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10/07/2021 às 00h00min - Atualizada em 10/07/2021 às 00h00min

“CURVA DO NEGUINHO”


Honestamente: Eu não queria fazer do episódio um texto. Mas esse negócio de “alma do escriba” é um negócio sério: Qual um pintor que num risca-rabisca, quando se dá por conta, realiza uma “tela”, eis-me aqui com essa CURVA DO NEGUINHO. Um lugar que ainda hei de voltar, para o episódio relatar e... buscar saber se outros fatos voltaram a acontecer.

Numa das sessenta e oito (68) viagens que as tenho feito à minha terra, onde trabalho o MEMORIAL DE ANTÔNO DE INEZ, para edificar e patentear a memória dos meus pais, a viagem estava completa e bem formada. Tinha o SALVADOR, um operário completo, cabeça de área e em todas as posições, primeiro lugar em absolutamente tudo. Tinha o JOÃO KENNEDY, que não perdia para o Salvador em  absolutamente nada. Tinha o SEBASTIÃO, companheiro, voluntário, pau para toda obra e... tinha EU, o cara que inventou a roda, palpite em tudo mas que mal aperta um parafuso.

Vá, então, a partir de agora, observando as CURVAS e ENCRUZILHADAS DA VIDA. Costumamos sair de volta, de lá para cá às  três da madrugada, que é como divide-se melhor o tempo e o estradão de seiscentos quilômetros em onze horas de viagem.

Naquele dia, porém, saímos às sete da manhã. Uma conveniência qualquer. Nada errado. Lá pela nove, pusemo-nos a procurar, de passagem, na estrada, uma barraca daquelas que servem comida. Numa delas, ainda cheiro de palha, simples, humilde, porém simpática. Paramos.

Eu, perguntador como sempre, enquanto a “comadre” esquentava a comida tão humilde quanto a sua cabaninha, resolvi então perguntar sobre o nome daquele lugar. Ao que ela me respondeu CURVA DO NEGUINHO. Não conformado só com isso fui mais adiante e novamente perguntei: Curva do Neguinho, porquê? Ah meu senhor, responde a mulher, é porque aqui nas noites, ainda cedo da noite, costumava aparecer um NEGUINHO que ficava ziguezagueando na frente dos carros, ora causando perigo e até mesmo desastres. Aí iam ver, não tinha neguinho não tinha nada. E então fez-se em SILÊNCIO!!!

Meu amigo SALVADOR, é um cara extraordinário no trabalho e como cidadão e como tudo enfim nesta vida mas... quando fala-se em coisas como essa do NEGUINHO ele já se desmonta, até parece que perde a voz. Naquele dia, porém, nove e tanta do dia não havia motivo nem para o Salvador e tampouco para mim que sou outro medroso de carteira assinada, termos medo de absolutamente nada. E assim a versão de CURVA DO NEGUINHO, transcorreu “in albis”, que é uma expressão da linguagem forense/judicial e implica dizer  “em branco”, ou, como neste caso: “nada aconteceu”.

E seguimos viagem. E vezes outras voltamos a passar pela CURVA DO NEGUINHO fosse na ida fosse na volta e tudo o que fazíamos, na passagem, 80 por hora era costumar lembrar “Oh! Aqui é a CURVA DO NEGUINHO”. Só isso e nada mais.

Ocorreu que numa dessas viagens saímos de  lá do MEMORIAL DE ANTÔNO DE INEZ às cinco da tarde, diferentemente da esmagadora maioria de vezes que costumamos sair às três ou pouco mais, da madrugada.  A certa altura, no estradão, lá pelas sete da noite, repentinamente, um ônibus que viajava em sentido contrário, atravessou a pista em diagonal, na nossa direção. E foi-se haver com o capim à margem da estrada, à beira do despenhadeiro, na contra- mão. Foi um Deus-nos-acuda! Freamos a poucos metros do ônibus atravessado na pista! Congelamos todos! Foi um sufoco! Ninguém ousou dizer uma única palavra! E quando retomados a estrada, SALVADOR, tão medroso quanto eu, meu amigo Salvador balbuciou: AQUI É A CURVA DO NEGUINHO!!!

Uns três ou mais anos já se passaram. Até hoje volta e meia quando o Salvador e eu nos encontramos, a gente insiste em lembrar do episódio ocorrido  conosco, pouco mais das sete da noite na Curva do Neguinho. E até nos perguntamos: “Será que o NEGUINHO estava travestido daquele ônibus? Será?!

* Viegas questiona o social – e-mail: [email protected]
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CLEMENTE VIEGAS

CLEMENTE VIEGAS

O Doutor CLEMENTE VIEGAS e advogado, jornalista, cronista e contesta o social.

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