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29/01/2022 às 00h00min - Atualizada em 29/01/2022 às 00h00min

Questão de gosto, dizem, não se discute

 
Gosto é gosto. E tem gosto pra tudo. Eu tive um amigo – ressalto, grande amigo – que gostava de mentir. Pra ele a mentira mais deslavada se constituía numa verdade absoluta, sem um reles simulacro de engodo. E ai daquele que caísse na estupidez de contestá-lo; ele, esse amigo, virava uma fera, capaz de ir às vias de fato. Certo é que, na sua concepção ilusória, de autoengano, a verdade era um tormento revestido de armadura e difícil de ser acreditada. Em resumo: a mentira nascia vestida na roupa da verdade. Eu o admirava, pelo simples fato de ter dificuldade de mentir. Não que não minta. Não é bem isso. Mas as minhas mentiras têm um jeito tosco de afronta à verdade. Não conseguem encorpar-se. Ser independente. Nascem desmascaradas pela dúvida de quem as ouve. Sou fácil de ser flagrado na mentira. Dou logo o braço a torcer. Pois é: que adianta querer ser o que não se pode ser. Mas, dizem, que há a mentira necessária. Foi o que me afirmou outro velho companheiro de andanças - ele casado e eu vivendo todas as liberdades de solteiro. Costumava dizer-me que fosse, em certas circunstâncias, um necessário mentiroso. Nunca afirmar certas verdades para a mulher. E sempre negar até as últimas conseqüências, ainda que não houvesse mais argumentos justificáveis. Mais ou menos assim, dizia: - Tu estavas em companhia de... Não, não estava. – Fulano te viu. Não, deve ter sido outro. A fulana se enganou, com certeza. Sempre negando e negando. Segundo ele, é um método mais clássico de mentir, sem o sofrimento íntimo de inventar uma história qualquer, que termina se chocando com a verdade.

Por ter essa dificuldade de mentir, é que não gosto de inticar (palavra mais antiga que a mentira) com as pessoas ou as coisas. Gosto de outras coisas. Gosto do passado, porque já passou, e a lembrança do que passou, me faz entender o que é melhor para o presente, em que pese a máquina do tempo ainda ser um sonho só realizado na criatividade dos nossos cineastas. De Volta para o Futuro nos traz a utopia de viajarmos no tempo. Dá uma vontade danada de ser passageiro daquele carro e dar uma passada pelo ano de 2023, para ver como é que o Brasil saiu desse sufoco de 2022. Seria uma catártica ida para o futuro, em fuga do presente que foi feito passado.

Em que pese o mundo tecnologizado que estamos a viver, ainda assim prefiro a sensibilidade dos meus amigos do passado, mentirosos por adesão ou por necessidade, a um robô programado para nos dar felicidade artificial, mas que é apenas fiel ao seu sistema de comando, e, ainda assim, muito menos do que um terno cachorro de estimação, que, sem subterfúgio, vem nos receber aos saltos e a sacudir o rabo, numa demonstração de apego e reverência à socialidade afetiva.

Gosto não se discute. Talvez se tenha aí uma verdade, pelo menos assim creio. É um axioma que nos acompanho há milênios. No dia 20, morreu a sambista Elza Soares. Outra verdade; no dia 24, falece o guru bolsonarista Olavo de Carvalho. Se não for fak news, tem-se outra verdade. E, nesse estreito espaço de tempo em que a morte vem incessantemente trabalhando, morre a mãe do capitão. Dizem – eu não sei, li apenas, mas não quis acreditar – que ele, após o velório, ou a visita protocolar, passou por uma casa lotérica para fazer um despretensioso joguinho. Mas não decretou luto oficial, nem por um mísero minuto. Honra que prestou ao seu guru e do fascismo contemporâneo, decretando luto oficial por um dia. Já Elza Soares, essa sambista que veio do morro, da lata dágua na cabeça, passou, morta, a freqüentar todos os programas de televisão. De Fátima Bernardes pra diante. Foram-lhe dedicados os mais santos elogios, como a mulher que se apaixonou por Garrincha, um amor sublime, puro etc. Em que pese tudo isso, nos últimos tempos, sequer era chamada para fazer ponta em algum programa de TV. Ficou no ostracismo até que a morte a ressuscitou. Sem contar que o seu espírito teve que suportar a hipocrisia da referência ao seu grande amor por Garrincha, quando, na época, Elza foi demonizada, como a mulher que afastou o famoso craque da Seleção Brasileira das sete filhas e da mulher, abandonadas por obra e graça desse grande amor de Elza Soares. A negra e sambista Elza foi atropelada pelos preconceitos que destilaram contra ela. O que a salvou, de verdade, e ao próprio Garrincha foi o talento artístico da sua voz, do seu canto, que continuaram vendendo discos e faturando em shows. Na Itália, ajudados (ela e ele) por Marieta Severo e Chico Buarque. De resto, tem gosto pra tudo, até mesmo para lamentar a morte libertadora desse filósofo do caos. Que ele descanse com a sua filosofia anônima e nos deixe na nossa quietude de infinita paz.

* Membro da AML e AIL
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AURELIANO NETO

AURELIANO NETO

Doutor Manoel AURELIANO Ferreira NETO é magistrado do Tribunal de Justiça do Maranhão

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