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27/02/2021 às 00h00min - Atualizada em 27/02/2021 às 00h00min

CANCELADO

Filipe Roberto
SALA DA NOTÍCIA

Começo este texto me lamentando: oh! Como me sinto velho... São muitas novidades, muitas culturas, muitas tendências novas a cada minuto. Tudo surge e some na velocidade da luz ou das vontades de crianças e adolescentes mimados.

Esses tempos de internet fazem com que eu me sinta como um personagem do antigo testamento, com seiscentos e tantos anos mesmo estando apenas com quarenta e um.  Tudo passa muito rápido e parece que vivi muitos momentos, mais do que o tempo que tenho de vida.

Exemplificando, os grandes “imortais” hits não passam de duas ou três semanas e se tornam obsoletos. Lembro que na minha infância tivemos os grandes sucessos como “Não se vá” o único de Jane e Erondi e ainda “Meu mel” único do Marquinhos Moura que duraram um ano ou até um pouco mais até que se esquecia.

Hoje isso reduziu para duas semanas. Observando essas coisas, reforça a minha teoria de que quanto mais intenso, menos durável é qualquer coisa, seja um sentimento, uma sensação, um costume e se torna, como diz o povo, uma simples febre.

Mas o que me trouxe a estas páginas foi a “febre” do cancelamento. O tal cancelamento está se tornando tão intenso e presente em tudo que já acaba. A credibilidade já perdeu.

Qual preparo tem um influencer?

O cancelamento já é injusto na sua essência, pois uma pessoa acha que outra agiu errado e arbitrariamente movimenta uma legião de seguidores a deixar de consumir o que o tal cancelado produz. 

Pense bem. Um cara que não tem preparo nenhum, investiga, julga, condena, pune e persegue sua “vítima” à sua vontade. E seus seguidores desligam seus cérebros e seguem essa ordem como formigas na trilha para comida. Seria cômico se não fosse trágico. 

Vidas são dilaceradas por esses cancelamentos. Pais de família perdem emprego, seu sustento, sua dignidade só porque uma criança se tornou “influencer” e não gostou de algo que a pessoa falou ou fez. 

Que profissão é “influencer”? Penso que para alguém se tornar um influenciador, tem que ter experiência sobre o que fala, ter obras a respeito, trabalhos consistentes e se torne uma autoridade sobre o assunto discutido. Mas não. Influenciador é de tudo. 

Um garoto que não aprendeu a usar o termômetro é influenciador e fala sobre saúde com a bagagem de um Premiado pelo Nobel de Medicina. Um “influencer” que até ontem tinha como linha cômica principal tirar sarro pela aparência dos outros, virou o defensor de minorias. 

E esses influenciadores capitaneiam esse movimento do cancelamento, como Capitães do Mato atrás de negros escravos fugitivos. Lembrando que os Capitães do mato também eram negros. Jogamos fora a nossa estrutura jurídica que garante o direito à ampla defesa e o contraditório, para nos ajoelharmos ao poder absoluto desses destemidos cavaleiros Paladinos da Moralidade.

O BBB do Cancelamento

Abro um parêntese no texto para falar do BBB, nossa maquete de sociedade superlativada. Tenho que me curvar diante da genialidade do Boninho que escolheu a dedo cada participante. 

Buscou personagens de todos os movimentos ativistas para mostrar a futilidade e fragilidade da estrutura. Começamos vendo que as ditas minorias segregam. Nos primeiros dias, mulheres querendo se unir contra homens, negros querendo perseguir não-negros, acusações de “transfobia” sem o menor motivo, homem chorando pedindo desculpas por ser homem, um cara que levou um fora chamando a mulher que não quis ficar com ele de nazista (meu deus!), e pasmem... um participante que se diz lutar contra preconceito e discriminação perseguir outro participante, oprimindo, humilhando e tirando toda sua dignidade, não permitindo que o oprimido comesse em sua presença. Contra a opressão, vamos oprimir.  

Cancelado com K de “Ku Klux Klan”. Vi artista experiente ao invés de incentivar um jovem aprendiz, pisar  e diminuir, mostrando uma prepotência incoerente com suas letras e suas “pregações”.

 E em paralelo a isso, aqui fora, outros influenciadores criando movimentos em favor de um ou de outro e contra outros, querendo cancelar participantes que não estão em seus gostos, mesmo sem motivo algum. 

O Boninho projetou esse BBB para cancelar o tal do “cancelamento” e se os telespectadores observarem como isso funciona, os dias do cancelamento estão contados e o Cancelamento será cancelado.

Ideais vs Pessoas

Sigo acreditando nos ideais, mas não nas pessoas que os dizem defender. Acredito que as vidas negras importam e não só importam se elas falem e façam o que o cancelador quer, senão a dignidade do negro oprimido será destroçada pelo outro negro que se diz ativista e se torna opressor. 

O ego, o orgulho e o bem-estar pessoal estão muito acima do bem estar geral e da busca por justiça e igualdade social. Um negro que faz isso, joga todo o movimento no esgoto, incentivando o racismo. 

Da mesma forma que uma mulher que faz falsa denúncia de estupro. Ela põe todas as outras mulheres em situação de desconfiança, medo, vergonha e incentiva a cultura do sexismno.

A primeira mudança estrutural desses movimentos é voltarem à ideia inicial e seguirem sua proposta. Se um movimento defende um determinado grupo, é para defender e lutar para proporcionar melhores condições e tratamento para esse grupo específico e não atacar os outros grupos. O movimento é em “defesa de” e não “ao ataque”. É como ter uma arma para se defender. 

A arma não é equipamento de defesa, é de ataque, de defesa é colete, escudo, blindagem. Arma atinge a vítima onde ela está, é ataque. Além desse conceito de ataque e defesa, tem um outro ponto, qualquer movimento que defenda algum grupo não pode segregá-lo.

Tem que lutar para que esse grupo seja inserido na sociedade nas mesmas condições que todos e não os separar do todo e armá-los para atacar o todo. Isso não vai funcionar. Não estamos em Sparta. 

Segmentar e promover a rivalidade e o embate só vai causar mais segmentação, discriminação, preconceito e competição para saber que grupo é “melhor”. Olha aí a causa do racismo voltando como num círculo vicioso.

Ativismo ou Vitimismo?

Perderam o propósito, a forma de fazer, a sensibilidade e o peso de suas atitudes. Perderam a mão. De tudo. Em todos os grupos. Transformaram ativismo em vitimismo e um ideal em “mimimi”. 

Deixaram de lutar por direitos para exigir privilégios. Deixaram de discutir ideias e o bem comum pra ficar de fofoca e picuinha e não estou falando só do BBB. O BBB, assim como o congresso, é uma projeção da sociedade, o que tempera é a intensidade. 

E enquanto o congresso não tiver representatividade pra criar leis que igualem as condições das pessoas, entregaremos ideais sociais nas mãos de egos inflados e mãos opressoras que, disfarçadas de oprimidos, se lambuzarão em privilégios, enquanto a base que a sustenta continua sem liberdade, sem oportunidades e cancelada, não por um “inluencer” qualquer, mas pela sua própria condição.

Enquanto os Paladinos da Moralidade, assim como Lúcifer, acharem que são a luz, ao invés de portarem a luz, veremos ideais, oportunidades, sonhos e vidas sendo dilacerados pelos caprichos de tiranos absolutistas que deveriam defende-los. E o cancelamento? Acho que, pelo tempo, já foi cancelado.


* Artigo assinado por Filipe Roberto, autor do livro Papo Reto e Pokas Ideia
 

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