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13/03/2021 às 00h00min - Atualizada em 13/03/2021 às 00h00min

Sócrates e o suicídio

Ricardo Coelho
Quando observamos jovens de treze, catorze anos, no auge do seu despertar para a realidade estudantil, com energias físicas de sobra, desistindo da vida frente às intempéries que ela mesma propõe, imaginamos uma geração que perdeu a perspectiva de sonhar com dias melhores, que perdeu a possibilidade de viver uma vida dinâmica, plena e desafiadora. Muitos desses jovens passam a impressão de que se entregaram rapidamente ao suicídio, um tipo de morte cada vez mais em evidência nessa faixa etária. Jovens que lutam insistentemente consigo mesmos, seja na depressão, no medo, na angústia, na solidão, na dependência de álcool ou drogas, ou nas dúvidas, tão comuns neste período da vida. Fatores sociais como estresse, bullying escolar, pobreza, situações familiares violentas ou complexas, também podem levar os jovens ao suicídio. Mas o que a “filosofia” diz a respeito de um assunto tão destacado hoje em dia?

Já se sabe que antes mesmo da sociologia, da psiquiatria, da psicanálise e da psicologia enquanto ciências, a filosofia já se debatia sobre o tema, por fazer parte da experiência existencial humana. Filósofos como Sócrates, Platão e Aristóteles já se debruçavam sobre o assunto. Muito antes deles a mitologia já discutia, pois os heróis já praticavam o ato, inclusive Hércules, que se lançou numa pira ardente para escapar à dor que tanto lhe afligia o corpo e o espírito. Portanto, não se trata de um assunto novo. Segundo (Albert Camus - 1913 -  1960), só existe um problema filosófico realmente sério: o suicídio. Julgar se a vida vale ou não a pena ser vivida é responder à questão fundamental da filosofia. Comecemos então por Sócrates.

Em Fédon, um dos diálogos de Platão em que é retratada a morte de Sócrates, há uma conversa entre este e alguns de seus discípulos sobre a morte voluntária. Em determinado momento do diálogo, Cebes o interpela: “Por que disseste, Sócrates, que não é permitido a ninguém empregar violência contra a si mesmo, se, ao mesmo tempo, afirmas que o filósofo deseja ir após de quem morre?” (PLATÃO, 2007, p. 22). Nesta parte do diálogo Cebes o interroga porque parecia haver uma contradição entre uma fala de Sócrates que afirmava ser a filosofia um exercício de aprender a morrer. Sendo a filosofia um exercício de aprender a morrer, isso não significa, necessariamente, que Sócrates estaria chancelando a morte voluntária, conforme afirma Puente: “Ora, diante disso, os jovens que o ouvem supõem que isso devesse significar uma aprovação do ato de retirar-se voluntariamente da vida. Diante dessa incompreensão, Sócrates intervém explicando então o real significado do que queria dizer” (PUENTE, 2008, p.17). Cebes então continua fazendo suas colocações, desta feita querendo saber as razões que levam Sócrates a dizer que não é permitido o suicídio ou a morte de si mesmo, conforme o texto platônico:

Qual o motivo, então, Sócrates, de dizerem que a ninguém é permitido suicidar-se? De fato, sobre o que me perguntaste, ouvi Filolau afirmar, quando esteve entre nós, e também outras pessoas, que não devemos fazer isso. Porém nunca ouvi de ninguém maiores particularidades (PLATÃO, 2007, p. 23).

Para explicar tal situação, o velho Sócrates vai dizer que “os homens estão numa espécie de prisão, de cárcere da alma, e dela não podem nem se libertar nem se evadir da mesma” (PLATÃO, 2007, p. 24). Segundo o sábio de Atenas, os homens vivem numa prisão, da qual não podem forçar a saída e nem dela se evadir, conforme já observado. Isso porque, na visão de Sócrates, a vida e a morte pertencem aos deuses, só eles têm o direito de fazer cessá-las. Quando o indivíduo toma a decisão de não mais viver, isto é, quando busca o suicídio como resposta, interrompe o destino que foi reservado a ele. Ninguém tem esse direito. O destino precisa ser cumprido na vida de todos, inclusive na vida do próprio Sócrates. Só os deuses podem decidir sobre isso. Então se pode conceber, a partir do texto de Platão, que a morte de Sócrates  não pudéssemos compreendê-la como suicídio, mas como um sinal dos deuses de que sua hora chegou e, neste caso, conforme afirma Puente, deixar a vida neste caso seria permitido: “Ora, a alusão de Sócrates é clara: a sua condenação à morte deve ser compreendida como um sinal necessário enviado por um deus e, neste caso, mas somente neste caso, deixar a vida seria permitido”(PUENTE, 2008, p.18).

Sendo assim, podemos afirmar que a morte de Sócrates, o momento quando este bebe o veneno como forma de punição pela suposta transgressão, não se pode compreender como sendo um suicídio. Neste caso específico, embora teria a possibilidade de recusar a tomar a cicuta, mas não o fez. E por que não o fez? Porque o destino estava traçado pelos deuses, e do destino ninguém pode escapar. Portanto, Sócrates não permitia à morte voluntária, pois segundo ele, interromperia o ciclo estabelecido pelos deuses.
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