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30/04/2022 às 00h00min - Atualizada em 30/04/2022 às 00h00min

LÁPIDES&SAUDADES

CLEMENTE VIEGAS

CLEMENTE VIEGAS

O Doutor CLEMENTE VIEGAS e advogado, jornalista, cronista e contesta o social.

 
Sempre que vou ao cemitério, costumo ver lápides e retratos dos ali sepultados. Grande maior parte dessas lápides remetem à Bíblia, em Timóteo: “Combati o bom combate, acabei a carreira, guardei a fé”.Uns que os conheci, outros que eu nunca vi. Ali tantas vezes eu me ponho a refletir sobre a vida, sobre a passagem pela face do chão e aproveito para refletir sobre o enterro ao chão.  Uns que honraram este chão. Outros... ... não.

Vejo então, que enterradas ali, estão inteligências, virtudes, exemplos, riquezas e proezas que estiveram além, muito além da de outras tantas. Quais exceções. Imagino, então, que outras mentes se prestaram aos “desvios da mente”. E nessa sina, também imagino párias, estroinas e lesa pátria que espalharam e destilaram seus tentáculos por aí.

Nesse pensamento, como que perdido em meus pensamentos eu me ponho a imaginar  os saltos altos,  os narizes empinados, os donos da situação, os donos da verdade, os manobreiros e manobristas, os poderosos,  os “semideuses”...  e fico pensando, pensando... até acordar que é quando me vou. E nem sei se vou voltar, nem como voltar, nem  quando voltar. Mas imagino que mais cedo ou mais terei que voltar.
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SALÓ SANTANA: Faz dias e me bate uma saudade de um senhor que tivemos por aqui, acho que foi até vereador. Chamava-se SALÓ SANTANA. Morava ali na Rua Bom Jesus, cidade antiga, nas proximidades da Praça da Cultura – que já foi praça Castelo Branco, com seus epítetos conforme a conveniência. SALÓ era um homem humilde, simples, pacato que não levantava a voz, que nãos s fazia de rogado que vivia humilde nos limites da sua humildade. Que tinha um semblante que espraiava simpatia. Mansidão.

Sempre que nos víamos, cumprimentávamo-nos com uma decente cordialidade. E era só isso. Era palpável o RESPEITO a elegância simplista, a mansidão com que SEU SALÓ tratava as pessoas e a mim. E eu então me acostumei a ver aquele homem – corpulento, modesto,  como uma boa essência do ser humano, do cristão mortal.

Faz tempo escrevi um texto sobre SALÓ SANTANA. Lembrando-o em vida. SALÓ, você que faz tanto tempo que partiu, que você esteja assentado no REINO DA GLÓRIA (que era como o meu pai se referia à sua avó que o criou). E ainda que VOCÊ, SALÓ, não venha a saber  destas mal traçadas linhas– fique sabendo que você,em mim, de graça, é UMA SAUDADE; que volta e meia me traz uma brisa de saudade. E mais: que uma das conquistas da minha vida foi ter conhecido você! E ter estado com você, ainda que nos limites de como estivemos e de como  enfim tratamos.
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VINÍCIO: O nosso segundo e marcante escritório, onde fiquei por sete anos, situava-se na Rua Godofredo Viana, esquina do antigo Cartório do Primeiro Ofício de Doutorzinho, Rosseny Marinho, Carlos Bandeira& Cia Ltda. De quando em vez, por lá me aparecia um senhor, um tipo magro e alto, razoavelmente vestido, bolsa capanga debaixo do braço, com a senilidade que se estampava na sua idade,  no seu rosto, na sua voz.

Já chegava dizendo “Milionário, o teu Deus é o meu; o teu ouro não te leva ao céu”. Logo ele perguntava: CADÊ O JORNAL?  Se eu o dispunha, logo lhe repassava; se não dispunha, logo mandava o “secretário” comprar. Aquilo se fazia em prazer, tanto a mim quanto ao VINÍCIO. Aí o Vinício, lia o noticioso de ponta a ponta a ponta “em horas esquecidas”.

Meu irmão, o “secretário”, malandro todo, querendo ler o jornal, dava uma pernada: “Olha aí Seu Vinício, este edital”, bom danado! E VINÍCIO, “engalobado”, punha-se a ler, infinitamente o infinito edital. E o malandro, depois, já houvera passado a vista no jornal e o Vinício ainda às voltas com o edital.

Terminado de ler o quanto lhe interessava, Vinício puxava uma conversa fiada qualquer, sempre lembrando  a “REINATO MOREIRA”,  ex-prefeito por aqui, que pelo visto era seu ídolo e benfeitor. Depois, na maior, VINÍCIO se levantava e eu já esperava o bordão: “Milionário, o teu Deus é o meu...”.  E lá por volta das dez e meia seguia a rota que interrompeu às oito e meia quando chegou, perguntando pelo jornal.

Um dia senti falta do VINÍCIO. E quando perguntei por ele ninguém me respondeu. Fiquei inquieto, saí por aí, procurei por aí, mas, ninguém me respondeu. E a mulher dele? E a viúva? E onde morava? E ninguém me respondeu. Aí escrevi um texto sobre  “O VELHO VINÍCIO”, justo naquele mesmo jornal(então de Seu Vieira), que ele costumava ler em nosso escritório. Ainda assim ninguém me respondeu. Descansa em paz,  VINÍCIO, você que tanto referia-se ao “Reinato Moreira”,você que me dizia: “Milionário o teu Deus é o meu...”.Pena que a ente nem se despediu. Mas, por aqui, A VIDA CONTINUA!
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Terminada a escrita, eu, de puro “gode”, ligo para o SEU CAPIJAS, meu Embaixador no Jornal, só para ouvir aquela voz pastosa em que ele morde e atropela as palavras. Mas logo ele intercede: “Já mandou? Já mandou?”. Pronto SEU CAPIJAS, taí o texto.

* Viegas questiona o social
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