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26/03/2022 às 00h00min - Atualizada em 26/03/2022 às 00h00min

...JÓIA PARA O DIVINO ESPÍRITO SANTO

CLEMENTE VIEGAS

CLEMENTE VIEGAS

O Doutor CLEMENTE VIEGAS e advogado, jornalista, cronista e contesta o social.

 
Era uma manhã de verão. Eu estava aos dez ou onze anos de idade num caminho estreito de chão que era a nossa vicinal, no Povoado do Laranjal, pouco adiante do decano Norato Barros, meu tio-avô. Ali pertinho de onde hoje se levanta o MEMORIAL DE ANTONIO DE INEZ,  senhor pai. E quando dou por conta, vejo uma caminhada em diversas pessoas, em fila indiana, que seguiam em conversas miúdas. À frente um rapaz com uma grande bandeira vermelha, esta com a ilustração de uma pomba branca, ao centro. Em seguida uma jovem com a imagem de uma pomba branca às mãos, duas caixeiras com suas caixas em silêncio, mais uma senhora de mãos ocupadas e, por último, um senhor montado em um modesto cavalo de cangalha.

Daí a pouco quando dou por mim, pouco antes de irromperem ao terreiro do velho NORATO BARROS, as caixeiras dão início a um canto e... bam-bam, bam-bam-bam-bam-bam – bam-bam, bam-bambam-bam-bam-bam. Era o canto de chegada. Era a abertura de sua função, à chegada da casa do velho Norato Barros, na “pedição” de Joias – que são ofertórios materiais à FESTA DO DIVINO, consoante era assim da tradição daquele tempo.

Ao terreiro do velho Norato Barros e sua mulher D. Margarida, com o cavaleiro à retaguarda, logo a trupe forma uma roda. A Jovem moça, de posse da imagem da pomba branca, estende as mãos à frente, num humilde e solene gesto de um ofertório ou apresentação da imagem. O rapaz da bandeira, tremula a sua bandeira de forma vibrante, como num ritual. E as caixeiras com suas caixas bam-bam, bam-bam-bam-bam-bam.  O Bandeireiro, um rapaz  de seus 20 anos, despertava os olhares da moçada em volta. Logo eu também quisera ser um bandeireiro. Afinal, o visível prestígio do bandeireiro, ali, estava em alta.

Segue o pancadão das caixeiras. A moça com a imagem da pomba nas mãos como em oferenda. O bandeireiro fazendo firulas e contorções com a sua bandeira e eu ali, dez anos de  idade, só “urubuservando”, sem jamais imaginar que um dia escreveria um texto sobre aquela cena. Nisso surge uma senhora que integra a trupe e, num ritual da função, de posse de uma fita colorida, efetuava um breve laço ao braço de um ou outro circunstante, indicação de que este estava PRESO. E tornava-se devedor de uma joia (quer dizer: uma prenda) para a festa do Divino. E só seria “libertado” mediante o pagamento ou a promessa do pagamento que ele, pelo princípio da fidelidade sertaneja, haveria de cumprir. De honrar.

Em seguida outras tantas “prisões” e outros tantos pagamentos ou promessas de pagamento. De vaga lembrança, aquele ou aqueles que se punham de braços cruzados ao tórax, esses então logo eram visados à prisão. E eu ali, aos onze anos, “enxerido” e com medo de vir a preso. Ao final da função/apresentação, a féria estava feita. O anfitrião NORATO BARROS, como não poderia deixar de ser, teria cumprido a sua etapa na doação da joia para a Festa do Divino. Generosa, como era de se esperar. Que anfitrião que se preza, aos demais deve superar.

Terminado o ritual, caixeiras, bandeireiro, a moça da pomba, a mulher das prisões, e o homem do cavalo este que era o depositário das doações, seguem no comboio para cantarem noutras casas ao longo do caminho, não sem antes “pegarem uma boia” porque na minha terra, ao tempo da luz de querosene, uma merenda, um “de comer” ou um “de beber”, fazem parte das honrarias da casa, diante de qualquer chegante. E, nessa continuidade, até mesmo pernoitarem pelo caminho se necessário fosse, qual pernoitaram antes de chegar à casa do velho Norato Barros. E seguem, sem medo de serem felizes, com destino à morada da festa para as bandas do São João dos Arouche, onde dias depois se realizará a FESTA DO DIVINO.

Hoje, sessenta e cinco anos depois, eu me lembro daquela manhã: caixeiras em bam-bam-bam, mocinha com a Pomba do Divino em oferenda, a outra prendendo e soltando para receber donativos (arroz, feijão, farinha, porcos, galinhas, dinheiro e tudo o mais), que eram entregues ao homem do cavalo. E o bandeireiro fazendo firulas com sua bandeira vermelha e despertando o interesse da jovem mulherada – quando eu, então, logo quisera ser um BANDEIREIRO. E, de lembranças essas, escrevo agora para estes... CAMINHOS POR ONDE ANDEI, ao rever, na memória, aquela exortação: “... JOIA PARA O DIVINO ESPÍRITO SANTO”.

* Viegas questiona o social
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