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20/01/2023 às 06h40min - Atualizada em 20/01/2023 às 06h40min

Um super-herói para os brasileiros?

Fernando Ringel *
  
Não é um pássaro, um avião, nem mesmo o Super Homem. Como uma divindade, é onisciente, onipresente, onipotente, mas ao contrário de Deus, não tem nenhuma obrigação com a justiça. Dizem que seu rosto está impresso no dinheiro, mas com a popularização do pix, tem cada vez menos cédulas no comércio, e aí é como disse Jesus: “bem-aventurados os que não viram e creram”. Aos que ousam duvidar, magicamente surge a “mão invisível do mercado”, disposta a “dar na cara” de “homens e mulheres de pouca fé” no sistema. Entre esses, estão aqueles que lamentam notícias como a do gerente de loja, na Índia, que viralizou ao permitir que duas crianças de rua, sentadas na calçada, assistissem desenhos nas televisões à venda.
 
Nessas horas, o tal mercado não se importa: o mundo tem 8 bilhões de habitantes e é natural que haja descontentes. Mesmo com políticos e empresas surfando a onda do descontentamento, o mercado só se irrita quando alguém de muito poder pensa em mudar as regras do jogo, ainda que seja com boas intenções. Sendo a economia o sangue que corre em suas veias, ao se sentir incomodado, o mercado solta sua “mão invisível” e deixa a Bolsa de Valores cair, para desespero dos meros mortais. Com tanto poder, é de se espantar que mercado não seja escrito com letra maiúscula, como Deus ou Zeus.
 

Pecado Capital

Muitos acusaram a Bolsa de não ter caído com o vandalismo em Brasília, no último dia 8. Parte-se do princípio de que os grandes investidores apoiam apenas um determinado partido ou movimento político, sendo que a realidade é exatamente oposta. O mercado apoia o dinheiro e sua multiplicação, simples assim. Pode-se questionar se ele é justo ou qual o sentido para a constante acumulação de capital, daí o nome “capitalismo”, mas o fato é que essa é a sua natureza. Todo mundo investe para trabalhar, na esperança de acumular e multiplicar, e sendo o mercado fruto do trabalho e investimento da classe empresarial, é natural que ele pressione os governos por políticas que facilitem o lucro. Pode até existir simpatia dessa parcela da população por um político, mas isso acaba a partir do momento em que o apoio gerar prejuízo.
 
E tudo isso funciona, bem ou mal, por causa da confiança: o empresário vende na expectativa do pagamento e o funcionário trabalha para receber seu salário. O mercado só balança quando não sabe o que esperar do futuro, como está acontecendo na política, com o novo governo do PT. Porém, basta a coisa embalar para a Bolsa sossegar, como aconteceu nos outros governos Lula. A mesma coisa ocorre quando uma empresa faz algo fora do esperado, como no caso das Lojas Americanas, que divulgou um balanço incorreto, e a correção elevou suas dívidas de 20 para 40 bilhões! Dizer que foi um erro já é ruim para a confiança do investidor, mas e quando se descobre que seus diretores venderam ações da empresa, antes de rombo se tornar público? Pior para quem comprou com valor normal e agora tenta vender, com o preço derretendo diariamente. E como parar essa espiral de prejuízo se a cada dia a empresa vale menos e não se sabe como saldar a dívida que causou a crise?
 
A perda da confiança é o pecado capital nos negócios, na política e até mesmo na vida. É por isso que, quando o Banco Panamericano quebrou, Silvio Santos pagou todo o prejuízo do próprio bolso e seguiu em frente. É aquela coisa: prejuízo é passado, mas para o dinheiro que ainda se pretende ganhar, nada vale mais que um nome limpo. No caso das Lojas Americanas, resta limpar o seu, o que ocorrerá apenas após uma atitude drástica, como sua venda, ou por meio de demonstrações práticas de que as coisas serão diferentes no futuro. Igual faz a pessoa que errou, pede desculpas e dá provas de que vai mudar.
 
Enfim, fala-se muito do tal mercado, “malvadão”, mas ele é só um monte de regras que orientam seu próprio funcionamento. Parece complexo, mas muitas são simples como nos mandamentos de Moisés: “não furtarás”. O problema é que se dá tanta importância para ele que, do alto de seu poder econômico, acima de questionamentos, muitas vezes o próprio mercado parece olhar e dizer: “não terás outros deuses além de mim”.

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 * Fernando Ringel   é jornalista e professor universitário. @FernandoRingel - [email protected] 
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