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05/05/2021 às 00h00min - Atualizada em 05/05/2021 às 00h00min

Coluna do Lima Rodrigues

 

Chico das Cortinas: um maranhense que foi vendedor
de carvão a chegou a ser prefeito de Parauapebas

Parauapebas, a Capital no Minério, localizada no sudeste do Pará, comemora dia 10 de maio 33 anos de emancipação política e administrativa. Após um amplo movimento de pioneiros, o distrito foi desmembrado de Marabá em 1988. E seu segundo prefeito eleito pelo povo foi um maranhense, Chico das Cortinas. (O primeiro prefeito eleito foi o médico paulista Faisal Salmen). 
Por isso, nossa homenagem a este ex-vendedor de carvão, que fez e faz história na cidade paraense.

Chapadinha

Francisco Alves de Souza, o Chico das Cortinas, 69 anos, nasceu na zona rural de Chapadinha (MA). É filho de Raimundo dos Santos e de Catarina Alves de Souza. O pai dele, que era lavrador, morreu quando ele tinha apenas um ano e oito meses de vida. A mãe morreu há mais de quarenta anos. Uma família numerosa. Dos sete irmãos, Antônia, José Alves, Herculano e Otaviano já morreram. Domingos, Bernardino e Antônio moram em Parauapebas (PA) e Manoel reside em Chapadinha. É pai de sete filhos e tem onze netos. 

Seis anos

Com apenas seis anos de idade o menino Chico começou a trabalhar no sítio da família. Depois, foi para Chapadinha estudar. Fez o ensino fundamental e o ensino médio. Aos 13 anos, foi morar com a família do agricultor Mundico Marques, que era amigo de sua família, e comprava e revendia babaçu. O garoto cuidava da tropeada e ajudava fazendo compras, indo buscar carne na cidade, entre outras tarefas. Em seguida foi morar com outra família (ele não lembra o nome do responsável desta família) no povoado Brejo Anapurus, ainda no Maranhão, que trabalhava com engenho de cana. Ele ajudava na produção de rapadura, mas também pegava no pesado no canavial e tocando os bois do engenho. Com 15 para 16 anos foi trabalhar no comércio do empresário Pedro Julião, que era dono de um bar, vendia geladeira, fogão e gás de cozinha. Ficou três anos neste emprego e depois passou a comprar abacate e tomate em São Luís, a bela capital do Maranhão, e revender em Chapadinha. “Vendia tudo. Só era ruim quando chovia muito porque eu perdia muito abacate”, revela. Ainda jovem foi para a cidade de Bom Jardim, também no Maranhão, trabalhar com o senhor “Otaviano Águas Boas” e posteriormente trabalhou como ajudante do pedreiro Pedro Feitosa. “Trabalhei na roça também na juventude. Eu pegava empreitada para campinar terrenos, chácaras e fazendas e gostava do que fazia”, destaca. 

Vendedor de carvão

Tempos depois, Chico resolveu fabricar e vender carvão no distrito de Chapéu de Couro, hoje pertencente ao município de Governador Newton Belo (MA). (O maranhense de São Bento, Newton de Barros Belo, que nasceu em 1907 e morreu em 1976, foi advogado, promotor público e político brasileiro. Ele governou o Maranhão de 31 de janeiro de 1961 a 31 de janeiro de 1966).
Certo o dia o preço do carvão caiu bastante e Chico teve um enorme prejuízo, mas não desistiu de lutar na vida. Vendeu imóveis e conseguiu honrar os compromissos com os funcionários e credores. Com 19 anos foi trabalhar como vendedor de perfumes, cosméticos, elástico, agulhas, entre outros produtos, em Zé Doca (MA).

Chico, o retratista

Um belo dia decidiu largar a vida de vendedor e passou a atuar como fotógrafo em Chapadinha, ou melhor, retratista, como eram conhecidos estes profissionais antigamente. Ele montou o Foto Alves na Praça Coronel Luiz Vieira e passou a ser conhecido como Chico Retratista. “Tirava fotos, colocava nos monóculos e vendia para o povo e todo mundo gostava de guardar uma lembrança. O negócio cresceu, fazia fotos em casamentos e aniversários e já estava casado com a costureira Adi Marilda Batista de Souza e muito feliz da vida e abençoado por Deus”, disse ele, destacando que o casal tem sete filhos: Marney, Pollyanna Nábya, Mardysson, Mardonyo, Marjonny, Polanny Nábya e Marlysson.

Usina Hidrelétrica de Tucuruí

No início da década de 1980 a construção da barragem de Tucuruí no Pará chamava a atenção de gente de todo o país. (A Usina Hidrelétrica de Tucuruí começou a ser construída em 1976 e foi inaugurada em 1984). 
Chico chamou o cunhado João Batista e os dois viajaram no fusca dele até Tucuruí. Gostou de cara da cidade, com muitos funcionários de empresas chegando a cada dia, e resolveu comprar trinta apartamentos para alugar. Alugava tudo rapidinho. A mulher e os filhos tempos depois deixaram o Maranhão e foram também para Tucuruí. Além dos imóveis, Chico vendia pé de geladeira, pé de fogão, e tela para colorir a imagem da TV, já que muita gente ainda tinha televisão em preto e branco.

