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29/08/2020 às 00h00min - Atualizada em 29/08/2020 às 00h00min

Sálvio Dino

Roberto Wagner
Conheci Sálvio Dino no começo da década de 1980. Chamou minha atenção, de imediato, sua fluência verbal, a erudição que irradiava de seus comentários, a segurança de suas opiniões. Começou ali uma amizade que se estendeu pelas quatro décadas seguintes.

Em 1989, trabalhei com ele durante alguns meses, em seu primeiro mandato como prefeito de João Lisboa, tendo morado, nesse período, em sua casa, ocasião em que pude constatar, mais de perto, o profundo desapego que ele tinha por bens materiais. Seu vestuário, por exemplo, resumia-se a poucas peças; sapatos, tinha uns dois pares, todos, visivelmente, com bastante uso.

O que lhe dava evidente satisfação, no exercício do mandato, era ouvir as pessoas humildes que o procuravam na prefeitura. Anotava tudo, com letra quase ilegível, que, de todos nós, só José Camilo, chefe de gabinete, sabia decifrar. Nas reuniões do secretariado, cobrava soluções para os reclamos dessas pessoas.

Mas nada lhe proporcionava mais prazer do que conversar sobre livros, sobre escritores, sobre educação, sobre cultura, sobre direito, sobre história. Como esses também eram, como ainda são, temas de minha predileção, acabei me tornando um de seus principais interlocutores.

Decidido a me dedicar exclusivamente à advocacia, pedi exoneração e vim para Imperatriz. Nossos contatos, é claro, tornaram-se menos frequentes, mas nada disso impediu que seguíssemos amigos e mantendo os mesmos laços de afinidade intelectual.

Me vem à memória, nesse momento, o dia em que ele me viu declamar, em sua casa, durante uma tarde chuvosa, o poema “Tabacaria”, de Fernando Pessoa. Ao final de minha longa récita, tomado de êxtase, bateu palmas e abraçou-me. Aquilo, sim, lhe dava enorme contentamento.

Igualmente sem apego algum a bens materiais, dou-me conta, agora, que cheguei à velhice tendo como único patrimônio os livros que tenho e o que carrego comigo, o que prova, em parte, a grande influência que Sálvio, até por ser mais velho, exerceu sobre mim.

 Aos 88 anos de idade, com invejável lucidez, escrevendo livros e ainda advogando com o talento de sempre, Sálvio não resistiu a uma súbita e traiçoeira enfermidade e terminou sendo tragado pelas correntezas da noite eterna.

 Em sua obra “Vida de Agripa”, diz Tácito que “Não com o corpo morrem as grandes almas”. A imortalidade de Sálvio Dino, que, ao longo da vida, dedicou-se a fazer o bem sem se preocupar em acumular riquezas que não fossem livros e amizades, ficará na memória daqueles que, como eu, tiveram a sorte e a felicidade de conhecê-lo.
Roberto Wagner   é advogado
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