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12/11/2021 às 21h00min - Atualizada em 12/11/2021 às 21h00min

UNIVERSO ABERTO

Elson Araújo
 
Aprendi a gostar de (h) estórias ainda na infância. Consegui o “mau hábito” de só dormir depois que minha irmã Margarete, ou meu irmão Neto, contasse uma história. Na ausência deles, minha mãe improvisava. Sem a contação de estórias podia até dormir, mas demorava mais um pouco. Umas eram retiradas de antigos livrinhos de estórias infantis, mas a grande maioria era inventada na hora. Servia do mesmo jeito. Gostava tanto que, entre os 9 e dez anos de idade, inventei de tentar escrever as minhas.

 O problema é que não tinha coragem de mostrar para ninguém. Achava que iam mangar de mim. Os cadernos, daqueles pequenos de costa de arame, com um monte de pequenas estórias escritas a lápis, acabaram perdidos na poeira do tempo. Algumas delas consegui resgatar no meu banco de memórias, outras desapareceram no éter. Devem ter sido encontradas por outros garotos que, como eu, tinham o mesmo gosto.   

O tempo passou. Criei coragem de publicar, e tenho feito isso ao longo de alguns anos. De vez em quando alguém me aborda e diz que leu “meu texto de sábado em O Progresso”, é o bastante para estufar o peito e chegar em casa todo besta. Não tem dinheiro no mundo que compre a sensação que fica com um pequeno testemunho como esse. É desse jeito, irmão Farnésio!

Hoje faço parte, ainda com uma certa desconfiança se realmente mereço, da Academia Imperatrizense de Letras, um ambiente aprazível, formado por homens e mulheres apaixonados por livros e pela leitura, alvos da boa inveja pelo que são e pelo que produzem. Um orgulho fazer parte daquele sodalício que tenho o prazer de acompanhar desde a fundação, há 30 anos.

Agora acabo de ousar. Juntei novos, antigos, micros, médios e grandes textos, alguns já publicados neste mesmo espaço, e fiz nascer UNIVERSO ABERTO, meu primeiro livro solo, premiado por um edital do Governo do Estado por meio da Lei Federal Aldir Blanc. Nesse particular tive um grande empurrão da especialista em projetos culturais Núbia Carvalho, a quem deixo aqui publicamente minha gratidão. Até o final do mês nasce o rebento, e como todo nascimento, cheio de expectativas.

Além do prazer da publicação, a alegria de ganhar de presente do confrade Ribamar Silva, autor com mais de 20 obras publicadas, e de uma sensibilidade literária quase que sobrenatural, um prefácio que me emocionou muito pela capacidade que o atilado escritor teve para traduzir as linhas do Universo Aberto.

Para não ficar só comigo, e já furando o lançamento do livro
Ei-lo

UNIVERSO ABERTO

Prefácio

Quando um rio nasce, não passa de um filete. Por assim dizer, uma breve e tortuosa linha que borbulha do seio da terra e vai se derramando pela topografia do terreno. Quem encontra uma nascente, não tem ideia de ter encontrado um rio. Então, seguindo a linha d’água, perceberá que aos poucos ela vai engrossando, ganhando volume e força, até alcançar a caudal de um rio maior e mais largo, e em muitos casos, o oceano, seu destino final, onde se perde ou se acha? Parece que o desejo de todo rio, depois de percorrer as lonjuras do caminho, é descansar em esteiras de espuma.

Este Universo aberto de ElsonMAraújo, se constitui em um uma nascente que começa em um filete, uma ou duas linhas que vão se somando a outras ao longo do trajeto que percorre da primeira à última página, à espera de desaguar na grandiosidade do oceano do olhar do leitor, ponto de chegada, termo da jornada em que a caudal, Universo aberto, se junta à fartura de espumas e ondas e se torna também mar.

No entanto, o caminho de um rio e de um livro é longo desde a nascente até a foz, e ao longo desse caminho, há acidentes, empecilhos que por vezes não podem ser removidos e são contornados, de forma que ambos: rio e livro chegam ao destino amadurecidos pela experiência adquirida na trajetória.

ElsonMAraújo é um contador de histórias, um descritor de fatos como bem aprendeu na lide jornalística, portanto, traz a crônica inscrita nas veias. Com o passar do tempo, metaforizou a secura do texto jornalístico e o transformou em literatura. Tanto, que neste Universo aberto, faz a pedra, ser inanimado, chorar: “De tanto chorar, com o passar dos anos, as lágrimas da pedra começaram lentamente a formar um filete de água que mais tarde tornou-se um riacho”.

Nesta obra, o próprio autor se configura como o Universo aberto às relações com o ser humano e com a natureza. Ele sabe que a literatura concebida na intimidade da alma, só tem sentido se partilhada com o Universo aberto da vida. Sabe que o livro é obra inacabada, até chegar ao mar/oceano do olhar e do coração do leitor. Então, resta-me desejar que o leitor se deixe conduzir pelas correntezas desse rio, conduzido pelo sabor das metáforas de ElsonMAraújo.

Ribamar Silva
Membro da Academia Imperatrizense de Letras – AIL
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