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23/05/2022 às 22h51min - Atualizada em 23/05/2022 às 22h51min

Masculinidade Tóxica e o bem-estar do homem

Ismael Souza
Em 2019, a expressão “masculinidade tóxica” foi uma das mais pesquisadas naquele ano. Um comercial da Gillete causou um alvoroço ao tocar no assunto. Apesar de estar tão em voga, você já parou para pensar sobre isso? Normalmente se usa o termo Masculinidade Tóxica para se referir a um repertório comportamental nocivo, um estereótipo do que é ser um homem na sociedade (fortes, independentes e durões).  E isso vem de muito longe: No século 18, o homem era visto como o padrão de perfeição. Porém, a mulher era considerada uma formação imperfeita e menos desenvolvida do corpo masculino – os antigos acreditavam que as genitais da mulher se formavam para dentro, do avesso, como diz Thomas Laqueur em seu livro “Inventando o Sexo”. Com o passar do tempo, quando este homem percebeu que apenas o fator biológico não poderia sustentar sua hierarquia na sociedade, a família e o meio social deveriam ser encarregadas de inculcar neles tudo àquilo que se esperava de um “verdadeiro homem”. Portanto, a estrutura é machista e logo, todos nós somos.

A mensagem do que um “homem de verdade” tem que ser e fazer estão inseridos não só no ambiente de trabalho e família, mas nos veículos de massa. Há toda uma construção simbólica do que é ser homem e que precisa mudar também do ponto de vista cultural: o que você lê, o que assiste…”, diz Octavio Salazar, professor de Direito Constitucional na Universidade de Córdoba (Espanha), pesquisador de gênero, masculinidades e direitos LGTBI e autor do livro El Hombre que No Deberíamos Ser (inédito no Brasil). Além do mal as mulheres com assédio – a coisificação do corpo feminino e ao próprio gênero, ser tóxico faz mal para si mesmo. Segundo um estudo da publicação científica Sex Roles, homens que apoiam uma concepção negativa de masculinidade podem acabar se isolando conforme envelhecem, o que impacta na saúde, bem-estar e felicidade. Quando um homem se depara com algum problema financeiro ou de saúde, eles podem sentir que não têm ninguém com quem se abrir, consequentemente o sentimento de isolamento de angústia pode surgir, podendo evoluir para algum quadro depressivo e até suicídio. Criados por uma cultura de repressão dos sentimentos e exaltação da autossuficiência há uma multidão de homens sofrendo e se matando sem que ninguém se dê conta – alguns homens simplesmente não praticam higiene básica – o câncer de pênis em sua maioria das vezes poderia ser evitado com autocuidado. Buscar ajuda psicológica é um tabu, assim como procurar aconselhamento matrimonial – o homem vive numa espiral vertiginosa e decadente para consigo. Algoz e vítima.

Para buscar uma melhor qualidade de vida, é importante o homem reconhecer que existe uma problemática em continuar reproduzindo estereótipos datados. A sociedade caminha para uma direção em que comportamentos deste nível serão cada vez menos tolerados e para que não sofra, reflita – Buscar um ombro amigo, uma fala, um psicólogo, um médico ou conselheiro é coisa de homem. Homem de verdade.
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Referências: LAQUEUR, Thomas. Inventando o sexo: corpo e gênero dos gregos a Freud. Rio de Janeiro: Relume Dumará, 2001.
CAMPOS-CASTILLO, Celeste. Warming: Hegemonic Masculinity May not Matter as Much as You Think for Confidant Patterns among Older Men. Sex Roles, 2020.
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