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05/09/2020 às 00h00min - Atualizada em 05/09/2020 às 00h00min

A Ignorância que Atravanco o Progresso


Esse foi um bordão dito e repetido por uma das personagens do humorista Chico Anísio. Não há dúvida que, embora escarnecendo do idiota, ser ignorante é muito pior que ser néscio. Este não tem aptidão, é inepto, sendo desprovido de conhecimento; já o ignorante é aquele sabe alguma, tem alguma percepção dos seus perigos, das suas vantagens ou desvantagens, mas, por uma questão de opção pessoal, com resquício de grave autoritarismo, ignora, fazendo de conta que não existe. Mas não é bem uma burrice, decorrente de ser a massa cefálica destituída de algum condimento nutritivo. Faltam-lhe horizontes. Visão de maior alcance, para discernir o que pode ser bom para si e para os outros. Mesmo fazendo essa ligeira distinção, os dois - o néscio e ignorante – se completam, às vezes sendo difícil saber quem tem as más qualidades do primeiro ou do segundo.
        A respeito desse tema, estava a ler um texto de um administrador aposentado, publicado na coluna Papo do Dia. Diz, num dos trechos, Pedro Augusto Pinho: “A ignorância, em todos os tempos, foi a grande aliada da perpetuação dos poderes. Nas trevas medievais, dominou o poder extraterreno da divindade, representado aqui pelo homens de Deus, enclausurando o conhecimento nos mosteiros. O poder colonial impunha o idioma, que não sendo o materno, obrigava o colonizado a se expressar de modo no mínimo dificultoso, receber o conhecimento pelo modelo da cultura estrangeira.” Diz mais: “A ignorância, em todos os tempos, foi aliada da perpetuação dos poderes.” Por quê? Porque o ignorante, diferente do idiota, que, embora não saiba, quer saber, vive nas trevas e conduz aqueles que acreditam na sua ignorância. Por isso, é que Chico Anísio pôs na boca de sua personagem a frase que serve de título acima. O Brasil e o mundo têm sido vitima desses ignorantes. A história nos dá um exemplo fatídico: Hitler tinha conhecimento de que a Alemanha, em determinado momento do conflito, quando foi violentamente derrotada pelos russos,que a guerra estava perdida. Mas ignorou. O suicídio foi o recurso para não ser humilhado, como havia ocorrido com Mussolini, na Itália.
        Mas, por que a ignorância? Como me encontro em isolamento, ainda assim não ignoro o que acontece no mundo lá fora.
      O nosso presidente da República, com a sua sapiência de todos nós conhecida, resolveu, pelo que se deduz de suas últimas declarações, investir no trabalho infantil. Como fundamento sociológico, filosófico, ético e jurídico, tem manifestado uma preocupação nunca vista pela nossa infância, até então objeto de proteção da Constituição Federal e do ECA. O que tem dito o presidente. Transcrevo, não ipsis litteris, como li: Menor pode cheirar um paralelepípedo de crack, menos trabalhar.” Ou: “Bons tempos, né?, onde o menor podia trabalhar. Hoje, ele pode fazer tudo, menos trabalhar, inclusive cheirar um paralelepípedo de crack, sem problema nenhum.”
        A não ser as notícias nas mídias impressas ou não, desconheço que alguém tenha se manifestado contra ou a favor dessa plataforma de governo, que traz, no mínimo, a intenção de criar um mercado de emprego para as nossas crianças, isso à revelia do que determina a Constituição Federal, ainda em vigor, apesar dos pesares.
        Parodiando a selvageria do dito, vai longe o tempo em que as crianças eram exploradas e vítimas do sistema capitalista. Os relatos históricos são bárbaros, envolvendo o trabalho infantil na eclosão da revolução industrial, que teve início na Inglaterra. As crianças trabalhavam como cavalos, inclusive em minas de carvão. Uma prova de que o capitalismo, vigente até os dias atuais, não poupou, no seu avassalador crescimento, estes seres que ainda se encontravam em processo de desenvolvimento físico e mental. Eram explorados até a morte.
        Para os que ignoram, deve ser lembrado que a Constituição da República, aos trancos e barrancos, ainda vigente, protege as nossas crianças proibindo que exerçam atividade laboral. Regra contida no seu art. 7º, inciso XXXIII, que deveria ser do conhecimento de qualquer pessoa que, ainda que ignore, deveria respeitá-la, por dever e obrigação. E o art. 227, CF, que contempla garantias de direitos fundamentais, sustenta que é dever da família, da sociedade e do Estado assegurar à nossa criança, entre outros, o direito à vida, à saúde, à educação e à profissionalização. Não consta o direito ao trabalho ou ao emprego. Mas, como não houve nenhuma grita contra esse novo modelo, pode ser que essas normais constitucionais sejam alteradas, para que o governo possa transforma as crianças brasileiras em trabalhadores ativos, quem sabe ganhando meio salário, como já vem ocorrendo para acesso a espetáculos de lazer.
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AURELIANO NETO

AURELIANO NETO

Doutor Manoel AURELIANO Ferreira NETO é magistrado do Tribunal de Justiça do Maranhão

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