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18/02/2022 às 22h10min - Atualizada em 18/02/2022 às 22h10min

OBRIGADO ARNALDO JABOR

Phelippe Duarte
 
Na vida e no amor, não temos garantias.

O dono desta célebre frase, nos deixou aos 81 anos. Arnaldo Jabor, o homem que conseguia entrelaçar política e trabalhos domésticos em uma mesma frase. O pensador que facilmente misturava água e óleo com uma maestria verbal rara, talvez única. Um malabarista das palavras, como era chamado, que fazia um assunto simples transformar-se em um devastador conto de fadas na cabeça de quem o escutava. Jabor me fez ficar acordado várias noites esperando sua crônica televisiva no Jornal da Globo. O ponto alto daquelas madrugadas era a estrutura da imagem e do cronista: Arnaldo sentava atrás de uma bancada, de terno e gravata, e dizia: está gravando? E começava. Sobre qualquer assunto, sobre qualquer pessoa, sobre qualquer situação do mundo inteirinho. Eu aprendi muito escutando e entendendo como poderia brincar com algo tão poderoso, como as palavras. Formar ideias e opiniões e publicá-las, é um ato corajoso, louco e muito, mais muito ousado. Jornalistas como Jabor, talvez não conseguiriam continuar tanto tempo mais neste mundo tão mesquinho e tão ordinário. Hoje você é errado simplesmente por ter uma opinião contrária ao que aprendeu a vida toda, ou por pensar de maneira diferente sobre determinado assunto. O respeito em relação ao que você gosta, como você anda, como se veste, o que come, e o que prefere, não existe mais. Jabor é da época que se dizia o que pensava como jornalista e não se camuflava o que se pensa, como são a maioria dos jornalistas atuais. E claro, os jornalistas das redes sociais, os que se intitulam donos da verdade, por apenas espalhar fake news ou repostar mentiras sobre alguém, mesmo que estas tenham um pingo de verdade escondida.

Arnaldo Jabor dentro de sua genialidade malabarista, poderia ser e falar de quem quisesse. Com uma mente aguçada, a frente do seu tempo, sabia exatamente o que queria dizer sem ao menos gastar um minuto de suor do cérebro. Dois grandes pensamentos de Jabor, que devem ser compartilhados pela eternidade:

...E nós, hoje, nesta infernal transição entre o atraso e uma modernização que não chega nunca? Quando o Brasil vai crescer? Quando cairão afinal os “juros” da vida? Chego a ter inveja das multidões pobres do Islã: aboliram o tempo e vivem na eternidade de seu atraso. Aqui, sem futuro, vivemos nessa ansiedade individualista medíocre, nesse narcisismo brega que nos assola na moda, no amor, no sexo, nessa fome de aparecer para existir. Nosso atraso cria a utopia de que, um dia, chegaremos a algo definitivo. Mas, ser subdesenvolvido não é “não ter futuro”; é nunca estar no presente.

Sem força alguma, Jabor nos remete ao estar presente sem esquecermos que somos um atraso mental como população. Inveja povos pobres, sem expectativa nenhuma, pelo fato de não se preocuparem mais com algo que nunca virá e um status que nunca terão. Somos nós, que buscamos um futuro, sem ao menos, viver com respeito o presente.

 Seja ridículo, mas seja feliz e não seja frustrado.

Pague mico, saia gritando e falando o que sente, demonstre amor.

Você vai descobrir mais cedo ou mais tarde que o tempo pra ser feliz é curto, e cada instante que vai embora não volta mais. Não se importe com a opinião dos outros.

Antes ser um idiota pra as pessoas do que infeliz para si mesmo.


Se somente tivesse criado estes dois trechos de textos, Jabor já seria grande. A profundidade com que entendia  a alma das pessoas, seus dramas e angústias, impressionava com a mesma força de um tsunami.  O que mais você pode ser, em uma sociedade que te limita numa falsa democracia, numa falsa sensibilidade sobre tudo, numa inquieta sensação de segurança,  onde nada parece ser como é? Seja você mesmo, sempre. Quando disserem que você é gay, de um grito alto. Se te chamarem de cafona, chame sua vó para dançar. A inquietude só atinge quem leva a vida a sério demais. O rótulo só pega, quando o frasco se deixa ser colado. Frise: ANTES SER UM IDIOTA PARA AS PESSOAS, DO QUE INFELIZ PARA SI MESMO. A cabeça do nosso guru verbal, fez tanto malabarismo, que um AVC o levou. Uma mente se cala, mas a lenda viverá nos confins da eternidade. A vida e o amor não tem garantias, como Jabor disse. Só vou discordar de uma coisa, me perdoe. O amor, é a garantia da vida.
Obrigado, mestre.

Phelippe Duarte – administrador e publicitário
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