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29/05/2021 às 00h00min - Atualizada em 29/05/2021 às 00h00min

O Mundo em Frases

 
  
As frases têm um poder de construir ou de destruir. Um dos grandes frasistas que tivemos e que fez das suas frases um escudo de defesa contra quem ousasse atacá-lo, ou, como um aríete destruidor, utilizou-as para, sarcasticamente, defender-se de quem tivesse a petulância de enfrentá-lo, foi o dramaturgo Nelson Rodrigues, denominado por Ruy Castro de o anjo pornográfico. Uma dessas suas frases continua atualíssima: “A maior desgraça da democracia, é que ela traz à tona a força numérica dos idiotas, que são a maioria da humanidade.” E disse mais o autor de A vida como ela é: “Os idiotas vão tomar conta do mundo; não pela capacidade, mas pela quantidade. Eles são muitos.” Por último, vale a pena repetir esta célebre frase que ficou eterna enquanto for eterna a unanimidade: “Toda unanimidade é burra. Quem pensa com a unanimidade não precisa pensar.”

Transportemos essas frases de Nelson Rodrigues para os nossos momentos, recheados de idiotas, defensores da burrice de que a história deve ser repetida com a implantação de uma ditadura. A velha democracia veio lá da Grécia antiga e tem lamentado ter dado liberdade a esses seus figadais inimigos. Mas as frases são perfeitas para elucidar o drama que estamos a viver, pois, além de haver idiotas para todo lado, ainda se tem que suportar essas suas idiotices, que assumem o perfil de uma disfarçada unanimidade. Não tenho dúvida, nem sequer uma ínfima dúvida, de que a democracia é o melhor regime do mundo, isso desde que os gregos a inventaram, com formação aristocrática. A nossa é liberal. E tão liberal que temos que agüentar deputado, como esse do Estado do Rio de Janeiro, que fez um projeto de lei para extinguir a Universidade (UERJ), porque, segundo a sua carcomida  e deficiente Inteligência, está sofrendo influência perturbadora das ideias socialistas. O pior de tudo é que esse parlamentar, eleito democraticamente, não sabe sequer o que é socialismo. Mas deixa pra lá. Enfim, um idiota que quer que todos sejam iguais a ele.

Quem sabe que seja por essas e outras que Millôr Fernandes disse que “o Brasil tem um grande passado pela frente”.  O historiador Marcos Costa, ao comentar essa inteligente frase, afirma que “é verdade. Toda vez que encontramos o caminho que poderia nos levar a um futuro auspicioso, os malditos fantasmas do passado aparecem e colocam uma pedra enorme, quase intransponível, no meio do caminho”. Não deixa de ter razão esse historiador. Ainda não consolidamos a democracia, muito menos o respeito à Constituição Federal, emendada mais que roupa velha, e despontam em todos os nossos quadrantes, como se 1964 estivesse tão distante, esses malditos fantasmas do passado a pregarem o golpe militar. Esses idiotas não sabem ou esquecem que as intervenções militares sempre foram maléficas para este país. O Brasil só caminhou para o seu futuro com o exercício pleno da democracia e com governos comprometidos com o voto e o respeito à ordem jurídica estabelecida.

Sérgio Buarque de Holanda, o grande historiador e antropólogo brasileiro, autor do clássico Raízes do Brasil, faz esta irrespondível afirmação: “A democracia no Brasil sempre foi um lamentável mal-entendido. Uma aristocracia rural e semifeudal importou e tratou de acomodá-la aos seus direitos e privilégios (...) É curioso notar que os movimentos aparentemente reformadores no Brasil, partiram quase sempre de cima para baixo...” Hoje, não é mais a aristocracia rural paulista, que, no Império e na Velha República, fazia o que bem entendia para manter e estender os seus privilégios, tendo lutado com todo o seu poder para que o Brasil mantivesse a escravidão, quando todos os países do mundo já haviam abolido esse regime econômico desumano. Aliás, deve ser dito: a escravidão continua na sua forma dissimulada. Trabalhadores mal pagos, ou não pagos, que vivem num regime de servilismo indigente. Sérgio Buarque continua bem atual. Nossa democracia, com o tal do Sales no Ministério do Meio Ambiente e o capitão no Planalto, continua sendo um lamentável mal-entendido.

Com todos esses mal-entendidos, devemos ficar quietos no nosso cantinho? Não. A indiferença é o pior dos delitos, e nos faz integrar o rol dos idiotas. George Bernard Sahaw, famoso dramaturgo, nos lega esta lição: “O maior mal que podemos fazer aos nossos semelhantes, não é odiá-los, mas sim ser-lhes indiferentes. Esta é a mais absoluta desumanidade.” Hitler aproveitou-se dessa cruel omissão. E a historia é feita por nós mesmos, embora Hegel e Marx digam que “os homens fazem sua história sem saber que o fazem”. Lincoln fez a história, e faz parte da história, porque deu a vida pela liberdade. Este é o maior patrimônio que devemos conversá-lo, se o Brasil quiser romper com o passado e inventar o futuro.
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AURELIANO NETO

AURELIANO NETO

Doutor Manoel AURELIANO Ferreira NETO é magistrado do Tribunal de Justiça do Maranhão

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