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26/11/2020 às 00h00min - Atualizada em 26/11/2020 às 00h00min

“Fiz de tudo um pouco na vida, inclusive vendi picolé”

A afirmação foi feita durante sua posse no cargo de juiz substituto do Tribunal de Justiça do Estado do Maranhão; magistrado fez balanço positivo do trabalho desenvolvido em Imperatriz, agradecendo empenho dos colegas, dos assessores e o apoio da sociedade

Raimundo Primeiro
Juiz José Ribamar Serra assinando o Termo de Posse, no Tribunal de Justiça - Ascom TJ-MA/Rodrigo Rêgo Serra
Após trabalhar por mais de 8 anos em Imperatriz, José Ribamar Serra, 61 anos, tomou posse, na manhã de sexta-feira, 20/11, no cargo de juiz de direito substituto do Tribunal de Justiça do Estado do Maranhão (TJ-MA), entrando, no mesmo dia, em exercício na Corregedoria Geral de Justiça (CGJ). 

Filho dos lavradores Felipe Tiago Serra e Evangelina Teodora Cantanhede Serra, o magistrado nasceu em São Vicente Ferrer (MA) e teve de fazer de tudo um pouco para prosperar na vida. “Trabalhei de tudo. Fui vendedor de picolé, feirante, vendedor de carvão. Até lavei sepulturas, no Cemitério do Gavião, para ganhar o sustento de forma digna e honesta”, lembra.

Filho de família grande e simples, José Serra tem 7 irmãos (todos vivos). Em busca de melhorias, seus pais chegaram em São Luís em outubro de 1968. Foram em busca de educação. O pai foi trabalhador braçal. Já a mãe, lavadeira. “Da mesma forma, desde pequeno, passei a trabalhar para contribuir no orçamento doméstico, bem como prover o próprio sustento. Sempre estudei à noite, sendo, inclusive, aluno do Mobral (Movimento Brasileiro de Alfabetização)”, reforça, emocionado.

A O PROGRESSO, o juiz José Serra, como é mais conhecido, revelou, em 1976, ter conhecido uma pessoa que mudaria toda a sua vida. “Foi o doutor Francisco de Assis Barros Carvalho, que, nunca, me deu nada de graça, mas me deu o que é de mais sagrado em uma pessoa humana: ou seja, me deu respeito, dignidade e oportunidade de emprego”.

O juiz José Serra começou a sua vida profissional como empregado doméstico, trabalhando na casa do advogado Francisco Carvalho, de onde, logo depois, foi transferido para o escritório dele, na condição de contínuo, profissional conhecido atualmente por office-boy (garoto de escritório). “Lá chegando, passei a cumprir as tarefas diárias, estudando a noite”, complementa.

A Propósito da entrevista, o juiz José Serra ressaltou entrar para a magistratura do Estado do Maranhão com o propósito de prestar bons serviços aos jurisdicionados e a sociedade em geral. Reafirmou, por outro lado, o apoio que sempre recebeu dos pais em relação aos estudos. “Estou com o coração partido. Não estão assistindo a vitória de seus sacrifícios”. Seu pai faleceu. Sua mãe, porém, encontra-se em estado vegetativo em virtude de uma doença degenerativa.

“Se a minha aprovação tivesse ocorrida no ano de 2003, com certeza, os meus pais teriam o direito de assistir o resultado de um sacrifício feito desde o ano de 1968”, afirmou, acrescentando que, “assim, fico, na certeza, de que estou preparado para exercer a espinhosa função de julgar os meus semelhantes dentro dos princípios da Justiça e legalidade”.

A seguir, confira, na íntegra, a entrevista que o juiz José Ribamar Serra concedeu com exclusividade a O PROGRESSO.

O PROGRESSO – Como foi que o senhor recebeu a notícia sobre a sua transferência para a capital, ou seja, São Luís, após trabalhar 8 anos em Imperatriz?

JOSÉ SERRA –
Eu já estava esperando. A promoção foi por critério de antiguidade. Logo, já era fato consumado. Os 8 anos 9 meses de trabalho em Imperatriz, passaram tão rápido. Não consegui perceber em razão de a Comarca ser composta por promessas maravilhosas. Fizeram com que eu desenvolvesse um bom trabalho.

O PROGRESSO – O senhor já começou a trabalhar? Quais as expectativas em relação a nova função?

JOSÉ SERRA –
Tomei posse no Tribunal de Justiça em exercício na Corregedoria de Justiça e já fui designado para compor a Comissão de Sentença junto a 2ª Vara da Fazenda Pública. Também fui designado para o Plantão Criminal – período compreendido entre 23 e 25 de dezembro. Ou seja, já estou em plena atividade judicante. 

