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05/01/2021 às 00h00min - Atualizada em 05/01/2021 às 00h00min

A triste decisão de Fagundes

Rodrigo Alves de Carvalho

A triste decisão de Fagundes - Foto: Pixabay

O litro de pinga e o veneno de rato estavam sobre a mesa. Fagundes enche um copo com a cachaça e despeja o veneno em uma xícara. 
 
São nesses momentos que um homem faz um balanço de sua vida e relembra as conquistas e os fracassos. Para ele muito mais fracassos. 
 
Lembrou-se de quando era criança, das malcriações que os amiguinhos sempre faziam com ele, só pelo fato de ser o mais mirradinho da turma. Lembrou-se do primeiro emprego num supermercado e as 140 dúzias de ovos que quebrou ao escorregar e cair sobre a pilha de caixas em forma de pirâmide. Lembrou-se de Verônica, a única mulher que realmente amou, tudo bem que a mulher não fosse o ideal de beleza com seus 120 quilos, rinite e sudorese noturna. Viveu com Verônica por um ano e meio até descobrir que a mulher estava tendo um caso com o padeiro do bairro (o que rosquinhas recheadas não fazem). 
 
Depois do divórcio trabalhou em uma pequena fábrica de papel higiênico. Três anos depois a firma decretou falência. Só não perdeu tudo porque num acordo na Justiça, Fagundes recebeu quatro mil rolos de papel higiênico como acerto. Quando o caminhão descarregou todo aquele papel na pequena casinha que alugara num bairro pobre da cidade, os moradores foram taxativos: - Que homem mais cagão! 
 
Mas seu inferno astral chegou ao ápice quando se mudou daquele bairro pobre para uma pensão furreca num bairro mais furreca ainda. Lá dividia o quarto com o vulgo Ligeirinho, que no começo causou um pouco de curiosidade pelo seu jeito discreto e ao mesmo tempo bagunçado. Quase não aparecia no quarto e se aparecia, era para comer e sair rapidinho. 
 
Fagundes arrumou um novo emprego como limpador de fossas. 
 
Um dia, ao chegar à pensão se depara com Ligeirinho mexendo em suas coisas e revirando seus documentos. 
 
Foi a gota d’água. Aguentou na vida o que podia e deveria tomar uma atitude. 

Agora ele contempla o copo de cachaça e o veneno de rato. Tomou uma decisão e ninguém iria fazer com que mudasse de ideia. Era a hora de pôr um ponto final em tudo. 
 
Fagundes tomou um gole de cachaça, pegou a xícara com o veneno e caminhou até um canto do quarto; se abaixou e gritou para todos da pensão e também da vizinhança e por que não dizer, para todo o mundo ouvir: 
 
- Morre rato desgraçado! 

Enquanto isso, Ligeirinho passava correndo no outro lado do quarto com um pedaço de queijo nos dentes.

  Rodrigo Alves de Carvalho   nasceu em Jacutinga (MG). Jornalista, escritor e poeta, possui diversos prêmios literários em vários estados e participação em importantes coletâneas de poesia, contos e crônicas. Em 2018 lançou seu primeiro livro individual intitulado “Contos Colhidos” pela editora Clube de Autores. 
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