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26/06/2021 às 00h00min - Atualizada em 26/06/2021 às 00h00min

Noite de São João: olho pro céu, meu amor


Nesses dias de festa sem festejo, velhos amigos me fizeram uma visita. Fugindo do insano vírus, apenas queriam conversar. Não deixaram de tomar os cuidados, protegendo-se de todos esses males que estão a nos espreitar em cada esquina. Encontraram-me olhando os primeiros sinais do anoitecer. Fato incomum, pois olhava o tempo e perscrutava o céu. A noite vinha chegando de mansinho. Ver o tempo é um modo agradável de passar o tempo. Que passa, roçando-nos como a brisa que vem do mar. Ainda tenho essa mania antiga de olhar pro céu, pra ver se as estrelas brilham e piscam, como a nos convidar para ir até a elas. Isso tudo parece algum sentimento de um romantismo vulgar, ultrapassado; talvez, ou até pode ser. É a mania de bisbilhotar o infinito. Os amigos foram acomodados, com as honras de sempre. Em seguida, o ritual dos cumprimentos. Como vai? Vimos te ver. Tudo bem? Como tu estás? Vou indo. Arraiais pra todo lado, não é? Bem, acho que não. Na verdade, para os que se acautelam, há o temor do vírus pra todo lado. Ainda assim, muita festa, insistiam. E tu foste ver algum festejo? Não, não fui, e, pelo andar carruagem, não irei. Tou ficando por aqui a inspirar-me, olhando pro céu, como a música do Gonzagão. Ainda não vi nenhum balão multicor. Nem fogos. Nem fogueiras de São João. Ouço uns batuques pro rumo dali. Parece que pra lá a fogueira tá queimando. Os visitantes, incrédulos, rebatem: - Não, não tem fogueiras. É só música e dança. Forró de pé de serra, e a intromissão de uns sertanejos. E as fogueiras?, quis saber. Nada, garantiram-me. Tou aqui emperrado, mas ansioso para sentir o crepitar das fogueiras e ver o povo soltar fogos: chuveiros, pistolas, busca-pés, ou umas estrelinhas e o zoar das bombinhas de São João. Ah!, que história é essa, amigo, disseram num coro de incredulidade. São João do Carneirinho. Plantar milho todo no dia de São José. Isso é apenas baião. Gonzaga gostava dessas coisas líricas. Lindas, não?! É, tem razão, lindas. Por isso, olho pro céu, pensando nos amores jurados no passar das fogueiras, armadas no cair da tarde e acesas no comecinho da noite. Um fogaréu, de porta em porta. Os fogos queimando. As crianças repetindo as toadas de Luís Costa e Danavó. O boizinho de cofo. O maracá chocalhado com as pedras nas latas velhas e retorcidas. A toada cantada e repetida. Era noite de São João.

Olho pro céu. A fogueira precisa queimar, antes do xote começar. Todos dançando. Luiz com Yaiá. Ivo do seu Zé com Ivana da Sinhá. Claudete com Ivonete. José de Eurico com Maria de Dadá. A fogueira vai passando, e todo mundo passando a fogueira. É o compadre com a comadre. É o primo com a prima. É o namorado com a namorada. E o noivo com a noiva. A fogueira acende o pavio dessas amizades, que se estendem no infinito do tempo de amar. O brilho do fogo não se arrefece, sob o ardor da fogueira de São João. Olho pro céu. A lua passa bem devagar. Quieta, iluminando a alegria da noite de São João. As estrelas piscam sem cessar, e nos convidam pra dançar, bem juntinho, com a mão no coração. O improvisado pedaço de madeira por cima das labaredas da fogueira, como sinal de eterna união, alia-se à voz de súplica aos céus: São Pedro, São Paulo, São Felipe, São Tiago, quero que Sinhá seja minha comadre. Passa uma, passam duas, passam três vezes. De lá pra cá, daqui pra lá. Pronto, comadre. Pronto, compadre. O aperto de mão firma o compromisso de uma amizade que nem a morte consegue matar.

Olho pro céu. E caminho pelas ruas. As fogueiras queimando. As crianças pulando. O chocalho rústico da lata velha marcando o ritmo da toada dos cantadores, e repetida até a fogueira embrasar. O menino fantasiado de boi, coberto por um cofo, rasgado na frente, para que não tropece na rústica dança em volta da fogueira. Olho pro céu. E contemplo todas essas noites de São João, a trocar conversa com as visitas, que se despedem. Se possível, vão cumprir o ritual dos arraiais, instituição do mercado que quebrou o sagrado rito da solidariedade junina das portas. Fico, a olhar pro céu, e vejo que ele está lindo, como se cada estrela fosse uma fogueira de São João, num pisca-pisca ofuscante. Saio do marasmo do passado, e, tresloucado, olho pro céu, meu amor, e vejo que ele está lindo. Danço o baião, danço o forró, danço o xaxado, danço todas as canções de Gonzaga, Zé Dantas e doutor Humberto Teixeira, e danço todos os cantos de todos os Sãos Joões, que me viram correr, subir e descer a rua do meu tempo, para ver o boi de matraca e me deleitar de felicidade com aquele caboclo sacudindo o maracá e, num repente, transformar, como um menestrel, a doce toada num poema encantador, e ditar o ritmo da dança dos caboclos de pena. Olho pro céu. E, na poesia desse canto, danço com Yaiá, danço com Sinhá, e ainda danço com Raqué. São noites de São João. Por isso, olho pro céu, meu amor.

* Membro da AML e AIL
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AURELIANO NETO

AURELIANO NETO

Doutor Manoel AURELIANO Ferreira NETO é magistrado do Tribunal de Justiça do Maranhão

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