As minhas expectativas são as melhores possíveis no que diz respeito ao desempenho de um excelente trabalho em prol da sociedade e dos jurisdicionados. Sei que os desafios, entretanto, serão grandes, tendo em vista ser juiz auxiliar da capital, onde vou oficiar na Comarca da Grande Ilha, composta pelos municípios de São Luís, Ribamar, Paço do Lumiar e Raposa. 

Meu primeiro desafio será o Plantão Criminal, durante o período natalino, que deverá ser bastante movimentado. Com a proteção de Deus, porém, hei de vencer mais esse obstáculo.


O PROGRESSO – A avaliação que o senhor faz do trabalho realizado em Imperatriz?  

JOSÉ SERRA –
A minha avaliação do trabalho que desenvolvi em Imperatriz é a melhor possível. Cheguei à Comarca com o propósito de bem servir. O povo de Imperatriz é hospitaleiro/ordeiro. Houve um clima de irmandade entre os colegas magistrados. Tive o apoio de uma equipe comprometida com a coisa pública. 

A advocacia imperatrizense é de alta qualificação jurídica. Volto para casa com a consciência do dever cumprido.


O PROGRESSO – Qual será a sua função na condição de juiz auxiliar da capital?

JOSÉ SERRA –
A minha função de juiz é auxiliar a Justiça naquilo que for preciso. Ou seja, posso ser designado para onde houver falta de juiz ou acúmulo de processos, como, por exemplo, quando fui chamado para compor a Comissão de Sentença perante a 2ª Vara da Fazenda Pública. Lá, os processos esperavam a prestação jurisdicional: despachar em prol do cidadão, visando cumprir os princípios da celeridade, duração razoável do processo e eficiência.

O PROGRESSO – O que significa chegar a Entrância Final?

JOSÉ SERRA –
A chegada em Entrância Final significa a ascensão na carreira funcional, uma vez que o juiz inicia sua carreira como juiz substituto menor, no interior do Estado. O último degrau da carreira é o cargo de desembargador, no Tribunal de Justiça. 

Para mim, tem um significado maior, já que voltei para casa, ou seja, São Luís. Não tive condições de fincar bandeira residencial em Imperatriz, cidade abençoada por Deus e pelo frei Manoel Procópio.


O PROGRESSO – O que é Entrância Final?

JOSÉ SERRA –
Entrância Final é o último degrau da carreira da magistratura de primeiro grau e o penúltimo para acesso funcional ao segundo grau, que é o Tribunal de Justiça, por meio da ocupação do cargo de desembargador. 

O PROGRESSO – Como o senhor observa a magistratura brasileira? Qual o futuro vislumbrado?

JOSÉ SERRA –
Vejo a magistratura brasileira com muita esperança, tendo em vista ter ficado mais acessível ao cidadão, ou seja, aproximou-se mais dos menos favorecidos. 

A Constituição de 1988 aproximou mais a magistratura do cidadão, isto é, houve um grande avanço para a sociedade brasileira. Precisa melhorar ainda mais. Tenho fé em Deus que, em período próximo, atingiremos a eficiência, conforme determina a Constituição Federal. 

Vislumbro um futuro promissor, uma vez que o Judiciário tem se modernizado, buscando entregar a boa prestação jurisdicional. O grande exemplo, foi a eleição realizada em período atípico. Foi um banho de competência, o que rendeu as melhores avaliações internacionais.


O PROGRESSO – O que o senhor gostaria de ter feito e não o fez?

JOSÉ SERRA –
Gostaria de ter zerado todos os processos que se encontravam sob a minha responsabilidade. No entanto, as condições não permitiram, principalmente neste ano, em razão da pandemia da covid-19, onde a força de trabalho, no Brasil, ficou reclusa, no home office. 
Mesmo não tendo zerado os processos sob a minha responsabilidade, entendo que fiz o melhor para a sociedade e o jurisdicionado de Imperatriz. Portanto, volta para casa com a consciência do dever cumprido.

O PROGRESSO – Que mensagem o senhor deixa para os colegas e para quem deseja ingressar na carreira?

JOSÉ SERRA –
A mensagem de esperança, pois estamos em uma sociedade em pleno desenvolvimento, que trará melhores dias para todos os jurisdicionados. A sociedade é o aparelho de Justiça. 

Para quem pretende ingressar na carreira da magistratura: tem de ser um abnegado, preparado para servir, ter a certeza de querer ser magistrado – um servidor público – que vive de salário. Serviço público não faz fortuna. Vive-se, porém, com dignidade.

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