Crônica da Cidade

Crônica da Cidade

Pela mão de Alice

Estamos vivendo o século XXI, que ainda não se libertou das graves doenças do século XX, geradoras de tantas desigualdades. Boaventura de Sousa Santos, pensador renomado e sociólogo de prestígio universal, em seu livro Pela mão de Alice – o social e o político na pós-modernidade, 14. ed., 2013, faz a seguinte advertência: “O século XX ficará na história (ou nas histórias) como um século infeliz. Alimentado e treinado pelo pai e pela mãe, o andrógino século XIX, para ser um século-prodígio revelou-se um jovem frágil, dado às maleitas e aos azares. Aos catorze anos teve uma doença ...

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Carta para uma mulher que teve o marido assassinado com mais de oitenta tiros de fuzil

D. Luciana dos Santos Nogueira, sei que a senhora está passando por um momento de dilacerada e sofrida dor. O título dessa cartinha é longo, mas se faz necessário, D. Luciana, até porque, não sei se a senhora percebeu, paira um silêncio impiedoso. Na verdade, um silêncio de indiferença criminosa. Ainda assim, resolvi escrever-lhe. Saí do mutismo da indiferença. Mas advirto: não quero me intrometer na sua dor e angústia. As forças que mataram o seu marido, que dirigia um modestíssimo Ford KA, de cor branca, a transportar a sua família, entre os quais uma inocente criança de ...

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PEDRO RICO

Pedro Rico. Cor branca. Pele alvacenta. Parecia político, com jeito de deputado. Daqueles que usavam calça de linho branco, bem engomada. Ria que ria. O riso, sempre espontâneo. Demonstrava ter posses. Ou no vestir ou no falar. Sempre vestido de branco. Camisa e calça de uma alvura que o distinguia dos outros Pedros. Tinha o respeito. Da roupa e do riso cativante. E de ser Pedro. Talvez pela roupa branca, ou por ser branco, ou por apresentar-se com jeito de ter posses. Passava e dizia, com entusiasmo: — Quero te ver doutor! — Seu refrão preferido. Repetido e ...

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A rua de um tempo ido

A rua é estreita, mas infinitamente comprida. Íngreme. Parece não acabar. No fim, um descampado. Nele, as crianças se encontram ao cair da tarde e nos fins de semana, para jogar bola, no jogo dividido. Dois ou três de um lado, e o mesmo tanto do outro. E a bola de borracha ou de seringa ou de meia a rolar nos pés dos mais hábeis, ou mesmo de frágil habilidade. Havia a barreira: os times esperando a saída do perdedor para entrar na disputa de outro prélio. Nesse descampado, praticavam-se outras espécies de lúdicas brincadeiras, como empinar papagaio ...

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25 de abril de 1984

Parodiando Protágoras, filósofo grego do século V a.C, pode-se dizer o homem é a medida de todos os medos. E não como afirmava o sábio helênico: o homem é a medida de todas as coisas. Tive um dileto amigo que adorava essa frase, que teve a força filosófica de atravessar os séculos e permanecer ainda bem viva, tanto que estou recorrendo a ela para justificar o injustificável: o medo se alastrando em nossos tempos. Vive-se o momento da consequência do ódio da escolha. Na vida tem dessas coisas, muitas vezes opta-se pela escolha do caminho a ser trilhado. ...

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De Lázaro de Melo, Silvério dos Reis a Michel Temer

Historicamente, o Brasil nunca teve uma revolução, no sentido de mudanças transformadoras, ficando sempre pela periferia de algumas revoltas, como as de Guararapes, Palmares, Sabinada, Balaiada, a da Vila de Caxias, Canudos, de Manuel Beckman, na capitania do Maranhão, e a Conjuração Mineira, na capitania de Minas Gerais, cujo herói foi Joaquim José da Silva Xavier, e o delator Joaquim Silvério dos Reis. Essas revoltas sempre tiveram mártires e alguns célebres traidores. É de uma obviedade ululante que da traição ninguém escapa, nem Cristo, que, embora previsse, não conseguiu evitar a sanha delatora de Judas, que escreveu seu ...

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Nelson Rodrigues, o dramaturgo de si mesmo

É sempre bom fazer releitura de Nelson Rodrigues. Ou ver a reencenação de suas peças teatrais. Nelson viveu intensamente para escrever. Teatro, romances, contos, crônicas, sendo torcedor fanático do Fluminense. Quem o retratou bem, e muito bem, foi Ruy Castro, ao construir a sua rica biografia no livro O Anjo Pornográfico. Escreveu nos jornais Última Hora, Correio da Manhã, O Jornal e O Globo. Durante dez anos, publicou A vida como ela é no jornal Última Hora, cujos temas eram sempre sobre paixões e morte. Essas histórias, ora crônicas, ora contos, foram sucesso permanente de público. Mais ainda: ...

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A democracia do capitão

Há um novo conceito de democracia na pátria amada, que contraria em grau, gênero, número e em todos os sentidos, quer sociológicos, filosóficos e políticos, a célebre definição dada pelo rústico advogado, cujo nome ficou eternamente para história, Abraham Lincoln, nascido em 1809 e assassinado em 1865 por um tresloucado reacionário que entendia que a liberdade e a igualdade teriam, contraditoriamente, que existir com a crueldade da escravidão do negro. Lincoln, em poucos minutos, em Gettysburg, fez o mais belo e fundamental discurso da sua vida como estadista. E iniciou dizendo: "Oitenta e sete anos atrás nossos antepassados ...

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