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06/09/2021 às 19h46min - Atualizada em 06/09/2021 às 19h46min

Olimpíada de História discute o bicentenário da independência

Como parte da competição, estudantes tiveram de montar uma exposição que abordasse diferentes aspectos da independência. Os trabalhos serão disponibilizados no próximo ano em formato on-line.

Akemi Nitahara
Agência Brasil - Rio de Janeiro
Estudantes montaram exposições sobre os vários aspectos do processo - © Fernando Frazão/Agência Brasil

  
Para iniciar as discussões sobre o bicentenário da Independência do Brasil, a ser comemorado em 7 de setembro de 2022, a Olimpíada Nacional de História do Brasil (ONHB), organizada pela Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), promoveu, este ano, atividades dentro da competição para que os estudantes compreendam melhor todo o processo envolvido em torno da data.

A tarefa da quinta fase da competição deste ano, a 13ª edição do evento, consistiu em montar uma exposição que abordasse diferentes aspectos da independência. A coordenadora da ONHB, professora Cristina Meneguello, explica que os participantes foram instigados a refletir sobre o contexto geral da Independência do Brasil, buscando informações sobre os antecedentes, o próprio evento, questões regionais e a relação com os dias atuais.

“A gente fez um template de uma sala de museu, eles tinham que colocar um quadro, selecionar fatos e explicar o porquê daquelas escolhas. Na última parede a gente deixou mais livre e eles falaram de fatos muito interessantes, como independência econômica em relação a outros países, falaram da [Maria] Felipa, da Dandara, da Marielle. Eles realmente extrapolaram, entenderam para além o que significa ser uma nação”.

Os trabalhos dos estudantes serão disponibilizados no próximo ano em formato on-line, a exemplo do Dicionário Biográfico dos Excluídos da História, fruto da ONHB de 2019. De acordo com a coordenadora, os estudantes e professores também serão estimulados a montarem as exposições nas próprias escolas.

Para Lucas Matheus, integrante da equipe Os Sem Vergonha, do Instituto Federal do Rio Grande do Norte (IFRN) ao lado de Artur Oliveira e Letícia Bezerra, as aulas de apoio oferecidas pela ONHB e as que teve com seus professores ajudaram a ampliar a perspectiva que ele tinha sobre a independência.

“Deixei de enxergá-la como um processo único e focado no Grito do Ipiranga e comecei a vê-la como um processo gradual que durou décadas e que ocorreu em diversas localidades praticamente ao mesmo tempo, não só na Região Sudeste. O mais interessante foi aprender sobre as disputas de independência que aconteceram em todos os locais do Brasil, cada estado com a sua especificidade, como na Bahia, que hoje eles comemoram a independência no dia 2 de julho, e que o nosso estado [Rio Grande do Norte] já conhecia a independência antes do 7 de setembro”.

O estudante destaca também que o aprendizado obtido pode ser aplicado aos dias atuais. “Sob essa perspectiva, durante as aulas de preparação, os nossos docentes estimularam a pensar sobre as disputas de narrativas durante a pandemia, fomos levados a repensar sobre qual ótica a história estava sendo escrita, além de descobrirmos grupos importantes que foram excluídos”, afirma Matheus.

Também do Rio Grande do Norte, a equipe Ester Sabino, do campus Natal-Central do IFRN, disse que a tarefa de montar a exposição e os estudos para conseguir executá-la mudaram “completamente” o conhecimento que os estudantes tinham sobre a independência, apresentando um lado da história que “esquecem de nos mostrar”.

“Todas as aulas ministradas foram de excelência para entender que essa data foi muito além de um grito à margem do Rio Ipiranga, que a participação popular é muito esquecida quando comemoramos essa data, mesmo tendo sido o povo a derramar sangue pela nossa liberdade durante as guerras de independência. Assim como reconhecer que a pessoa responsável por assinar nossa independência foi a Imperatriz Leopoldina, outro grave esquecimento na história”, disse à reportagem a equipe composta pelos alunos Luiz Eduardo Cunha Rocha, Sara Hananny Silve e Maria Beatriz Lino.

