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08/10/2021 às 21h44min - Atualizada em 08/10/2021 às 21h44min

O que é perder um ente querido?

A finitude existe para que possibilite o surgimento de outros nascimentos

Elson Araújo
 
A pergunta, por si, emociona. Quem já não perdeu um parente próximo, um amigo, um irmão, o pai, a mãe, ou até mesmo um ídolo do esporte, da música ou da TV? Em tempo de pandemia do coronavírus as redes sociais se transformaram num grande obituário. Os jornais, e os noticiários da televisão e do rádio, também.

O mundo virou um imenso vale de lágrimas. Fala-se em novo normal, um novo normal de difícil convivência, principalmente se essa convivência for com um luto permanente.

Já passei pelo luto diversas vezes. O pior deles foi pela perda de meus pais, ainda na flor da idade. Mãe com 73 e pai com seus 74 anos, ambos ainda durões, mas mesmo assim partiram para a eternidade. Pude velá-los, homenageá-los. Em ambas despedidas de corpos teve até banda de música. A música era a paixão dos dois.

A família teve o privilégio de viver o luto e hoje meus pais estão eternizados nas nossas lembranças, nas conversas, nos eventuais encontros de família, nos velhos álbuns de fotografias. Seu Zuza e dona Tereza não morrerão jamais, pois o mecanismo do luto vivido, e as lembranças permanentes não permitem que sejam sepultados.

Nossa família teve o privilégio de viver o luto e hoje meus pais estão eternizados pelo legado e as boas lembranças deixadas. Uma herança de inestimável valor.

Por experiência posso garantir que o ritual da despedida, embora doloroso, é importante; principalmente quando há amor verdadeiro envolvido. O tempo passa e quando a saudade aperta as lembranças descem feito cachoeira em dias de tempestade, formando um mar de lembranças, alimentadas por rios de lágrimas.

Quando o País completa 600 mil vidas perdidas para a Covid19 surge uma tristeza danada por aqueles que não tiveram o privilégio de velar seus entes, viver o ritual das últimas homenagens. Não houve tempo, nem condições para aquele ajuntamento dos amigos e familiares para o exercício do ritual da despedida. Isso é imensamente doloroso.

Triste a constatação a de que a pandemia retirou das pessoas, em todos os continentes, esse elemento fundamental no ritual da passagem da vida para morte, o ritual da despedida, que é considerado essencial para a superação do luto.

Uma verdade advinda do evento morte é que nunca acostumamos com ele. O que há de mais certo nesse mundo de “meu Deus” é que numa hora, ou num segundo, ela vem e não quer nem saber se estamos preparados ou não. Não importa os pré-datados para cobrir; a colheita que tem que ser feita, aquele compromisso social agendado há meses, a tão sonhada viagem, a formatura dos filhos, nada. Ela chega e pronto: leva nossa essência rumo ao desconhecido. Como consolo, por horas, deixa para trás a nossa forma humana, sobre a qual, quando possível, depositamos nossas lágrimas, dor, sofrimento e lembranças.

 Enquanto humanos, que acreditamos no eterno, o que deixa nossa alma, mais ou menos aliviada, é a desconfiança de que a finitude existe para que possibilite o surgimento de outros nascimentos.
 
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