma explicação bem explicada, que esclarece aos poucos entendidos a entenderem o que Beauvoir disse há algumas dezenas de anos e que serviu de dístico para a luta que já vinha travando as feministas e os feministas.

O certo é que as mulheres ou não mulheres vêm caminhando, já se avizinhando ao ponto de chegada, para eliminar essa história antiqüíssima de primeiro e segundo sexo. Não há sexo. Há seres humanos. Alguns, em bom número, se consideram assexuados. Nem uma coisa nem outra. Como diz o sambista, deixando de lado a reflexão filosófica, é a vida, é a vida. Viver e não ter vergonha de ser feliz. Cantar, e cantar, e cantar. A beleza de ser um eterno aprendiz. Pois é, enquanto vida, somos dessa vida eternos aprendizes

Mas donde fui buscar as frases do título acima? Sem arrodeios (este verbo me veio do sacrário da memória), respondo: de uma notícia perdida no meio de tantas outras, que me chamou a atenção: “’Não me arrependo’, diz sem-teto agredido após ser flagrado com esposa de personal.” Pensei: deve ser um fato muito grave. A curiosidade de saber o que ocorrera me foi despertada. Iniciei a leitura para matar a sede da curiosidade. Dizia mais: “O sem-teto Givaldo Alves de Souza, de 48 anos, reafirmou em entrevista ao Portal Metrópoles na quarta-feira (23) que a relação com Sandra Fernandes, no último dia 9, em Planaltina (DF), foi consensual e que ele foi convidado por ela para entrar no veículo. O homem acabou sendo agredido pelo personal trainer Eduardo Alves, de 31 anos, que afirma ter pensado que a esposa estava sendo vítima de um estupro.”

Em si, esses são os fatos. Consta, ainda, o seguinte esclarecimento do Sr. Givaldo, sem-teto, morador de rua: “...a mulher teria insistido para que entrasse no carro mesmo após ter afirmado que não ‘tinha tomado banho’. Eu andava pela rua e ouvi um grito: ‘Moço, moço’. Olhei para trás e só tinha eu. E ela confirmou comigo dizendo: ‘Quer namorar comigo?’. ‘Moça, eu não tenho dinheiro, sou morador de rua. Não tenho dinheiro nem para te levar ao hotel’. Então, ela disse: ‘Pode ser no meu carro’.” Assédio inevitável, deu-se a consumação amorosa fortuita entre a socialite e o Sr. Givaldo, de 48 anos de idade, que ainda sequer tinha tomado banho. Aliás, na situação imprevista, ato desnecessário. Mas, o marido não gostou. Talvez porque o sem-teto não tivesse tomado banho. E, por se tratar de um personal trainer, que é vidrado em limpeza corporal e em outros asseios, resolveu dar uma surra no sem-teto, pra que ele sempre tivesse o cuidado de tomar banho antes de qualquer prática amorosa, ainda mais com o seu cônjuge.

Sandra Fernandes, a nossa indigitada personagem, declarou que, naquele momento de onírica aventura, viu na pessoa desse afortunado morador de rua “as imagens do marido e de Deus”. O personal não teve dúvida. Acreditou nesse vislumbre deísta. E, após espancar o feliz ou infeliz sem-teto, por ter aceitado o inusitado convite e cumprido a honrosa missão, afirmou do alto de sua convicção de cidadão zeloso e protetor da família que o “casamento continua”. E justificou: “Não é por um fator que ocorreu, como um surto, que vou desconhecer a pessoa com que eu convivi por 3 anos.” O problema que fica: se esse surto virar epidemia, não tenho nenhuma dúvida de que a população de rua vai aumentar, para atender às portadoras dessa grave patologia. Enfim, só Freud para explicar.

* Membro da AML e AIL
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