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22/08/2020 às 07h22min - Atualizada em 22/08/2020 às 07h22min

...TODAS AS PROMISCUIDADES

Atravesso o túnel do tempo, em mais de sessenta anos e vou parar no antro de todas as perdições; de todas as promiscuidades.  Mas nem só de perdições e promiscuidades vivia o  Bairro do JOÃO PAULO, na ilha-capital.  Havia por ali uma empáfia, quando se dizia que “O João Paulo é um bairro independente”. E era! Lá havia de tudo senão quase tudo. Tinha a Rua da Vala (em céu aberto), o Buraco do Tatu, um gueto de centenas de prostitutas na mais crua pobreza, muitas que viviam de rosto latanhado em brigas com as concorrentes por causa de seus homens. Tinha o Chatô da Dona Perpéta que arregimentava e escravizava suas mulheres com casa e comida e ainda era metida a CHIQUE;

Tinha o Quartel do Exército, cartório,  indústria de picolé e sorvete, indústria cerâmica   cinema,  padaria,  alugados em caminhões, carroças, camionetas e carrinho/s de mão; comércio forte em tecidos e confecções e armarinhos;  colégios Públicos e particulares, Delegacia de Polícia,  indústria de café, lanchonetes,  secos e molhados.  Feira livre, linhas de ônibus e bonde fartamente. E uma amplificadora lá em cima, tocando todas! E, lá na distância a Salina dos Barés e umas caieiras que faziam cal, de pedra.

Era assim o bairro do Bairro do João Paulo,  independente, tal o comércio e os serviços de que dispunha. Necessário acentuar a linha do bonde como serviço de transporte público, muito aprovado ao gosto popular. Serviço barato, fácil, aprazível, constante. O bonde era assim, o “quindim de Iaiá da população”. Nada melhor do que pegar o bonde, andar ao bonde, naquela época. Aquilo sim, um patrimônio IMATERIAL DA CIDADE. Que se foi pelos ares. E que o povo chorou durante muitos anos.

O bairro do João Paulo foi no passado – imagino – ponto final da linha do bonde, na capital. Além de um pequeno abrigo que ali havia na composição da logística do serviço.  O local era feito de um grande praceado, onde o bonde fazia a curva, o RODO de volta. À noite, o local era fortemente iluminado e movimentado o que para ali atraía “mulheres de vida fácil”, notívagos, bêbados, vadios, desocupados, maconheiros, cachaceiros, rufiões,  proxenetas, cafetinas, cafetões, jogadores de jogo de aposta,  (jogo do bicho, baralho, sinuca, porrinha)  e outros e outras da mesma laia. Todos querendo fazer um “bico” e se dar bem. Assim, o João Paulo era o RODO e o Rodo era o João Paulo.

Justo ali, ligados umbilicalmente, havia uma feira livre “com venda e serviços de tudo a tudo”, e uma Delegacia de Polícia que ali chegou pra botar ordem no terreiro e “aquietar” os arruaceiros. E, do outro lado da pista, uma AMPLIFICADORA - “Voz Diacuí´ - com programações diárias, tocando de Valdik Soriano a Nelson Gonçalves, passando por Emilinha Borba e Anísio Silva, com oferecimentos musicais “de alguém das iniciais A e C para alguém das iniciais C e D, com muito amor e carinho”.  E assim vivia o Bairro do João Paulo - O RÔDO - um território de todas PROMISCUIDADES.

Na Delegacia de Polícia, juntinho da feira, todos ali eram “otoridades respeitadas”, numa época em que havia a figura do DETETIVE, uma espécie de investigador de polícia civil, do tempo da Palmatória.  Nessa PROMISCUIDADE havia o ROXO, detetive de polícia que se prestava para cobrar e receber contas, dos “fiados” daqueles comerciantes das cercanias. Tudo na base do “raxa-xá!”, que era como diziam. Diziam que receber conta perdida era com  ROXO. E pronto! Era conta devida e crédito recebido. Pense!!!...

Roxo, detetive e cobrador de contas particulares: bodegas, prostitutas, serviços, etc.,  era um sujeito corpulento, fechado, temido e temível. Não era de dar bom dia pra seu ninguém, nem de fazer viagem perdida.  Andava infalivelmente com o seu guarda-chuva debaixo do braço, fosse inverno ou verão, e, naturalmente com o seu tresoitão na cintura – todos sabiam e tinham a obrigação de saber. E, com essa panca, era só a conta! E “não guardava almoço para a janta”. Devia tinha que pagar. E não tinha pra mais ninguém. E hai de quem!!!

Certa feita, manhã de sol quente,  DETETIVE ROXO foi direto e reto de olho  no raxa-xá, receber do devedor, em favor do “aqueredor”. Chegando lá, ali mesmo na feira, o devedor, o Bianor Faca de Ponta, suor escorrendo ao rosto; rosto e corpo ponteado de escamas, com uma faca pontiaguda, “alumiando” ao sol quente, “afiada de tirar cabelo”,  estava tratando um peixes, uns miudinhos que estavam sobrando da feira; antes de estragar. É quando  chega o ROXO. Bianor Faca de Ponta, duas pingas no juízo, sem dar atenção ao cobrador, fez de contas que não viu ninguém e já prevendo o estrupício, ruminou em silêncio: ”É hoje que o diabo sai da garrafa”. E prosseguiu na sua labuta.

Aí, ROXO, puxou do guarda-chuva e cutucou o Bianô? – E, que hora é que tu vai pagar o homem??? A pergunta era uma determinação.  Bianô não se deu por perdido, fez de contas que nada ouviu e continuou tratando do seu peixe. Estavam ali a onça e a presa, frente a frente! Cara a cara! Aí Roxo, a onça, novamente com o seu guarda-chuva, foi mais contundente:  E aí, tu vai ou não vai pagar o homem??? E deu uma cutucada  na costela  de Bianô, com a extremidade do seu guarda-chuva? Aí não prestou! Bianô, lépido como uma onça, inverteu os papéis, e voou em cima de ROXO, o detetive: E tome uma... duas... três facadas... no vazio. E declarou: “Conta paga aqui na terra e tu vai receber no inferno”. E voou pelo João Paulo de TODAS AS PROMISCUIDADES.

Pronto! Estava ali, na ponta do guarda-chuva e da faca, encerrada uma questão: Nem mais conta a pagar; nem mais conta a receber; nem mais ROXO, o detetive, como cobrador. Nem mais Bianô na feira, no seu pescado. Os que ficaram para trás é que foram dar explicações ao Delegado, bem ali ao lado. ROXO, foi para o cemitério e Bianô capou o gato, pra longe daquele João Paulo, um antro de TODAS AS PROMISCUIDADES...

Na mesma noite o RODO estava lá! Com suas luzes acesas, com os bondes em ida e volta, com o cafezinho e jogo do bicho no abrigo; com as prostitutas fazendo ponto,  com as pessoas em zum-zum-zum, com os cachaceiros, desocupados e baderneiros; com os rufiões, proxenetas, cafetinas, cafetões, maconheiros, ladrões de galinha, notívagos, bêbados, vadios, desocupados, cachaceiros, rufiões,  proxenetas, jogadores de jogo de aposta e outros tantos. Mas sem ROXO e sem Bianô Faca de Ponta, com aquele 2º DP, em polvorosa, se virando com a situação. E seguia a crua vida naquele JOÃO PAULO DE TODAS AS PROMISCUIDADES...

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CLEMENTE VIEGAS

CLEMENTE VIEGAS

O Doutor CLEMENTE VIEGAS e advogado, jornalista, cronista e contesta o social.

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