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07/08/2021 às 00h00min - Atualizada em 07/08/2021 às 00h00min

FILHO ÉS – PAI SERÁS...

 
(2ª. edição reeditada)
(Criação: Março 2015)

Longe se vai aquele tempo – tão distante quanto em dois terços de século - em que eu ouvia o  meu pai dizer: FILHO ÉS – PAI SERÁS. Tão Longe vai aquele tempo que eu nunca mais vi as coisas, nem as pessoas, nem os lugares – que compunham a cena daquele tempo!  E quando ecoava forte aos meus ouvidos a voz daquele senhor meu pai, era porque alguma coisa estava fora de lugar. Alguma coisa o filho praticou que não se lhe agradava, e então alguma coisa precisava ser corrigida. E então a areia começava a esquentar. E então o meu velho pai dava o brado: FILHO ÉS – PAI SERÁS!!!

A esse tempo eu era um moleque, 14, 15, 16. E quando a velha frase ecoava, era sinal de que a chapa estava esquentando e a advertência vinha decidida, fulminante, arrazoada, motivada. Alguma nota fora de tom a gente fez, ferindo a sensibilidade do velho poeta, maestro e provedor e pai.  FILHO ÉS, PAI SERÁS. Uma frase que ele ouviu do seu pai (meu avô). Um avô  a quem não conheci.

Em princípio eu não entendia muito  o conteúdo da frase mas... na composição PAI-SERÁS (pai serás), para mim a parte mais difícil da escala - o grande indicativo de que  a nota musical estava dissonante mas impunha ele corrigir a partitura para  tocar conforme a letra, a métrica, nas regras e à batuta do MAESTRO, senhor meu pai. Sim porque àquele tempo o pai de família era o maestro da grande orquestra familiar. E ai de quem...

Tanto tempo se passou (tanto tempo se passou) e naquele outro momento quem estava MAESTRO DA ORQUESTRA ERA EU. Sim, porque na lição do meu avô materno - “casa de pai escola de filho”. Também ao tempo ido, o maestro era EU. E na composição da orquestra o meu filho - 12, 14 anos, tocando aquelas canções ao descompasso, qual tocara eu nos tempos passados. E quando vi o meu filho, tocando fora do tom, deslizando na partitura – então eu o lembrei daquele meu velho tempo, quando o maestro era o meu pai. E mostrei-lhe na partitura, ao calor da percussão na caixa de ressonância: FILHO ÉS, PAI SERÁS!!!!

Com o exemplo cortando na carne, com a música fora do compasso e com a orquestra fora de tom, necessário se fazia que as coisas se recompusessem; que a canção fosse ouvida com a serenidade e sensibilidade que perfazem a equação musical da vida, e então eu fui levado a aprender  e a corrigir a partitura, quando o maestro era o meu pai. Agora sou eu quem tem o compromisso de reconduzir a orquestra ao compasso da canção.  E como o meu filho é o componente e instrumento principal desta orquestra doméstica, agora é a minha vez de adverti-lo: FILHO ÉS, PAI SERÁS!!!

Revendo essas velhas composições, arquivos e partituras, em meio a fotografias e filmes de velhos bailes da vida, lembrei-me de uma figura da minha estima e admiração pessoal. OSCAR NIEMAYER!!! Um arquiteto da construção civil e portanto um maestro ao comando de grandes profissionais da sua  afinada orquestra da Arquitetura, de alcance internacional.

Oscar Niemayer,  meu maestro preferido e talento acima de todos os parâmetros da espécie, digo eu.  Logo ele que risca, risca, rabisca, rabisca, (quer dizer rabiscava) e seus riscos e rabiscos entravam para o laboratório de sua afinada orquestra e transformava-se em prédios paisagísticos, monumentos culturais, subjetivos, abstratos, obras carismáticas, projeções transcendentais. Rabiscos que se transformaram no concreto protendido, no aço, no bronze, na prata – fosse no que fosse. Era assim Oscar Niemayer meu maestro de fôlego excepcional em grandes concertos musicais, quer dizer:  de grandes obras da Arquitetura Universal.

Niemayer enfim, humilde, pacato, simples, GENIAL!  Era um ser humano de afinação intelectual acima da média! Era um Gênio! E então esse MAESTRO DE TODOS OS TALENTOS, certo dia ele disse: “Eu pago para os meus filhos, a dívida que fiz com os meus pais”. E bem ali eu li, vi e ouvi, o reflexo da lição do MAESTRO das minhas partituras, quando ao descompasso da letra ou da música, surgir a  advertência em tom e correção: FILHO ÉS PAI SERÁS!!!

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Texto criado na origem (38 linhas), para a minha Crônica  PÁGINA DE SAUDADE, há mais de 14 anos no programa CLUBE DA SAUDADE. Este há 33 anos no ar, na Rádio Mirante A/M, domingos, oito da manhã, em cadeia com mais de 30 emissoras em todo o Estado do Maranhão. Adaptado para estes... CAMINHOS POR ONDE ANDEI

Música: SERMÃO DE PAI – MARQUINHOS SATÃ “Tu és filho eu sou pai /Quero te criar em paz...”

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CLEMENTE VIEGAS

CLEMENTE VIEGAS

O Doutor CLEMENTE VIEGAS e advogado, jornalista, cronista e contesta o social.

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