A prova da última fase da ONHB foi aplicada no dia 16 de agosto, para 415 equipes. Devido à pandemia, a cerimônia de premiação será online, no dia 12 de setembro. Este ano, a ONHB recebeu inscrições de 27,9 mil alunos dos 8 e 9 anos do ensino fundamental e do ensino médio, divididos em 6,9 mil equipes. Desse total, 2 mil equipes chegaram à fase de montar a exposição.

As independências

Como suporte para que as equipes participantes fizessem a tarefa, a organização da ONHB produziu dez videoaulas sobre o tema, de 12 a 25 minutos cada, intitulada ONHB e as Independências. Cada aula foi gravada por um professor universitário diferente e trata de um aspecto específico do processo da Independência do Brasil. As aulas foram disponibilizadas para os estudantes da ONHB durante a semana de preparação da fase 5 e agora estão disponíveis no YouTube.

Dessa forma, qualquer pessoa poderá ter acesso aos vídeos para entender melhor questões como a violência na história da Independência, a ideia de império, a revolução iniciada em Recife em 1817, a batalha de narrativas em torno do bicentenário e o papel da imperatriz Leopoldina, entre outros. De acordo com Cristina Meneguello, o objetivo das aulas foi oferecer, em linguagem acessível, os conteúdos que, na maioria das vezes, são tratados de forma reducionista ou muito acadêmica.

“Quando estuda na escola, a independência aparece como um evento já cristalizado, 'ah, o imperador às margens do Ipiranga', etc. Mas, em história, a gente sempre tenta mostrar que as datas são construídas, inclusive posteriormente. Então queremos discutir o que permitiu que o país continuasse independente. Para quem vive no Norte do país não é 1822, foi em 1823. Para quem está em Pernambuco, esse processo começa antes, em 1817. Os estudantes de Minas Gerais começam a falar da ideia de independência já na Inconfidência Mineira, no século 18”.

Obra Independência ou Morte, pintada por Pedro Américo - Independência do Brasil
 

Para a coordenadora, os estudantes da ONHB conseguiram compreender as diferentes representações e disputas de narrativas em torno do 7 de setembro, o que foi demonstrado na tarefa da competição.

“Aquele quadro [Independência ou Morte, de Pedro Américo] é uma celebração. Tem vários outros quadros que mostram esse momento. Tem um que D. Pedro está junto da população, como se ele fosse um líder popular. Mas no livro didático você encontra sempre o mesmo, é como se ele tentasse fazer a gente visualizar algo que não foi visualizado daquele jeito, não foi fotografado, não tinha um pintor lá na hora, é uma construção do fato em imagens", afirmou.

"É importante aprender em história que os eventos não podem ser testemunhados por nós. A gente consegue reconstruir os eventos pelos documentos, mas a gente tem que saber que eles são reconstruídos”.

Olimpíada aberta

A ONHB está com inscrições abertas para a versão ampliada da competição. Qualquer pessoa ou equipe pode participar, sem a necessidade de vínculo com escolas. Segundo Cristina, a versão tem menos perguntas e atraiu mais de 30 mil pessoas no ano passado, quando ocorreu a primeira Olimpíada Nacional em História do Brasil Aberta para Todos (ONHB-A).

As inscrições podem ser feitas até o dia 24 de setembro pelo site da ONHB e tem o custo simbólico de R$ 5 por pessoa.

“Sempre recebemos muitos pedidos de ex-participantes e universitários para que haja uma versão aberta. Fizemos em 2020 de forma experimental com a Pré-ONHB e tivemos um resultado bastante positivo. Resolvemos ampliar neste ano para que escolas que ainda não participam possam conhecer a olimpíada”, explica a coordenadora.

A ONHB-A tem quatro modalidades: individual e em grupo de duas a seis pessoas para quem não tem vínculo com escolas; e equipe treineira e escola pública treineira, para estudantes e professores conhecerem o projeto. Há gratuidade para a inscrição de até uma equipe por escola pública. A competição tem quatro fases, no lugar das seis da ONHB tradicional, com seis dias para executar cada uma e uma tarefa final.
 


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