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18/06/2022 às 00h00min - Atualizada em 18/06/2022 às 00h00min

O BIOTÔNICO DA MINHA AVÓ

CLEMENTE VIEGAS

CLEMENTE VIEGAS

O Doutor CLEMENTE VIEGAS e advogado, jornalista, cronista e contesta o social.

 
A minha avó paterna, na sua velhice, roceira, sofrida e cansada da guerra, queixava-se constante de suas fraquezas. Por isso estava sempre às voltas com os seus remédios para os nervos. Um deles, da farmácia popular, era o BIOTÔNICO FONTOURA. Lembra do Biotônico Fontoura? Produzido pelo laboratório do mesmo nome. Acabo de ver uma literatura da sua história.

A gente, moleque, acabou por descobrir que o BIOTÔNICO da minha avó, tinha uma composição alcoólica (um gostinho de cachaça) e, por isso a gente, volta e meia... no maior furto da paróquia ia ponta de pé e “desinteirava” o Biotônico de Dona Inez Aroucha. Um crime da mala! E se ela soubesse? E se o meu pai soubesse? Aí... a taca tinha serviço!

Com o tempo, o BIOTÔNICO deu lugar ao “TUTANGIR – Tutano de Boi”. Um nome que soava forte! Um pelo outro era o mesmo sabor, o mesmo gostinho de bebida alcoólica. Aí...  quando não tinha ninguém em casa, a gente ia ponta de pé (ponta de pé) e... dava uma “gorpada”. E ainda dizia um para o outro: “tô  bêbo, tô bêbo”. E, na simulação, ainda saía cambaleando. E se a minha avó soubesse? E seu o meu pai soubesse? A taca tinha serviço...   Vejo agora o quanto o tempo torce e retorce a gente.

Entre outros “teres” a minha avó tinha um “bóião”, que era um vaso de barro, no qual guardava sua banha. Banha de porco “industrializada” ao fogão de lenha, banha essa destinada aos “apreparos” da cozinha.

A gente moleque vivia de olho no “bóião” da minha avó, doidinho pra meter o dedo e... comer uma lapada daquela banha! Bastava lembrar do “bóião” e o imaginário cheiro daquilo já tomava conta da gente e já despertava a tentação. Aí... quando a gente chegava à casa da minha avó, e ninguém em casa, com as portas amarradas em embira (um barbante vegetal) a gente ia ponta de pé e... tascava o dedo no “bóião” e se fartava com aquela banha de porco “industrializada” no fogão de lenha.

Depois com o mesmo dedo, a gente corrigia o local para esconder o malfeito. Vejo agora o quanto o tempo retorce a gente. A esse tempo a minha avó também gostava de fazer algumas guloseimas: uma delas era o “vinho de cacau”, que era um suco, um refresco natural da polpa, dos poucos pés de cacau que existiam em volta de sua casa.

E, desses mesmos cacaus e dos seus caroços socado ao pilão, minha avó também fazia, um substitutivo do café, que era o nosso eventual e saboroso CHOCOLATE, temperado com ”vinho de coco babaçu”. Você lembra do CHOCOLATE, feito ao fogão de lenha à base de pasta de caroços de cacau, socados ao pilão. Lembra?

Outra iguaria que a minha avó produzia era os seus bolos de tapioca, aqueeeles dos tempos do “café com bolo”! A esse tempo ela também fazia os seus “biscoitos” - em forma de “S” torrados, crocantes. feitos à base da essência mandioca – que é a tapioca. E agora, relembrando um velho tempo, a mão de obra e as guloseimas da minha avó, o seu “bóião” de banha industrializada ao fogão de lenha, bem como do seu BiOTÔNICO e o seu TUTANGIR ambos com o mesmo gostinho alcoólico (que só agora fico sabendo que tais fórmulas foram proibidas pela ANVISA), escrevo um texto para estes... CAMINHOS POR ONDE ANDEI.

O “PACTO” E A “SINA”

Na minha criancice duas palavras me assombravam: A palavra PACTO e... a palavra “SINA”. O pacto era associado ao diabo. Embora hoje seja uma palavra do consumo da linguagem jurídica que significa trato, contrato, acordo, mas... Ainda assim eu a evito. Contava-se àquela época que um certo homem daquelas bandas fez um PACTO com o diabo, pela riqueza. Diziam isso com nome e sobrenome. O CPF ainda não existia. O homem de fato enriqueceu (?????), mas... depois... morreu pobre. De modo assim que até hoje, evito em minhas construções e tratativas, a palavra PACTO.

E a “SINA”? A SINA relaciona(va)-se ao significado de sorte, destino, desdita, infelicidade. Havia sempre uma versão negativa, frustrante, infeliz, sofredora. “A triste sina”. Costumavam-se referir-se à “sina dos assassinos”, à “sina dos feiticeiros”, “sina dos macumbeiros e terecozeiros”. “Sina dos leprosos”. “Sina das mães maltratadas e mal-amadas por seus filhos. Nessa SINA, veio o professor e falava de fatos “malsinados” que desatam em litígios judiciais e que até hoje eu uso em minhas petições judiciais para dar ênfase às desditas que desatam na discussão.

Agora eu estou às voltas com A SINA DA PRAÇA TIRADENTES, a sua malsinada trajetória, os seus malsinados dias que os conheci, desde o ano de 1973 (faz 49 anos) quando cheguei por aqui. E até mesmo um malsinado histórico de antes da minha chegada. E então me aguarde em... A SINA DA PRAÇA TIRADENTES.

* Viegas questiona o social
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