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06/11/2021 às 00h00min - Atualizada em 06/11/2021 às 00h00min

Aonde chegaremos?

 
Não sei. Quem sabe? Apenas sei que os chefes de Estado estão Glasgow, cidade portuária da Escócia, fazendo um amplo e necessário debate sobre a questão climática que afeta o mundo, incluindo-se, nessa situação de risco, a nossa pátria amada, que, nos últimos anos, vem transformando a floresta amazônica em uma imensa fogueira, que, com as suas labaredas, destrói, ante os nossos sofridos olhares, a nossa rica biodiversidade. Enquanto o mundo se debate para resolver (ou tentar) o gravíssimo problema do aquecimento global, o chefe desta nossa pátria amada, eleito com mais de 50 milhões de votos, agride os jornalistas que ousam interpelá-lo e, o pior, faz uma viagem de turismo, às custas dos impostos pagos por todos nós, gozando, nas suas andanças inúteis pelo mundo desenvolvido, dos prazeres que o povo brasileiro está bem longe de usufruir.

Com essas visíveis e inquietantes aberrações, aonde chegaremos?

Continuo não sabendo. No período da ditadura militar, mais ou menos igual ao que está ocorrendo nos dias de hoje, tínhamos a figura imponente (porque imposto) de Médici, o do radinho de pilha e do Brasil ame-o ou deixe-o, além de ser autor, com seus asseclas de ocasião, do estelionato do milagre brasileiro, que ia para o Maracanâ, cercado de segurança por todos os lados, enganar o torcedor que adorava ser enganado, enquanto nos porões da ditadura se torturavam e se matava os brasileiros que não concordavam com todos aqueles engodos. Não falo de Costa e Silva, por este, como é o de hoje, ter sérios problemas de subnutrição mental. Mas, misturando todos eles, não quero troco. Sequer sabiam o que era Estado (a não estado maior) e muito menos ser chefe de governo.

Mas insisto: aonde chegaremos?

As mais recentes notícias estão a nos dizer que vivemos um período de estratosférica inflação, somando-se a um gravíssimo desemprego. Enquanto o brasileiro vive esse drama, que o faz morrer de fome, o ministro da economia, o Sr. Paulo Guedes, tem milhões de dólares aplicados em paraíso fiscal. E o pior: ficou tudo como dantes. Paira no ar um silêncio midiático. Ninguém mais tocou no assunto. Lendo os jornais e os sites de notícias, tomei conhecimento das imensas filas de pobres brasileiros – homens, mulheres e crianças, ao sol e chuva -, para receberem mísera doação de frutas e verduras, que, com certeza, e não precisa nem ser especialista em agronomia ou algo parecido, devem ser sobras das que não servem para o mercado – o santo mercado dos capitalistas milionários. Vejam só a tragédia da notícia: “Só nos últimos 12 meses, período em que os alimentos dispararam 20%, a renda real familiar per capita do trabalho na metade mais pobre despencou 18%, de R$ 210 mensais para R$ 172.” Não se fale aqui em preço da gasolina, porque isso não interessa diretamente ao pobre pobre, nem no botijão de gás e muito menos nos gêneros alimentícios. Tudo isso anda, como diziam os mais antigos, pelos olhos da cara. O tal do auxílio emergencial é uma grandíssima enganação eleitoreira, além de uma piada de mau gosto. Não serve nem para comprar uma cesta básica. Com a destruição do bolsa família, que se vestia, pelo menos, com a roupagem da moralidade, o Auxilio Brasil é, nada mais nada menos, do que uma esmola.

Mas, quieto aqui no meu cantinho, fui ainda auscultar aonde ainda, nesse caminhar espinhoso, poderemos chegar . E constatei que, como dizia Stanislaw Ponte de Preta, a coisa está mais para urubu do que para colibri. De fato, está. Quer se queira ou não. Vejam esta escabrosa notícia: “Após um vídeo com pessoas revirando um caminhão de lixo atrás de comida, em um bairro nobre de Fortaleza, viralizar nas redes sociais, movimentos populares organizaram uma busca por elas e doaram cestas básicas. Ao todo, 20 famílias foram beneficiadas.” Indo para o popular e traduzindo: a tragédia humana da notícia nos informa que famílias famintas estão matando a fome, recorrendo a restos de comida de carro de lixo. A estratégia é esclarecida por uma dessas pessoas animalizadas pela fome: “Quando o caminhão chega, a gente tem que ser muito ligeira para pegar. Eles jogam, a gente tem que correr para dentro da caçamba, tem que ser rápido. Os garis não podem dar na nossa mão, porque é o trabalho deles”. Explica dada por uma das famintas quanto ao método utilizado para participar dessa crueldade que lhe é imposta pela fome.

O mais cruel de todo esse drama é ler esta declaração: “O pão de cada dia quem me dá é o lixo. Todo dia, meus filhos e eu vamos para o lixo para comer.”

Por sua vez, o capitão, que tem como patologia maníaca espancar jornalistas que, por dever de ofício, caem na asneira de lhe fazer perguntas, além de sequer se interessar por qualquer coisa que diga respeito ao ser humano, dedica-se inteiramente ao bem-bom dos banqueiros (não os do jogo de bicho) e empresários capitalistas, fazendo turismo nas belas cidades europeias, às custas do dinheiro público. E pobre brasileiro? Reforma trabalhista, para retirar direitos do trabalhador. Desemprego. Inflação. Fome. E ainda a indignidade da esmola da enganação do Auxílio Brasil, com filas imensas de necessitados, que precisam matar a fome pelo menos num só dia. Lê-se, estarrecido: “Os famintos eram 9% da população, a maior taxa desde 2004. Porém, os números já estão desatualizados. O governo Jair Bolsonaro suspendeu o pagamento do auxílio emergencial por 96 dias no auge da pandemia, retornando-o depois com valores insuficientes para a compra de uma cesta básica e para um número menor de beneficiados.” Pois bem. Com todas essas incertezas, sofrimento e ausência de humanitarismo, aonde chegaremos?  Pelo andar do carro de bois, se ainda houver, nem em 2022 teremos a reposta.

* Membro da AML e AIL
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AURELIANO NETO

AURELIANO NETO

Doutor Manoel AURELIANO Ferreira NETO é magistrado do Tribunal de Justiça do Maranhão

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