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23/10/2021 às 00h00min - Atualizada em 23/10/2021 às 00h00min

Flores amarelas

 
Ainda cedo. Os raios tímidos do sol tentavam romper as grossas nuvens da manhã carolinense. Destranquei o cadeado, abri o portão de ferro e olhei para o tempo. Estava convidativo e desafiando para caminhada matinal. A preguiça do amanhecer me retinha. Não era assim. Nem sempre fora assim. No meu tempo da labuta diária (que quase nada mudou), amanhecia o dia pronto para luta do pão nosso de cada dia. A batalha era árdua. Ainda é. Mas a preguiça, esse pecado que teima em me atanazar, nesses dias de frio ou calor, pouco se me dava da sua cativante presença. Era indiferente a sua modorra. Expulsava-a do meu caminho. Os livros precisavam ser retirados do sossego da estante e lidos com muita atenção, com as anotações em cada página para futura consulta emergencial. A massa cefálica estava bem ativa, efervescente, como o sal de fruta Eno, que se dissolvia em meio copo dágua para erradicar a ressaca do dia anterior, resultado de grande azáfama de uma boêmia liberticida.

Fui à luta. Não poderia curvar-me diante de um desafio solar, no clarear de um dia que parecia alegre e convidativo para o rejuvenescimento das juntas empedernidas pela escravidão do trabalho virtual. Tudo isso me fez lembrar uma advertência de Bandeira Tribuzi, esse poeta com o qual convivi durante certo e exíguo tempo, recebendo as suas lições de literatura brasileira e portuguesa e sociologia. Bandeira advertia do alto de sua Inteligência que o homem (o ser humano), no futuro, não sei se próximo ou remoto, não teria mais necessidade dos braços e das pernas, que atrofiariam, ficaria com cabeça igual a dos marcianos (desenhado brejeiramente numa época em que não se havia chegado à lua), imensa e arredondada, com o corpo desengonçado. Só cérebro seria fundamental para a vida humana. Estamos caminhando nesse sentido. O mundo do celular é uma agressiva realidade. Viver sem celular, sem zap, ou coisa parecida, é uma catástrofe para os seres viventes deste mundo. O e-mail é a vida e a morte de muita gente. Quem não se liga no zap, está desligado do mundo, quando não cancelado, a nova modalidade de morte-vida.

Com todos esses pesares, saí do meu casulo da Idade da Pedra, atravessei milênios, e fui expor-me ao sol. Confesso: fui absorvido por uma quentura da torridez de um sol, que se deixava sucumbir por um vento brando e apaziguador. Quase volto, a atender ao incessante chamado daquela enjoada preguiça. Resisti. Enfim, tenho essa mania da resistência. Enfrentar e viver as delícias das coisas boas faz com que siga em frente, driblando os obstáculos da má vontade, solapando o desânimo.

Caminhei caminhadas longas. Embora relutante, saí para trilhar caminhos tão rústicos quanto bucólicos. Vieram-me os versos de louvação de Bandeira Tribuzi: “Quero ler nas ruas / fontes cantarias / torres e mirantes / igrejas, sobrados / nas lentas ladeiras / que sobem angústias / sonhos do futuro / glórias do passado.” Esticando as pernas, um pouco trôpegas, e levantando os braços, ainda firmes no balançar frêmito do ir e chegar, balbuciava em baixo tom esse canto poético de Tribuzi, quando, sob a inspiração divina, fazia a louvação de amor universal. Transpunha todo esse sentimento do poeta para Carolina, onde me encontrava num exílio afetivo, vivendo a ternura da fraternidade e da religiosidade de uma gente, que ama ser felicidade de ser feliz.

Caminhei que caminhei. E, no trajeto dessa caminhada, percebi que estava numa espécie de éden amarelado de flores amarelas. Um verdadeiro poema da natureza. O amarelo que se sobressaía de cada pétala, transluzia a essência de todo o caminho. Andar era encontrar-se com o Criador representado por todas as flores espalhadas em cada lado do caminho, a ser caminhado. Nisso, a minha curiosidade me permitiu perceber que havia flores que se alçavam a uma altura mais privilegiada. Ficavam no topo, numa altitude de supremacia, para receber o calor mais ardente do sol. Não sei o nome dessas belas e amarelas flores. Tentei ainda perguntar para um caminhante. Ele apenas disse, num desejo Inconfessado de livrar-se da pergunta: eram apenas flores. Não concordei com o apenas. Não. Não era. Todas de um amarelo claro, cintilante, vivo, como se fosse um belo verso de Bandeira, ou de Drummond, esse itabirense que viu uma pedra no meio do caminho e cantou o seu canto poético:

 “No meio do caminho tinha uma pedra

Tinha uma pedra no meio do caminho

Tinha uma pedra

No meio do caminho tinha uma pedra

Nunca me esquecerei desse acontecimento

Na vida de minhas retinas tão fatigadas

Nunca me esquecerei que no meio do caminho

Tinha uma pedra

Tinha uma pedra no meio do caminho

No meio do caminho tinha uma pedra.”

Para Drummond, a pedra no meio do caminho; para mim, no meio do caminho tinha belíssimas e sedutoras flores amarelas. Não tenho inveja desse mineiro de Itabira. Mas tenho uma vontade doida de dizer que no meio do caminho tinham flores poeticamente amarelas. E mais a vontade de fazer delas um poema para ficar eternamente gravado na alma de quem ama as flores amarelas.

* Membro da AML e AIL
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AURELIANO NETO

AURELIANO NETO

Doutor Manoel AURELIANO Ferreira NETO é magistrado do Tribunal de Justiça do Maranhão

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