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17/09/2022 às 01h56min - Atualizada em 17/09/2022 às 01h56min

É preciso ter um sentido

Elson Araújo
Não é preciso muitos estudos para concluir que se vive melhor quando a gente encontra um propósito.  Propósito é aquilo que se busca alcançar. Um objetivo, uma finalidade, um intuito. Por mais simples que seja um propósito, quando ele é encontrado, abre-se a porta do que chamaríamos de felicidade, ao partir-se do princípio de que ser feliz, entre muitos conceitos, é o estado de quem é feliz, a sensação de bem-estar e contentamento.
 
Parece até uma receita pronta do bom viver. A questão é   que não é nada fácil encontrar um propósito.  Feliz daquele que, por alguma circunstância, feliz ou infeliz, o encontra, ou é conduzido por ele. 
 
Foi motivado pelo sofrimento durante a permanência no famigerado Campo de Concentração de Auschwitz que o neuropsiquiatra austríaco Viktor Frankl, encontrou um novo sentido para a vida e criou a Logoterapia e Análise Existencial, intervenção psicoterapêutica, reconhecida mundialmente, que se fundamenta empiricamente no sentido da vida. O sentido da vida encontrado por ele acabou por influenciar outra sobrevivente do holocausto, sua contemporânea, a psicóloga húngara Edith Eva Eger, autora do emocionante, e recomendável, livro A Bailarina Auschwitz.
 
Ambos viveram os horrores Auschwitz, mas ressignificaram o sofrimento ao extrair dele um sentido para a vida ao adotarem como meta a luta para amenizar os impactos, não só de quem sobreviveu aos campos de concentração, mas de amenizar a condição de quem passou por traumas profundas.  Sem dúvida, o exercício de um bom propósito, reconhecido hoje internacionalmente.

É patente que um bom caminho surge quando descobrimos, mesmo que tardiamente, a necessidade de um propósito na vida. Nascer, viver e morrer sem deixar um legado, uma marca sequer, pode deixar a vida de qualquer um sem graça, chata demais.

Esta semana lendo o livro de Eclesiastes, um dos livros poéticos/sapienciais da Bíblia, percebi a angústia de um sábio, em determinado momento da vida pela ausência de um propósito. Vi ali, o tanto que é importante ter um. Não é possível identificar de quem se trata, mas é narrado o sofrimento de alguém diante de uma situação de angústia, ao refletir profundamente sobre a vida humana e chegar à conclusão de que “tudo na vida se resumiria a ilusão”.

Percebe-se logo nos primeiros capítulos do livro de Eclesiastes, a agonia vivida pelo sábio naquele momento da vida. Um misto de oração, desabafo e exercício filosófico. “Ninguém sabe o que vai acontecer amanhã, nem pode dizer o que acontecerá depois da morte” comenta o sábio/escritor

Mais além, ele aparece com essa reflexão: "Eu tenho visto tudo o que se faz nesse mundo e digo tudo é ilusão é tudo como correr atrás do vento ninguém pode endireitar o que é torto nem fazer contas quando faltam números"

O livro não deixa claro, mas Eclesiastes dever ter sido escrito já nos estertores da vida do narrador, num momento de incertezas e conflitos pessoais, no qual é explicitado que apesar da vida de opulência, para ter sentido, a vida precisa de um propósito. Ter gozado os prazeres da vida não resolveu seu problema. Para ele também nada mais do que ilusão.  Mergulhar no vinho para se alegrar, por acreditar ser o melhor a se fazer durante a vida, também não.

“A vida começou a não valer nada para mim, ela só me havia trazido aborrecimento. Tudo havia sido ilusão. Eu apenas havia corrido atrás do vento”

Perceba no desabafo acima, a agonia e o momento difícil, do ponto de vista pessoal e psicológico, vivido pelo narrador.  Certamente, não se trata de simples palavras ao vento, mas cercada de significados.
 
Assim como muitos livros da Bíblia é um desafio para os estudiosos da área determinar o ano em que foi escrito, e sua autoria. Não é determinante, mas estima-se que o texto tenha sido concebido 250 anos Antes de Cristo. Mesmo não sendo possível identificar diretamente sua autoria estudos tradicionais, baseados em alguns versículos, dão a entender que teria sido Salomão, o segundo rei de Israel, o autor da obra.

O livro me encanta pela atualidade da narrativa em torno de questões cara ao desenvolvimento humano. Me ative à necessidade da busca pelo sentido da vida, mas a obra é recheada de outros conceitos e fundamentos. Das regras de convivência, injustiças, a busca pelo conhecimento, a ilusão das riquezas, conselhos econômicos, e dilemas filosóficos, e até mesmo a necessidade, segundo ele, de o homem temer e obedecer a Deus “porque foi para isso que fomos criados”.

Lendo Eclesiastes, e refletindo sobre a agonia do narrador quando se reporta ao sentido da vida, meu pensamento pousou em Epitáfio, aquela antiga canção dos Titãs. Em tempos atuais, a música casaria direitinho com aquela situação do livro de mais de dois mil anos atrás:

 
Devia ter amado mais ter chorado mais. Ter visto o sol nascer. Devia ter arriscado mais, E até errado mais. Ter feito o que eu queria fazer. Queria ter aceitado as pessoas como elas são. Cada um sabe a alegria e a dor que traz no coração.
 O acaso vai me proteger enquanto eu andar distraído. O acaso vai me proteger enquanto eu andar devia ter complicado menos trabalhado menos.
Devia ter complicado menos. Trabalhado menos. Ter visto o sol se pôr.
Devia ter me importado menos com problemas pequenos
ter morrido de amor  (Sérgio de Britto Álvares Affonso)
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