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03/07/2021 às 00h00min - Atualizada em 03/07/2021 às 00h00min

A crise nossa de cada dia


Temos que admitir, embora sem o querer, que nosso Brasil, a velha Terra de Santa Cruz, hoje ufanisticamente chamada de Pátria Amada, tem uma vocação para crise. Não sei se é uma vocação congênita, ou se foi adquirida no curso da sua história. O certo é que há sempre crises. E há crises e crises, a dependerem da sua abrangência e das suas vítimas. Venho a saber que, na crise da pandemia da Covid-19, os ricos, que eram milionários, conseguiram aumentar, ainda mais, a sua fortuna; e os pobres, pra seu azar, aumentaram a sua pobreza, passando boa parte dessa gente invisível à condição de miseráveis. Essa é uma dessas crises com preconceito classista, cujo desfecho deletério só atinge a turma de baixo, enquanto o pessoal do alto da pirâmide está rogando a Deus para que a pandemia continue, até porque, daqui do meu cantinho de isolamento, tenho me estarrecido com as notícias sobre as negociatas viróticas de compra superfaturada de vacinas, com o envolvimento de empresários, amigos do rei, aproveitando-se desse momento para enricar mais ainda, à custa do erário público.

Todos nós sabemos – e eu não quero didatizar a nossa conversa – que a palavra crise é um termo médico a indicar situação de gravidade do estado de saúde do doente. De lá da medicina veio para o nosso corriqueiro convívio e não quis mais se arredar. Fincou-se entre nós, passando a significar mudanças decisivas, para pior, em qualquer aspecto da vida social. Se está tudo bem, não há crise, a não ser a existencial, em que o ser humano questiona a sua própria existência de vida, não encontrando respostas, obriga-se a buscar ajuda de um analista, que nem sempre consegue resolver os seus problemas existenciais, deixando-o numa dramática dúvida: viver ou morrer.

Recentemente entramos na crise hídrica, que culminou na crise de energia elétrica. Resultado: aumento da conta de energia. Soma-se a isso a crise do gás de cozinha, cujo preço do botijão já está em cem reais. Por isso mesmo, muita gente voltou à lenha e ao carvão e a engomar com o ferro a brasa – aquele velho instrumento doméstico, usado anos atrás e que a criança ficava de prontidão com o abano para mantê-lo sempre aquecido. A crise está ressuscitando todos esses cadáveres do passado. Inclusive o podre cadáver do autoritarismo, em detrimento das grandes lutas travadas por muitos brasileiros, que sucumbiram torturados ou assassinados, pela democratização do nosso país.

Mas a maior crise que estamos a viver é a crise da democracia. Essa crise está se caracterizando pelo desprezo às instituições que alicerçam o estado de direito. Os maus exemplos estão sendo disseminados, de forma grotesca e desrespeitosa, dia após dia. Essa espécie de comportamento deprimente e vulgar é imposto com o sinal inquietante do autoritarismo, como a dizer: - eu faço, porque quero e posso. Típico de uma criança mimada que desconhece os limites dos seus atos. E essa crise da democracia é também a crise que atinge instituições sérias como as Forças Armadas, cada vez mais aquinhoada de cargos estratégicos na esplanada do poder, com os seus ocupantes subvencionados com ganhos nababescos Essa crise da democracia e do estado de direito chega ao Ministério Pública, onde foi escolhido um Procurador Geral da República para acomodar situações gravíssimas quando envolve a figura do príncipe. E a democracia se vai esvaindo pelo ralo.

Não é uma crise de direita e muito menos de esquerda. Quem for nessa conversa-fiada é porque quer enganar-se a si mesmo. Do mesmo modo, não há crise entre capitalismo e comunismo. Essa é outra história da carochinha. Assim como não existe comunismo nem na China nem na Rússia. O que existe são estados autoritários, cujos dirigentes, como aquele Kim da Coreia do Norte, não leram uma linha sequer do que Marx escreveu e não sabem o que é socialismo na sua verdadeira acepção científica. Nesses estados o que há é um capitalismo vestido com a roupa do autoritarismo. Estados ditatoriais que os Estados Unidos da América adoram, porquanto contribuem, com a sua força política e militar, para criá-los, como ocorreu no Chile do sanguinário Pinochet, e com Fujimori no Peru, além do genocídio que praticaram no Vietnã, onde sofreram vergonhosa derrota.

As atuais crises brasileiras são decorrentes da incompetência, da falta de humanismo e de solidariedade, e da vontade incontida de fazer um retorno ao passado, no qual o povo é meramente um pária a ser explorado pelos interesses dos poderosos grupos econômicos multinacionais. É também a crise de governo, cujo príncipe não sabe o que ocorre nos seus ministérios; é a crise do Guedes, que teve a desfaçatez de declarar que os excessos dos almoços da classe média e dos restaurantes (ou seja, os restos) deveriam ser utilizados para alimentar mendigos e desamparados. Essa é a crise do desrespeito ao ser humano e que muitos insensatamente aplaudem, construindo o seu próprio inferno.

* Membro da AML e AIL
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AURELIANO NETO

AURELIANO NETO

Doutor Manoel AURELIANO Ferreira NETO é magistrado do Tribunal de Justiça do Maranhão

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