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27/11/2021 às 00h00min - Atualizada em 27/11/2021 às 00h00min

Anestesia

   
Nos dias atuais, na rotina dos hospitais, ao redor dessa maravilhosa esfera azul em que vivemos, a Terra, realizam-se milhares de procedimentos médicos diários em que a anestesia é usada, desde simples cirurgias pequenas até os complexos transplantes de órgãos, vocês já imaginaram que houve um tempo em que isso não existia, e o que foi que possibilitou esse progresso A ANESTESIA!

Vou, em apertada síntese descrever uma cirurgia de rotina da era pré-anestésica e depois relatar a primeira cirurgia com utilização de anestesia. Esse relato é extraído do maravilhoso livro “O século dos Cirurgiões” obra magistral de Jürgen Thorwald que pode ser baixada em PDF na internet, vale a pena ler, tem a história de vários dos progressos da ciência médica ao longo do século XIX e XX.

Quantas cirurgias realizam por dia um grande hospital! Centenas com certeza, mas em 1840 o maior hospital da América o Massachusetts General Hospital realizava o impressionante número de 40 cirurgias por ano! Passo a descrever um ato cirúrgico realizado à época:

“Warren aguardava o último paciente, entrou na arena cirúrgica um rapaz cambaleante, aterrorizado que se sentou na cadeira operatória e por trás dele um vigoroso enfermeiro, havia em um canto, longe das vistas do paciente, um fogareiro com diversos ferros cirúrgicos aquecidos em brasa. Warren portava em uma mão uma pinça forte e na outra o escalpelo, solicitou ao paciente que mostrasse a língua com um tumor canceroso e prontamente a prendeu com a pinça, o rapaz deu um grito de dor, tentou recuar, o vigoroso enfermeiro o prendeu e o cirurgião em um golpe extremamente rápido amputou a língua, o sangue jorrou por toda a parte, Warren jogou o escalpelo à mesa instrumental estendeu a mão e lhe foi dado um ferro em brasa sem que o rapaz visse, já que estava com dor intensa, aturdido e gorgolejante, com um movimento súbito o enfermeiro pôs a mão diante dos olhos do paciente e Warren premeu o ferro no talho ensanguentado, com movimentos bruscos o rapaz conseguiu se afastar mas o cirurgião junto com o enfermeiro o acompanharam, não largando a língua e mantendo o ferro em brasa na boca, um cheiro forte de carne queimada invadiu a sala e o paciente finalmente desmaiou de dor intensa, término do procedimento considerado bem sucedido” UFA!  Imaginem outros procedimentos como amputações, reduções de fraturas, tratamento de ferimentos, complicados e dramáticos.

Mas em 16 de outubro de 1846 fez-se a luz! A anestesia sob narcose nesse mesmo hospital com o mesmo cirurgião. Inicialmente houve outras tentativas fracassadas, mas relatarei a primeira com sucesso.

Nesse dia adentrou a arena cirúrgica um jovem tuberculoso, assustado, descorado com um tumor submandibular que invadia a língua, chamava-se Gilberto Abbot, sentou-se tremendo na cadeira operatória vermelha. Empertigado, impassível frio e desapaixonado encontrava-se o grande mestre da cirurgia, Warren, que descreveu aos internos, o procedimento cirúrgico a ser realizado e a tentativa da utilização de um método para não haver dor. O Sr. Morton que iria realizar a ablação da dor estava atrasado, como sempre anestesista “atrasado, até hoje”. O Sr. Morton ordenou que o paciente inalasse o gás profundamente, e após algumas inspirações o paciente relaxou, o grande cirurgião arregaçou as mangas e desferiu o primeiro golpe e não houve um gemido, assustou-se, empertigou-se e prosseguiu terminando seu procedimento sem um gemido de dor do paciente. Warren, mestre da cirurgia, endireitou-se e portando o bisturi, mais pálido do que o habitual, o trejeito sarcástico desaparecera, os lábios esbranquiçados, faiscavam-lhe os olhos e afinal pronunciou “Isso.... Senhores, não é nenhum embuste”.

De improviso em sua face engelhada, ressequida, cintilou um brilho úmido, Warren, o soberbo, o lacônico, o coração frio empedernido, avesso a toda manifestação de sentimento CHORAVA!

Essa manifestação foi por segundos, mandou entrar o segundo paciente, um problema na coluna que requereria cauterização com ferro quente e este aquecido ao ponto de estar branco foi premido no dorso do paciente sem manifestação dolorosa, sem um gemido, sem uma queixa.

Esse acontecimento, que ocorreu por instantes, numa manhã fria no recinto operatório do Hospital Geral de Massachusetts em Boston, mudou o mundo, abrindo um fantástico século de descobertas e novos progressos.

Hoje esse recinto é preservado, aberto à visitação pública e denominado “The Ether Dome”,  A Cúpula do Éter.
 
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NAILTON LYRA

NAILTON LYRA

O Doutor ​NAILTON Jorge Ferreira LYRA é médico e Conselheiro Regional de Medicina e Conselheiro Federal de Medicina representando o Estado do Maranhão

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