Cortinas

Um belo dia o inquieto Chico estava na casa de um amigo em Tucuruí e ele perguntou:
- Chico, por que você não vende cortinas? É um bom negócio.
Coincidentemente, como se fosse mensagem de Deus para o evangélico Chico, passou na televisão da casa do amigo a propaganda da Tapeçaria Chic, de São Paulo. “Naquele momento tive uma ideia. Comprei uma passagem de avião fui até São Paulo e comprei sete cortinas na Tapeçaria Chic e quando cheguei de volta a Tucuruí, vendi todas no mesmo dia. A partir daí passei a comprar os tecidos em Belém e Fortaleza, minha esposa, que é costureira, preparava e eu vendia as cortinas em Tucuruí, Marabá e até em Altamira, também no Pará.  O negócio ia tão bom que em 1984 resolvi abrir uma filial em Marabá. De Chico Retratista passei a ser conhecido por Chico das Cortinas. O prefeito de Marabá era o Haroldo Bezerra e me deu muito apoio, e pouco tempo depois acabei me filiando ao antigo PMDB por causa dele”, disse o empresário.

Emancipação política

Mesmo com as estradas em péssimas condições ainda em 1984, sem asfalto e muito buraco ou lama em período de chuva, Chico decidiu vender cortinas no povoado de Parauapebas e no Núcleo de Carajás para os funcionários da então Vale do Rio Doce e empresas terceirizadas. E em 1986 resolveu se mudar para Parauapebas, onde fez amizade com o xará Chico Brito, e montou a loja de cortinas.  A família dele veio de Marabá em 1987. “Eu, o Chico Brito, o Zé da Papelaria, o Márcio Delferth, o Waldir Flausino, o Faisal Salmen e tantos outros amigos começamos a criar um movimento pela emancipação de Parauapebas, que era distrito de Marabá”, destacou Chico das Cortinas, lembrando que desde quando morava em Chapadinha e era bastante conhecido por causa do Foto Alves, já recebia convites para entrar na política e a se candidatar a algum cargo eletivo, mas nunca aceitou. “Várias vezes o pastor da minha igreja disse para eu me candidatar e eu sempre respondia que não dava para isso não”, revela.

Vitória

O grupo lutou e conseguiu a emancipação política de Parauapebas em 10 de maio de 1988 e na eleição municipal daquele mesmo ano, o PMDB lançou Chico das Cortinas como candidato a prefeito do município. “Não venci a eleição, mas sempre fui muito ético. Não vejo a política como corrupção. Vejo como serviço em favor do povo, já que o dinheiro é do povo”, ressalta.
Na eleição seguinte, em 1992, se candidatou mais uma vez a prefeito de Parauapebas e ganhou a eleição para o período de 1993 a 1996 e fala com entusiasmo sobre sua administração. “Implantei o Serviço Autônomo de Água e Esgoto de Parauapebas, o Saaep, com investimento de 14,5 milhões de dólares, com financiamento do Banco Mundial em parceria com a Mineradora Vale, incluindo quatro estações de esgoto da cidade, produzindo 3 milhões de litros de água e 300 mil litros por segundos. Nossa prioridade nesse governo foi educação, saúde e emprego. Quem conhece a minha história sabe que cumpro o que digo. O mais importante para nós é o comprometimento com o nosso povo”, disse Chico das Cortinas.

Mortalidade infantil

“Esse sistema d`água contribuiu para reduzir o índice de mortalidade infantil, que caiu de 35 para 18% no caso de mortes provocadas por verminoses”, afirmou Chico. Ele destaca ainda que construiu 40km de asfalto nos bairros Rio Verde e Cidade Nova e no Da Paz, que estava começando a surgir na cidade.

Ipês

Lembra com orgulho que na sua administração foram plantados os pés de ipês que estão ao longo da PA 275, cortando a cidade. Lembra também que doou terrenos para famílias morarem nos bairros Liberdade, Altamira e Novo Brasil; construiu pontes, e criou o Centro de Educação da Criança e do Adolescente (Cecap), que tempos depois passou a se chamar Projeto Pipa. Destaca que criou ainda o Projeto Sorrir, a APAE, o Procon, o Conselho Tutelar e a Casa do Idoso e inaugurou a Praça dos Metais “representando todos os minérios produzidos no nosso município: ouro, bauxita, manganês, etc, além de investimentos nas áreas da infraestrutura, educação e saúde”, frisou.

Parauapebas

Chico das Cortinas afirmou que tem um amor muito grande por Parauapebas, cidade que viu nascer e “deu inspiração para muita gente por ser um local rico e muito importante na geração de emprego e renda”.

Família

O ex-prefeito é um apaixonado pela a esposa Adi Marilda há mais de 45 anos. Disse que passou um sufoco muito grande e um momento de profunda tristeza quando ela foi atropelada por um caminhão e quase morre, tendo que fazer várias cirurgias nas pernas. “E o momento de alegria foi quando ela sobreviveu do acidente e se recuperou depois, graças a Deus”.

Homem realizado

Sentindo-se um homem realizado em tudo na vida, Chico das Cortinas diz que valeu à pena ser pioneiro de Parauapebas e ressalta que “todos os prefeitos devem trabalhar firme em prol do povo, sem corrupção e com ética, porque o dinheiro é do povo e o povo é que é o dono da cidade”.
Homem simples, ético e temente a Deus, Chico das Cortinas contribuiu para o desenvolvimento de Parauapebas e por isso é o nosso homenageado no Projeto Homenagem em O Progresso e na série “Histórias dos Pioneiros de Parauapebas”, que estou publicando durante o mês de maio no site www.pebinhadeacucar.com.br.
 
Fique em casa. Se sair, use máscara. Vacina Sim.
 
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