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22/05/2021 às 00h00min - Atualizada em 22/05/2021 às 00h00min

Alcione, no Botequim da Teresa

 
 

 O bate-papo entre Teresa Cristina e a nossa grande sambista Alcione começa assim, nas palavras de Teresa: “Não tem uma mulher no Brasil que não conheça sua voz. Abençoada, um timbre diferente, a voz da mulher brasileira. Há muito tempo você já cantava sobre relações e abusos contra as mulheres.” Daí em diante o papo vai longe, e vários assuntos são comentados, entremeados por risos e pela voz e o canto da sambista maranhense. Nessa rica e agradável conversa de botequim, que trata de música e outras coisas mais, mas em especial o samba, vem a público que Alcione tem um bar com o seu nome, onde as comidas maranhenses são o ponto chique do sabor e da atração. Assim, logo, logo, acabada essa tragédia de epidemia, e isso se capitão deixar e sair do desgoverno que a pátria amada se encontra, estarei no Rio, para visitar e curtir as goluseimas do bar da nossa grande artista do samba.

Antes de mais nada, numa das vezes que estive no Rio, e o Canecão estava em plena atividade, Alcione se apresentava num dos dias da semana, fazendo um show para angariar recursos para os carentes das chuvas do Maranhão. Independentemente da finalidade benemérita, fui a essa apresentação da Marrom, com a casa cheia, mesmo com a um grande público, consegui uma mesa bem próxima do palco, para sentir todo o enlevo da arte do samba. Não tinha lido o programa. Foi um espetáculo digno dessa sambista maranhense, que bem jovem a conheci, nos seus primeiros passos, quando se apresentava no programa da Rádio Difusora, o Domingo é Nosso, de Lima Jr. Saltava do bonde na parada da Farmácia Central e descia pela Avenida Magalhães de Almeida, para ter acesso ao auditório onde o programa dominicalmente era apresentado, cujo ídolo era Roberto Müller, o Pingo de Ouro do Rádio Maranhense, assim chamado efusivamente por Lima Jr. Além de Roberto Müller, Orlandira Matos, uma das grandes cantoras do rádio maranhense, que posteriormente veio a ganhar o primeiro lugar no célebre programa a Grande Chance, de Flávio Cavalcanti, na TV Tupi. Havia outras atrações, como a Dupla Ponto e Vírgula e Escurinho do Samba.

Faço esse registro, mas tenho as minhas dúvidas, até porque não se tem uma história do rádio maranhense, que possa relatar a sua época de ouro, antes do advento da televisão, quando esta mídia, aos poucos, por sua força comunicativa, caracterizada pela imagem, foi eliminando os programas de auditório, comandados por comunicadores como Lima Jr., Almir Silva, Caveirinha (desculpe fazer referência ao apelido, pois o seu nome me foge neste momento), o qual teve destaque em excelentes programas de calouro na Rádio Gurupi e Ribamar.
Alcione, originário de uma família musical, com um canto maravilhoso, despontou para o sucesso. No show do Canecão, Alcione se fez acompanhar de outras estrelas da música brasileira. Emílio Santiago, que também se projetou para o sucesso ao participar de a Grande Chance e ganhar o primeiro lugar, Nana Caymmi e Martinália. Um espetáculo musical, com muito samba, sob o comando da Marrom, que agradou a todos.

De Alcione tenho vários discos (vinis) e cd’s. Um deles, do qual gosto muitíssimo, faz-me companhia por longo tempo: Nos Bares da Vida, em que canta canções imortais, como Este seu Olhar, Nossos Momentos (de Haroldo Barbosa e do maranhense Luiz Reis), na qual se destacam esses belíssimos versos: “Eu escrevi na fria areia um nome para amar / O mar chefou, tudo apagou / Palavras levam o mar (...) Teu castelo de carinhos / Eu nem pude terminar / Momentos meus, que foram teus... / Agora é recordar.” E a nossa Marrom não deixa o samba (canção) cair, impondo ao ritmo e à melodia a sua poética voz. Enternecedora mesmo. Nesse cd, Alcione expressa todos os sentimentos da música brasileira: A Noite de Meu Bem, Tudo Acabado, Amendoim Torradinho, sem esquecer A Flor e o Espinho, dos imortais Nelson Cavaquinho e Guilherme de Brito.

Além de Nos Bares da Vida, esta seleta obra-prima de clássicos, que mostra que a voz de Alcione não é apenas para os sambões, essa maranhense ainda nos brindou com o cd Boleros, que me obrigou a me aproveitar do seu talento e dar de presente a alguns amigos.

Teresa Cristina e Alcione, um belo encontro, onde foi lembrado o também inesquecível Cartola, para mim e muitos um dos imortais da música brasileira. Da sua autoria são clássicos, entre tantos produzidos por esse mangueirense, As Rosas não Falam, de uma poesia eterna, O Sol Nascerá, Alvorada, Tive Sim e muitos outros. Ainda bem que tudo passará – falo dessas musiquinhas que andam por aí azucrinando os nosso tímpanos -, mas Cartola não passará. É pura arte. Os seus versos o dizem: “Queixo-me às rosas / Que bobagem as coisas não falam / Simplesmente as rosas exalam / O perfume que roubam de ti.” Pronto. Da poeticidade da canção e do poema, nasce a eternidade da arte, consagrada na voz dessa maranhense, Alcione. Que essa artista  da terra do caruru  e do dadinho continue eternamente, mostrando o seu carinho por Cartola, Mangeira e o pai, músico, que lhe deu a primeira oportunidade de transformar um baile em show.
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AURELIANO NETO

AURELIANO NETO

Doutor Manoel AURELIANO Ferreira NETO é magistrado do Tribunal de Justiça do Maranhão

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