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08/06/2022 às 19h09min - Atualizada em 08/06/2022 às 19h09min

Amor não é suficiente

Cristiane de Magalhães
Notícias da Região Tocantina
Imagem: Mike B (pexels)
Cristiane de Magalhães*

Acho que o nome do livro As 5 linguagens do amor, de Gary Chapman, na verdade, seria “As 299 linguagens do amor”, mas o autor resumiu para não frustrar os leitores. As três pessoas que leem meus textos vão concordar comigo: é preciso bem mais que descobrir qual a linguagem do amor de ambos para que uma relação perdure ao longo do tempo.  Amar é sobre criar novas formas de se comunicar e tem muito mais a ver com trabalho. Não no sentido sacrificial, mas de construção, melhoramento e cuidado. 

As paixões avassaladoras rendem cliques nos videoclipes do Youtube e grandes audiências em filmes e novelas. Manhãs de domingo à toa, conversa rara e boa são questões de sorte, na música Trevo, de Anavitória. Mas na realidade, é a habilidade de fazer ajustes que construirá a paz no relacionamento. É a contínua atitude de se importar, cuidar, escutar sem discordar, ceder e tantas outras práticas que estão nela, na rotina. É preciso lembrar que ceder não significa se anular e se deixar consumir pelo outro. Ah, e o trabalho deve ser prioridade de ambas as partes. Quando apenas um está empenhado e o outro deixa correr no automático, talvez seja hora de pensar em outro trabalho, digo, outro amor. 

Os poetas antigos e modernos; o Banquete de Platão; a Bíblia; o Buda. Todo mundo já tentou entender esse negócio. Enquanto isso, o menino do terceirão, coitado, só queria parar de se sentir um looser. Mateus corria atrás do primeiro emprego desde o segundo ano do ensino médio, quando Allanna terminou com ele sob a alegação de falta de prioridades. O rapaz não tinha celular e marcava encontro com a namorada usando o aparelho da mãe. Parece que Mateus sentia amor, enquanto processo emocional. E Allanna buscava compatibilidade, que é um processo lógico. 

Alex tem trinta e seis anos. Profissional de prestígio, alto salário, bom coração. Depois de três anos namorando Larissa, decidiu que não quer mais perder tempo com eternas adolescentes. Alex, há anos, desejava uma mulher cabeça. Uma parceira para dividir a vida. Ao menos era o que ele dizia.  Mas na prática, ele está saindo com Aline, 19 anos, mesma idade de Larissa, quando começaram a namorar. Talvez falte a ele o trabalho do autoconhecimento, para que ele pare de repetir os mesmos erros.                               

Depois que Valquíria desistiu de dar a quarta chance a Rogério, o mundo dele desabou. Para aguentar a separação começou a escrever poemas e começou a frequentar uma igreja. De versos livres melancólicos, passou a escrever sonetos.  Além disso, aprendeu a diferenciar Eros, Philia e Ágape. Valquíria apareceu no lançamento do terceiro livro de Rogério, acompanhada do noivo, Maurício, que segundo ela, era um ótimo pai para seus filhos. Pelo visto só amor sem valores fundamentais como respeito, humildade e comprometimento não era suficiente para Valquíria. 

A instrutora de Yoga que vive se equilibrando entre “a verdade do universo e a prestação que vai vencer”, conheceu a dona de uma lojinha virtual do Instagram. Assim que viu a blogueira escondendo o aparelho nos dentes enquanto sorria, as borboletas deram duas revoadas no estômago de Natasha e ela, que só queria comprar incenso, três meses depois tinha certeza que Ana Paula era o amor de sua vida. Agora vive cantarolando “ninguém vai poder querer nos dizer como amar”, do Johnny Hooker. Mas, Natasha não sabe que Ana está juntando dinheiro para tirar um ano sabático na Índia assim que terminar a faculdade de Medicina. A moça vai se dedicar ao que ela chama de busca de si mesma. Além de amor, Natasha precisará de resiliência para lidar com relacionamento à distância. 

Nós quatro, eu e vocês três que me leem, sabemos que amor é uma experiência maravilhosa e necessária. E como toda experiência, pode ser saudável ou não. Se ele apenas nos consome e sacrifica, faltando o bom e delicado trabalho de cuidar da relação, talvez estejamos superestimando o amor, achando que ele é suficiente. Mas quando as borboletas no estômago acalmam as revoadas, é que vemos se a mente está intacta para desfrutar do “leve da vida” por um longo tempo ao lado de quem amamos.
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*Cristiane de Magalhães – poeta, professora de Língua Portuguesa.
 

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