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03/07/2021 às 00h00min - Atualizada em 03/07/2021 às 00h00min

... A MATANÇA É O FIM DO BUMBA-BOI


Quando terminava o mês de junho vinha a MATANÇA.  E a matança era o fim do bumba-boi. Havia um tempo feliz naquele meu sertão baixadeiro, lá... onde o vento fazia curva: Era no mês de junho, um tempo das brincadeiras de bumba-meu-boi que ali chamava-se e ainda se chama de “boiada”. Sim, era naquele tempo de boiadas que aquela gente se alegrava: roupa boa, dinheirinho do bolso, bom-bom píper para fazer um clima, calçado nos pés, brilhantina, loção. Boiadas que se estendiam a noite inteira, até o dia amanhecer.

Detalhe de saudáveis lembranças é que as “boiadas”, em que havia a atração às pessoas do lugar - gente de todas as idades e meio mundo em volta, também prestavam-se a uma vitrine... uma janela...  em que rapazes e moças aproveitavam para se aproximar  fosse por olhares, pelas conversas ao pé do ouvido e até mesmo através de bilhetes ou recados que viriam depois. Aquilo era uma “terreiro” para umas tantas caçadas e buscas e tentativas. Falava-se que tinha uma boiada, solteirões e solteironas já imaginavam a caçada. Era um tempo de caça!

Como é(ra) da tradição por ali, toda boiada há(via) que ter um jantar. Jantar para os brincantes do bumba-boi, em mesa especial, reservada, pratos feitos. Cada prato uma montanha. O povão é(ra) servido em seguida. Não há um único cristão a quem não seja servido o seu prato. E melhor assim. Porque consoante os velhos costumes “festa boa é aquele em que todo o  mundo come” - já disse isso até num ensaio a que escrevi, sobre a vida do meu lugar.

O boi brinca no terreiro, entre duas filas de bailantes (“balhantes”, como dizem) - no cordão como se chama. Ultimamente o cordão consiste em um  grande círculo, em meio ao qual dança o boi.  Em volta os brincantes com seus chapéus enfeitados em fitas multicores. Com suas matracas, seus pandeirões, seus tambores. Os cazumbás vestidos de palhaços e espantalhos que antigamente era um só mas agora e já faz tempo que se multiplicaram. Metidos a espertos, são os bobos da corte, mascarados, fala afetada, um tipo espantalho  que roubam a cena, interagem com o público e, como sempre endinheirados, fazem tilintar os seus dinheiros, que os conduzem amarrados à cintura,  sob a veste.

Enquanto é junho tem BOIADA, mas quando chega mês de julho aí vem a MATANÇA. Matança é o  fim da picada; é o fim do bumba-boi, é o fim da boiada. Mas, ainda assim, de sábado para domingo tem a boiada e no domingo tem a MATANÇA.  Matança e boiada, uma emenda na outra – é uma festa só. A Boiada, como sempre, atravessa a noite e a Matança, no domingo, vai das sete às dez / onze  do dia.

A MATANÇA tem lá o seu ritual de tristeza, com o boi berrando e suas toadas tristonhas. Nego Chico ou Cazumbá é o vilão, o açougueiro. É um personagem da trama.  De tempos idos, a matança , debaixo de um ritual e cantorias, consistia  em cortar o boi, picar o boi, destruir o artefato. Enfim, MATAR O BOI. De tempos idos para cá, ainda que a brincadeira denomine-se MATANÇA, mas... ao invés de “MATAR” o boi, SOLTA-SE o boi, para que o artefato (o objeto) continue integral para as próximas brincadeiras, nos próximos anos, quando o MÊS DE JUNHO CHEGAR.

Anoto aqui que de tempos idos, as brincadeiras eram mais simples, mas originais, com seus “caboclos”, enfeitados de índios e suas flechas; com os chapéus dos “balhantes” enfeitados em fitas multicores, espelhos e penachos, além das tangas e peitorais em veludo e bordados em canutilhos que brilhavam e rebrilhavam a noite inteira para o deleite daquela gente extasiada,  feita da dura luta do sol a sol. Enquanto isso... “conversa mole” ao pé do ouvido de umas tantas por ali.

Os tempos mudaram. As toadas mudaram. Os rituais mudaram. As brincadeiras mudaram. Tem ou pensam que tem um DINHEIRO público nesse meio de caminho. DINHEIRO que chega para uns; outros NÃO.  Daí as insatisfações, os “racha/s”.  E se antes a brincadeira era brejeira, sertaneja do tipo pé no chão -  hoje a brincadeira é do asfalto, uma exibição. Uma competição. E assim como sofisticaram o carnaval, também sofistica-se a quadrilha, o bumba-boi. E o que era “BRINCADEIRA”, agora enche-se a boca de  “CULTURA”. E antes o que era um “batalhão pesado”, agora é só uma “turma”.  Turma? Você sabe, tem até nas cortes de Justiça deste País...

 * Viegas – questiona o social
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CLEMENTE VIEGAS

CLEMENTE VIEGAS

O Doutor CLEMENTE VIEGAS e advogado, jornalista, cronista e contesta o social.

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