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18/09/2021 às 00h00min - Atualizada em 18/09/2021 às 00h00min

Além de amigos, eles também curam

Elson Araújo
O período pandêmico serviu para comprovar aquilo que todos já sabiam: a importância terapêutica dos animais, notadamente os cães e os gatos. Fiéis companheiros, os bichinhos ajudaram a milhares de pessoas em todo mundo a passar pela frieza do isolamento social . Conheço muita gente que me disse que “não sabe o que teria acontecido, na fase aguda da quarentena, se não fosse a companhia do cão ou do gato”.

Esse poder que os animais exercem sobre os humanos me empurrou mais além para uma reflexão maior sobre a importância, não só dos cães e dos gatos, para o planeta e a vida das pessoas. Como eles são capazes de curar e nos ensinar, muita coisa. É só parar um porquinho e observar.

Aprende-se muito ao se observar o movimento e o comportamento dos bichos. Eles são de fato, grandes mestres. Alguns, como o pássaro João de Barro, de tão fascinante, ganharam até comercial na TV e aparecem nela a toda hora; outros nem tanto, mas com cada um deles a apreensão de um aprendizado, de um conhecimento.

Tomemos como exemplo inicial o calango nordestino. Pertencente ao reino dos lagartos esse animalzinho nos reserva, ao seu instinto, uma lição prática de vida: ele ao menor sinal de ameaça costuma parar, levanta a cabeça, analisa o ambiente, olha de um lado para outro, e só depois disso, achando-se seguro, segue adiante. Sem dúvida um belo ensinamento, principalmente nestes tempos de pouca reflexão.

E o que dizer daqueles que interpretam a natureza, preveem situações do dia a dia das pessoas e até, como já dissemos, curam?

Aqui no nosso rico nordeste existe um inseto conhecido como “paquinha”. Ele tem pouco mais de dois centímetros, a cabeça forma a metade do corpo e possui garras firmes que ao menor sinal de ameaça servem para cavar um buraco e desaparecer rapidinho no chão.  É um bicho muito feio, porém é só esse pequenino aparecer para o sertanejo ter a certeza de que vai chover.

A esperança é um inseto muito verde, e de hábito de vida noturno, parecido com uma folha que costuma, também, aparecer no período chuvoso, mas a fama dele não é de adivinhar chuva, e sim o de trazer sorte ou mau-agouro. Reza na cultura popular a crença de que o pouso desse inseto em uma casa ou pessoa, é sinal de boa sorte. Já encontrá-lo morto não seria um bom sinal.

E já que entramos na chuva. Fora a paquinha, a natureza está cheia de animais, rastejantes ou alados, tidos como “meteorologistas”. Destes,  o Sabiá talvez seja o mais famoso do sertão. Encontramos no Cordel do Fogo Encantado, de Bernardino e João Paraibano, um verso que retrata esse lado meteorologista do dono do canto mais piedoso do sertão.

-O Sabiá no sertão quando canta comove. Passa três meses cantando e sem cantar passa nove porque tem a obrigação de só cantar quando chove-

Essa semana uma sertaneja no sul do Maranhão, criadora de dois sabiás, confirmou os versos do João Paraibano. “Aqui quando eles começam a cantar, pode esperar que, no máximo em três dias, a chuva chega”.

Sobre o curió, famoso pelos cantos variados, também pairam vários mitos. Um deles o de curar doenças respiratórias, principalmente asma.  Os antigos sertanejos foram instados a criá-los não pelo valor do canto, mas pela crença de que mantê-lo em casa próximo ao doente esse seria com o tempo curado.  O Jabuti obviamente, não voa, no entanto, tem essa mesma fama, a de curador da asma. Basta mantê-lo no mesmo ambiente do doente enquanto o mesmo dorme, acredita o sertanejo raiz.

Antes do encerramento deste texto, não há como não falar da Coruja e do Beija Flor.

Nas pequenas comunidades são muitas as estórias em torno dessas duas diferentes aves. O beija flor entrar pela porta da frente e sair pelos fundos, era sinal de má noticia, principalmente aviso de morte na família.

Na minha meninice, nos idos da década de 1970, acompanhei uma família entrar em desespero depois de receber a visita de um beija flor da forma relatada acima. Coincidência ou não, meia hora depois chegou a informação de que o patriarca da família tinha sido vítima de um acidente fatal na roça ao derrubar uma árvore. Para outros, no entanto, a visita de um beija flor é sinal de boa sorte, sinal de que algo bom está por vir.

A coruja, símbolo da deusa grega da sabedoria (Atena) e da filosofia, mesmo tendo essa honraria, talvez seja a mais discriminada das aves. Raro encontrar um criador dessa ave, de quem muita gente quer mesmo é distância. Quando ela aparece em alguma casa no sertão é comum os moradores se apegarem aos santos ou a outra fé e se debruçarem em oração em rogo pela quebra do mal que poderia vir.

O pavor da curuja não é para menos já que há a superstição de que esta adivinha a morte com o seu piar e esvoaçar sobre as residências.  Há certas situações que terminam por reforçar esse estigma.

-Um dia uma coruja entrou na casa de uma amiga pousou sobre a geladeira e dois dias depois a mãe dela, que já estava doente, morreu-.  Eis mais um relato ouvido sobre o “lado negro da coruja”.

A lista de bichos que “curam, fazem previsões, trazem boa, ou má, sorte ou curam doenças é muito extensa. Basta sair um pouco da agitação das grandes cidades e” dois dedos” de prosa com membros de famílias tradicionais das pequenas cidades do interior do Estado para se deparar com uma lista enorme de casos e causos envolvendo bichos curadores e adivinhadores.

Você, conhece algum?

 
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