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20/03/2021 às 00h00min - Atualizada em 20/03/2021 às 00h00min

Lembrando o Febeapá

   
Ah!, se Stanislaw Ponte Preta estivesse aqui entre nós, estaria dando efusivas gargalhadas ou fazendo com que todos nós estivéssemos na iminência de morrer de rir. Aguardávamos com ansiedade a chegada do jornal Última Hora para nos deliciarmos com as últimas do Lalau, da Tia Zulmira, do nefando primo Altamirando e do distraído primo Rosamundo, personagens que assumiam características bem próprias a nos provocar com as suas tiradas inteligentes e provocativas, mas com boa dosagem do humor satírico. Era o tempo em que a inteligência se fazia presente em cada centímetro que se pisava: no jornalismo, na arte cênica, na música, no cinema, e, até mesmo, pasmem os senhores e senhoras, na televisão, apelidada de máquina de fazer doido, na concepção humorística de Stanislaw Ponte Preta.

Mas, quem era Stanislaw Ponte Preta? No registro de nascimento: Sérgio Porto. Nascido no Rio de Janeiro, em 1923, por óbvio, não poderia ser em outro lugar, dada a sua verve de ver, captar e escrever sobre a vida, dela extraindo, com a precisão de um exímio cirurgião, os despautérios, os deboches, as burrices oficiais e oficiosas dessa turma da mamata que adora bajular o poder e de estar no poder. Stanislaw não deixava passar nada em pune. Atento, não escapava nem o pessoal da linha dura do regime ditatorial de 64. Hoje, se aqui estivesse, o capitão do Planalto ou seria, nas tiradas de humor do distraído Rosamundo, general, ou seria rebaixado para soldado raso, em razão das suas diabruras verborrágicas de botequim. Calma: nem todos os botequins, convenhamos, para que não se comprometam muitos dos nossos intelectuais que adoravam e ainda adoram uma boa e inteligente conversa de botequim.
Mas, deixemos o botequim pra lá. Não vale a pena conspurcá-lo com certas aleivosias.

Lalau, que tinha a petulância de peitar o autoritarismo histórico da ditadura militar, ao partir do nosso agradável convívio, em 1968, num daqueles ataques que chamam de fulminante, deixou para a posteridade uma rica obra que abrange tudo o que escreveu, ou como Sérgio Porto, o seu nome, ou como Stanislaw Ponte Preta, seu heterônimo, seu outro “eu”, com estilo próprio, lembrando o poeta Fernando Pessoa, ou seu pseudônimo. Era um operário incansável do humor e das letras. Foi cronista, radialista, homem de teatro e TV, compositor. Autor do célebre Samba do Crioulo Doido e do Festival Besteira que Assola o País, conhecidíssimo por FEBEABÁ, cuja leitura obrigatória deixava a gente cada vez mais feliz. Era como estivéssemos nos libertando dos grilhões da ignorância, cuja destrutiva contaminava o poder de cima para baixo, com algumas raríssimas exceções.

Bem. Embora o espaço seja pequeno, vamos a algumas dessas, pra que se tenha a ideia das besteiras que engrossavam o saboroso festival de Stanislaw.

Ibraim Sued, que ficou famoso no colunismo de bajulação pelos seus besteiróis, segundo Lalau, disse, quando estreava um programa de televisão: “Estarei aqui diariamente às terças e quintas.” Logo a seguir, aproveitando a deixa do nosso inefável colunista, que adorava uma farda, Ponte Preta sapecou esta: “No mesmo dia, aliás, o governo toma uma resolução interessante: depois da intervenção em todos os sindicatos, resolvia enviar uma delegação à 16ª Sessão do Conselho de Administração da OIT, em Genebra. O Brasil fazia parte, justamente, da Comissão de Liberdade Sindical.” Mas não foi só isso. Era fevereiro de um dos anos da “redentora” - assim Stanislaw chamava o golpe de 64 -, quando o diretor de Suprimento, em Brasília, proibia a venda de vodca “para combater o comunismo”. Ora, ora, ora, qualquer semelhança com a compra de vacinas chinesas ou russas não é mera coincidência. É burrice mesmo.

Em Niterói, cidade agradável, onde estive algumas vezes por lá, felizmente não por essa nefanda época, relata Stanislaw que a polícia, sempre ela, no cumprimento do seu elevado dever de cidadania, apreendeu vários exemplares da encíclica Mater et magistra, sob a grave alegação de que se tratava de material subversivo. Aí alvoroçou a turma da igreja, com graves preocupações. Se o Papa pusesse os pés por aqui, seria encarcerado  e submetido a uma daquelas tradicionais torturas, tão apreciadas pelo capitão do Planalto. 

Mas, pasmem, o Festival de Besteira não ficou só nisso. Enfim, é um festival. E festival que se preze, é uma congregação de infindáveis besteiras que assolam as mentes sadias, como está ocorrendo com a nossa pátria amada. Para encerrar, duas historinhas. A primeira se deu no Teatro Municipal de São Paulo, onde estava sendo apresentada a clássica peça Electra. Ao local, felizmente sem mandado judicial, apareceram os famigerados agentes do Dops, para prender Sófocles. Apenas não informaram aos nossos bravos captores que Sófocles já havia falecido no ano 406 a.C. Já em Campos, no Rio, a Associação Comercial da cidade organizou um pomposo júri, sob o patrocínio do Diretório da Faculdade de Direito, para julgar Adolf Hitler. Para os mais íntimos, apenas Hitler. A situação estava tão autoritária e imbecilizada na época, como alguma pequena diferença para os dias de hoje, que Hitler foi absolvido, em que pese o holocausto. Como diz Macaco Simão, nóis sofre mas nóis goza.
  
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AURELIANO NETO

AURELIANO NETO

Doutor Manoel AURELIANO Ferreira NETO é magistrado do Tribunal de Justiça do Maranhão

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