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01/01/2022 às 00h00min - Atualizada em 01/01/2022 às 00h00min

O óbito de 2021

AURELIANO NETO

AURELIANO NETO

Doutor Manoel AURELIANO Ferreira NETO é magistrado do Tribunal de Justiça do Maranhão

 
“Algum tempo hesitei se devia abrir estas memórias pelo princípio ou pelo fim, isto é, se poria em primeiro lugar o meu nascimento ou a minha morte. Suposto o uso vulgar seja começar pelo nascimento, duas considerações me levaram a adotar diferente método: a primeira é que eu não sou propriamente um autor defunto, mas um defunto autor, para quem a campa foi outro berço; a segunda é que o escrito ficaria assim mais galante e mais novo. Moisés, que também contou a sua morte, não a pôs no introito, mas no cabo: diferença radical entre este livro e o Pentateuco.” Dito isso, citando um famoso personagem autor, alerto aos senhores e às senhoras que expiro às 24 horas do dia 31 de dezembro. Com a minha sentida partida desta turbulenta vida, e em gestação final, nasce o meu irmãozinho 2022. Sei que as pessoas que viveram este meu tempo de doze meses, começando do janeiro, que já está chegando, sentirão muita saudade, Talvez alguns, os menos aquinhoados com as minhas benesses, estejam me exorcizando a pedir ao Pai Eterno que eu seja lançado no fogo do inferno, para purgar alguns pecados humanamente cometidos.

Levo comigo o Bolsa Família, considerado um dos programas de transferência de renda mais bem sucedido do mundo, Mas, genuflexivo, confesso que deixarei o Auxílio Brasil, com valores e alcance bem menores, que serve de incentivo para que todos, com emprego e ou sem emprego, trabalhem pelo engrandecimento da pátria amada. A pátria não pode ficar deitada em berço esplêndido e precisa do esforço de todos. E os bancos?  - perguntam. Como o nome diz, fica tudo como está. O meu dileto irmãozinho 2022 contribuirá com a eliminação de outros benefícios como a meia entrada para estudantes e pessoas idosas; os primeiros, se quiserem participar das manifestações culturais – como teatro, cinema etc. - devem estudar e trabalhar; os segundos, os idosos, já têm uma lei de proteção e não precisam dessas dádivas desnecessárias do Estado, até porque recebem vultosas aposentadorias, mais que suficientes para usufruírem desses supérfluos lazeres. Ademais, os empresários da cultura são socialistas e não precisam de incentivos retirados da bolsa sofrida dos capitalistas.

Aos nossos deputados, senadores e demais parlamentares, como herança desse meu período fértil de vida, deixo para o deleite democrático desses árduos e dedicados trabalhadores brasileiros, fortes pilastras de nossa pátria amada, um fundo partidário de mais de seis bilhões de reais, verba pública mais que suficiente para fortalecer os seus ideais de democratas e patriotas convictos e desinteressados. Creio que assim esses dedicados trabalhadores nada podem reclamar desse meu tempo de vida. Pelo contrário, estarão firmes com a pátria, com a vinda do meu irmãozinho, 2022, tempo em que se realizarão as eleições, e a turma da Avenida Paulista e de outros rincões, onde se plantando tudo dá, não deixará faltar centavos ou alguns milhões para que se tenha total êxito no pleito do dia 02 de outubro; se possível, com a ajuda da turma do salário mínimo, e sem necessidade do segundo turno.

Nesse momento do meu louvado estertor, em que, cumpungidamente, e em lamentos de uma quadrilha (no bom sentido) de beneficiados, deixo a pátria amada, repito, às 24 horas do dia 31 de dezembro, vem-me à enfraquecida mente a lembrança que ficou algum resquício de desequilíbrio de preço, que alguns apressados e maliciosos teimam em chamar de inflação, Mas, embora com algum problema para esclarecer essa passageira e inofensiva situação, afirmo que não se trata de inflação, e sim de um mero desequilíbrio, que será corrigido quando o grande timoneiro da nossa economia, o Sr. Guedes, retirar os seus milhões de dólares aplicados em paraíso fiscal e, como se trata de um empreendedor, aplaudido e reconhecido por banqueiros internacionais, investirá em nossa tropical pátria amanda, fazendo baixar os preços dos alimentos e gerando milhares de empregos.

Não sei se perceberam que iniciei esse meu desabafo memorialista referindo ao meu inevitável óbito. E, por isso mesmo, recorri a um brasileiro, nascido há alguns anos, no Morro do Livramento, portanto favelado como muitos. Filho de um pintor mulato e de uma lavadeira açoriana, que, no tempo de um antigo parente meu, o ano de 1881, resolveu escrever um romance a que deu o nome de Memórias Póstumas de Brás Cubas, cujo personagem é autor defunto ou um defunto autor. Então, esse mulato, no primeiro capítulo, expõe a cruel dúvida se devia iniciar as suas memórias pelo princípio ou pelo fim. Embora em dúvida, resolvi misturar as coisas, mas, como não poderia ser diferente, dei relevância aos meus acertos, acima de tudo evidenciando que o sagrado trabalho foi a marca de minha passagem. Um exemplo edificante foi o capitão, que preside a pátria amanda, nas suas poucas e merecidas folgas do seu árduo e, diga-se, patriótico trabalho, andava garbosamente com os seus companheiros de convescote planaltino em possantes motocicletas, além de, no exterior, por ter aversão à vacina, e mesmo para fazer economia, preferia não fazer uso da imunizante e comer na porta dos restaurantes ou lanchonetes. Atitudes edificantes que tornaram a nossa pátria amanda muito mais admirada pelos invejosos países estrangeiros, que têm mania de recomendar o uso da vacina contra a Covid, além de, desnecessariamente, fazer programas econômicos para gerar novos empregos.

Vou para o meu leito em busca da eternidade histórica. Meu caríssimo irmão, 2022, está a bater a porta. Quer entrar. Tem pressa. Deixo-lhe uma avançada reforma trabalhista. Acabou em definitivo a Era Vargas. Trabalhador, se quiser, que trabalhe. Essa é a sua patriótica função. Já a do empregador é ter lucro. Enfim, viver é lutar. Este é o canto de um poeta que partiu antes de mim. E ao vencedor, as batas! Dizia, com a ênfase da vitória, o velho Rubião, que veio logo depois de Brás Cubas. Comigo levo essa loucura de alguns insatisfeitos de que a escravidão acabou nessa nossa pátria amada. Não. Ela apenas se tropicalizou. Nessa minha chorosa e louvada despedida, fica um recado ao meu querido 2022: nada de colocar pobre no orçamento e rico no imposto de renda. Nem pense nisso, Repito: aos vencedores, as batatas! Confraternizem-se com esse meu irmãozinho, ainda imberbe, mas cheio de boa vontade, como este amigo que se despede.

* Membro da AML e AIL
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