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25/09/2021 às 00h00min - Atualizada em 25/09/2021 às 00h00min

A Arte de Sonhar

Elson Araújo
  
O sonhar poético, o sonhar que diz ser premonitório, o sonhar profético, este tão decantado nos textos sagrados; o sonhar que acalma e agita o coração, o sonhar desconexo, o sonhar traduzido como desejo ou meta a alcançar. Enfim, os caminhos para interpretar o sonhar são múltiplos e se intercruzam com a religião, a ciência e a cultura.  O sonho é um mecanismo complexo e até hoje objeto de estudos, não conclusivos, mas que se sabe extremamente benéfico para o equilíbrio humano.

A ciência define o sonho como uma experiência de imaginação do inconsciente durante o sono. Sigmund Freud, o fundador da psicanálise e precursor dos estudos sobre o tema, diz que os sonhos noturnos são gerados na busca pela realização dos desejos reprimidos.

Já o psiquiatra e pesquisador americano John Allan Hobson considerou "os sonhos como um mero subproduto da atividade cerebral noturna".

Fora da ciência, em muitas tradições culturais e religiosos, o ato de sonhar ganha ares esotéricos, neste caso revestido de poderes premonitórios.

Em algumas denominações religiosas é comum ouvir a frase “tive um sonho de revelação contigo”, que grosso modo, seriam mensagens divinas direcionadas aos fiéis, que costumam levá-los muito a sério.

No senso comum, o ato de sonhar tem sempre um significado. Quando não ainda não tem cria-se um. Conheço vários casos.

Esses “significados” mudam de pessoa para a pessoa. É só sonhar, que começam os exercícios de interpretação. Tempos atrás, lá na Vila Lobão, apareceu uma senhora que vendia sonhos para jogadores do jogo do bicho. Teria dado certo uma vez e foi o bastante para casa dela virar um ponto de encontro dos apostadores. Por algum tempo vender sonhos foi seu ganha pão.  Cheguei a noticiar “esse comércio exótico” quando trabalhava formalmente na imprensa local.

Já tive sonhos premonitórios. É verdade! Uma vez botei na cabeça que iria sonhar com as seis dezenas da mega-sena. Demorou, mas não é que sonhei!  Não com os seis números, mas com cinco. Sabe quanto ganhei? Nada. As cinco dezenas saíram dispersas nos outros volantes, para minha inteira decepção.

Para não haver mais frustração passei a tratar os sonhos, dos quais lembro, com um certo lirismo. Uma vez tive um sonho assim “meio louco” e traduzi dessa forma:

“No universo dos sonhos rostos perdidos surgem na imensidão do tempo.  Alguns, com olhos brilhantes destacados na penumbra, sorriem; outros parecem indiferentes, e num terceiro quadrante alguns simplesmente só observam sem nada esboçar.  Esses desapareceram na mesma velocidade que apareceram”.
 Numa outra vez, dormi lembrando do meu saudoso pai. Quando acordei foi com o texto abaixo reproduzido:
 

MÚSICOS SÃO ANJOS

Sonhei que anjos desciam à Terra, e que num final de tarde de Céu azul anilado, empunhando liras e harpas, executavam uma canção que nunca ninguém tinha ouvido.

Os filhos da Terra ficaram encantados com todos os sentidos vidrados no infinito azul e conectados àquela ária, ornada pela filarmônica de anjos, naquele instante ouvida em todo o Planeta.

Ao final, vendo que aquilo era bom para os ouvidos e a alma, nem todos os anjos retornaram para o Céu. Alguns permaneceram aqui para continuar a encantar a alma da gente com acordes celestiais.

Músicos são anjos, meu pai era um. 

Passei então, desde o sonho frustrante com os números da mega-sena, a agir dessa forma. Quando o sonho é bom, não tem jeito, trato logo dele extrair uma tradução poética. E assim, sigo sonhando, sonhando, sonhando.

 
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