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15/09/2020 às 18h15min - Atualizada em 15/09/2020 às 18h15min

Especialista orienta sobre cuidados às mães de crianças atípicas durante a pandemia

Kayla Pachêco / Maria Almeida
O autocuidado é essencial para a preservação da saúde mental - Foto: Divulgação
Entre os inúmeros problemas que as famílias brasileiras têm enfrentado desde março, quando a pandemia da Covid-19 atingiu todas as regiões do país, o cuidado com os filhos tem se mostrado o mais delicado. Esse papel tem sido ainda mais difícil às mães, principais responsáveis pela missão do cuidar e educar os filhos, que durante o período de isolamento social, têm se desdobrado na realização de atividades diversas com as crianças.

 Esse cotidiano se tornou ainda mais desafiador às mães de crianças atípicas, que nos últimos seis meses lidam de forma solitária com a maternidade ao lado de filhos com deficiência ou doenças raras. Com as escolas fechadas e sem um cronograma regular de atividades de estímulo como atendimento em terapias, a rotina tem sobrecarregado ainda mais esse público, provocando em muitos casos, adoecimento emocional.

 De acordo com Gianna Azevedo, psicóloga, mestre em desenvolvimento infantil e especialista em formação multidisciplinar em Síndrome de Down, o olhar está sempre voltado à criança, e as mães vivem uma sucessão excessiva de demandas.  “Essa invisibilidade da mãe se acentuou nos últimos meses, pois geralmente não tem com quem dividir as responsabilidades, e sem uma rede de apoio torna-se mais suscetível ao adoecimento psíquico”, alerta.

 Ana Meire é mãe do Rafael, de nove anos, com síndrome de Down e que teve a rotina educativa e de atividades físicas interrompida. Durante a rotina regular, uma vez por semana ele recebe atendimento educacional especializado, pratica judô pela manhã em outros dois dias, e à tarde vai para a escola. Segundo a mãe, que é professora, Rafael adora o convívio com os colegas da escola e no judô, interrompidos há cerca de 180 dias.
“Para mim que sou da área educacional já é complicado manter uma rotina de tarefas educativas e de estímulo nesse isolamento, imagine para as mães que não têm formação específica, isso somados à falta de ajuda, o excesso de serviço e a preocupação com a criança que está presa em casa sem os cuidados de profissionais especializados de antes, onde a mãe tem que assumir todos esses papeis”, explica Ana, que precisa se virar para entreter o filho o dia todo trancado em casa. Banhos de piscina várias vezes ao dia, algumas tarefas escolares ao menos duas vezes por semana e jogos on-line, por enquanto, estão funcionando para que Rafael consiga passar melhor o tempo.

 Sobre a saúde mental das mães atípicas no desafio de cuidar das crianças em isolamento social, a psicóloga orienta sobre a importância do autocuidado estimulado por uma rede de apoio que envolva tanto a família como órgãos e profissionais.

 “O que a gente observa é que as mães atípicas vivem “a solidão das mães especiais”. Geralmente é ela quem leva a criança, às terapias, exerce os cuidados em casa, tendo uma rotina totalmente alterada e assim vai ficando no final da lista de prioridades. Tem sido cada vez mais comum deparar-se com mães com sintomas de depressão, crises de ansiedade, expressão abatida, cansadas, em decorrência da demanda excessiva. Não só a mãe, mas toda a família deve cuidar para que ela esteja bem física e emocionalmente para cuidar do filho” - ressalta Gianna.

 Ela pontua que esse cuidado deve fazer parte de uma política permanente, mas em especial, no setembro amarelo, mês em que se intensificam as campanhas em prol da saúde mental de toda a sociedade ela faz esse alerta. “Elas precisam de toda uma rede de apoio, é importante ser acolhida e trocar experiências. A maternidade Atípica, é a maternidade que não se planeja viver, que ninguém quer, que não se vê e nem se fala sobre. É fundamental e urgente fazer a adaptação da rotina de terapias e otimização da casa em tempos de pandemia”, detalha.

 Autocuidado esquecido – Entre as dicas para evitar o adoecimento emocional, Gianna Azevedo chama a atenção para a importância do autocuidado, por parte das mães. “É fundamental que olhe também para si e veja suas necessidades, que reconheça e acolha suas fragilidades. É necessário desmistificar o título da mãe guerreira, heroína, pois na maioria das vezes por trás desse título o que encontramos é uma mulher sozinha, que está a arcar com toda a rotina de terapias e cuidados, em que algumas ainda são, também, o suporte financeiro de toda uma família. É importante que essa mãe tenha um tempo para si, que se veja enquanto mulher, que tenha espaço para os outros papeis que, também, deseja desempenhar, que se permita ter um tempo para prática de esporte, um café com as amigas... aquilo que lhe faça bem, sem culpa, sem vergonha. Tudo isso é autocuidado” - destaca.

 “Outro fator relevante é a troca de experiências, falar das vivências em comum que aproximam essas mães, o que as permite ver que não estão sozinha, promove a construção de vínculos que as sustentam, fortalece para as lutas em comum, fatores estes que, também, promovem a saúde mental das mães atípicas”, conclui a psicóloga. 

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