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17/06/2022 às 23h47min - Atualizada em 17/06/2022 às 23h47min

DO QUE SENTIREI SAUDADE QUANDO MORRER?

Elson Araújo
 
A terça-feira, 14 de junho, amanheceu preguiçosa. No Céu algumas nuvens se esforçavam para impedir a chegada dos raios do sol. Briga que durou pouco, pois logo ele se pôs a aquecer violentamente aquela manhã. As nuvens perderam a batalha do dia.  Ainda bem que, antes disso, cheguei ao meu local de trabalho, uma vez que a terça me motivou a fazer o trajeto a pé.

De casa ao meu local de trabalho são dois quilômetros que poderiam ser vencidos com meus pequenos passos, em no máximo 22 minutos, mas não foi assim.

Aprendi, já faz um bom tempo, que uma maneira de manter a mente sempre alerta e produtiva é prestar atenção aos múltiplos estímulos sensoriais pelos quais somos bombardeados o tempo todo. Comecei a fazer isso por pura intuição, depois li alguns textos especializados sobre o tema e fechei esse entendimento. Aproveito bem os movimentos ao ar livre para ativar todos os sentidos. Uns mais, outros menos; mas todos conscientemente alertas.  Então, um trajeto de 22 minutos sobe para uma hora, uma hora e meia, em média. Dias desses gastei duas horas.

Como ainda era cedo da manhã, as banquinhas de café, tradição da nossa cidade, ainda estavam ativas e cheias de gente “derrubando montanhas de cuscuz” e mordendo as crocantes e gordurosas orelhas de macaco. Havia Pessoas rindo, e interagindo com os amigos, mas também havia outras, sozinhas e aparentemente tristes.

 Percebi um jovem, com o bolo numa mão, e o café na outra, pensativo, olhar distante. Presente, mas visivelmente longe dali. Estava triste. Aquilo me chamou a atenção: o caldeirão comportamental das gentes das cidades ao amanhecer e como aquilo poderia afetar o dia de cada um. Lembrei daquele dito popular que diz que se um dia começa bem, tem tudo para terminar bem. Se começa mal...

Há uma lenda urbana segunda a qual os primeiros humores da manhã, determinam o sucesso ou insucesso do dia.  

Os solitários comensais passariam o dia inteiro daquele jeito, ou seria apenas o resultado de uma noite mal dormida?  E os demais, manteriam aquele bom humor até o fim do dia?

O movimento do cafezinho ficou para trás. Já tinha tomado café, a demora na banca foi só para cumprimentar um conhecido de quem me despedi e segui a viagem.  De repente me observei com aquele sentimento de saudade. Saudade, como se sabe, é quando um certo sabor de nostalgia se faz presente de tal forma que nos traz a vontade de reviver o tempo.  A questão é que não identifiquei o motivo da aparição daquele sentimento. Que era saudade, era, mas não sabia do que, nem de quem.

Antes de chegar ali na Praça de Fátima, do fundo de uma borracharia, fluía a Lista, música do cantor e compositor Osvaldo Montenegro.  Conceitualmente para mim, a boa música é aquela que além do corpo, toca a alma, e a Lista é uma dessas boas músicas. Quem conhece a canção sabe do que estou falando.  O clima de saudade aumentou, mas continuei sem saber do que, nem de quem.

A borracharia é de um amigo dos tempos de escola. Não o via há um bom tempo. Ao lado dele, uma senhora de meia idade, sentada numa cadeira de macarrão, mesmo distraída com o celular, parecia também apreciar aquela música. Percebi isso pelo meneio que ela fazia com cabeça. A canção já estava na repetição das primeiras estrofes.
 
Faça uma lista de grandes amigos

Quem você mais via há dez anos

Quantos você ainda vê todo dia

Quantos você já não encontra mais

Faça uma lista dos sonhos que tinha

Quantos você desistiu de sonhar

Quantos amores jurados pra sempre

Quantos você conseguiu preservar

 
Colhido pela feliz composição do Montenegro, após cumprimentar o velho amigo, uma pergunta, daquelas não programada, me aparece na ponta da língua:

”Quando você morrer, do que mais você vai sentir saudade”?

A resposta do amigo foi de “bate e pronto” e cheia de risos.

- Das mulheres, ora!

Rimos um pouco, comentamos sobre a mensagem da música, foi quebrado o clima de saudade, que eu continuava sem saber do que, nem de quem, e fui embora, porém mais pensativo do que nunca por causa da pergunta que acabara de fazer ao amigo e que algo me sugeria que fizesse também a mim.

E eu, do que sentirei mais saudade quando morrer?
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