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05/07/2021 às 00h00min - Atualizada em 05/07/2021 às 00h00min

IMGUINORAPULIS

Capítulo XIX

*Republicado a pedidos
**Publicado originalmente em 23 de dezembro de 2012

Quando Deus fecha uma porta, de imediato abre uma janela

Da prefeitura rumei direto para a pensão onde estava hospedado, recolhi-me ao meu quarto e fiquei a traçar planos para o futuro, enquanto a cabeça começava a "fervilhar" devido às preocupações normais de um desempregado. Dava uma espiada em um exemplar da revista "Espia", que o VIADINO tinha "furtado" de um caixeiro-viajante que havia passado por IMGUINORAPULIS. Ao pressentir que eu não estava nada bem, pois passei todo o dia trancado, sem sair do quarto sequer para almoçar, o rebolativo atendente da pensão foi à procura do padre SANTOBALDO, que já ao final da tarde foi me visitar e me convenceu a sair do quarto para passear um pouco. "Não há vitórias sem luta!", lembro-me bem dessas palavras do sacerdote, quando lhe falei da minha triste situação: sem dinheiro, sem trabalho, sem nada. E o padre SANTOBALDO foi ainda mais profundo quando afirmou a frase que é o título deste capítulo.

No desenrolar do amistoso bate-papo, que terminou com uma dose de aguardente SETE QUEDAS na churrascaria dos dois irmãos gêmeos japoneses, o padre SANTOBALDO me fez uma proposta irrecusável, que pelo menos temporariamente iria me proporcionar uma fonte de renda para garantir a minha sobrevivência na cidade: fundarmos juntos uma espécie de "cursinho preparatório", voltado especialmente para os adultos, como as autoridades municipais, que "não sabem fazer o O com uma quenga!", afirmou o padre, ao me apresentar a sua sugestão. Não tinha eu outra alternativa a não ser aceitar ou aceitar; desta forma, optei pela segunda hipótese: aceitei. A nossa sociedade foi criada e funcionou da seguinte forma: o padre SANTOBALDO entrou com todo o chamado "apoio logístico", ou seja, toda a estrutura para o funcionamento do curso, como a sala de aula, as carteiras, o material pedagógico, e eu simplesmente ministrava o curso, que entre tantos e tantos alunos, estava o excelentíssimo senhor prefeito municipal DOTO LADRONESIO FURTADO.

Com uma certa "pitada de orgulho", posso garantir, sem falsa modéstia, que os meus alunos passaram a conhecer muitas coisas que desconheciam, haja vista que, além da língua portuguesa, eu também dava aulas de história e geografia. Com relação à parte de matemática e de ciências, estas eram marginalizadas: uma vez ou outra é que o padre chegava até o prédio onde o curso funcionava e dava aulas dessas duas disciplinas. Com exceção do vereador DOTO MATOUZINHO, aquele mesmo que receitou "Miticoçam" para um problema intestinal, os outros alunos, inclusive o próprio prefeito municipal, sequer fizeram o Exame de Admissão, que na época permitia o aluno a ingressar no primeiro ano ginasial.

Um fato marcante que aconteceu neste período, e que ainda guardo vivo em minha memória, foi o dia em que falei para os alunos a respeito da necessidade de um "dicionário" naquela cidade, com o prefeito DOTO LADRONESIO FURTADO me fazendo mil e uma perguntas sobre a sua necessidade. Diante dos meus argumentos, o prefeito prometeu que na primeira oportunidade que tivesse iria providenciar a compra, na capital do estado, não apenas de um, mas de vários dicionários para distribuir para os seus colegas alunos do curso.

E a promessa foi cumprida! Em uma certa tarde, recebi o bilhete do senhor prefeito municipal para comparecer imediatamente ao seu gabinete de trabalho. Quando cheguei lá, encontrei quase todos os vereadores, secretários municipais e populares, que também foram convidados pelo chefe da municipalidade. Em cima de uma estante improvisada, estavam inúmeros exemplares do "Pequeno Dicionário da Língua Portuguesa", de autoria de Aurélio Buarque de Holanda. Peguei inúmeros exemplares e enquanto lia o que a capa trazia escrito, escuto do DOTO LADRONESIO FURTADO esta maravilha: - SE O PEQUENO DICIONÁRIO É DESTE TAMANHÃO, NEM IMAGINO QUAL É O TAMANHO DO GRANDE DICIONÁRIO!
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JAURO GURGEL

JAURO GURGEL

JAURO José Studart GURGEL, durante muitos anos Editor Regional de O PROGRESSO, em Araguaína (TO),

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