MENU

24/04/2021 às 00h00min - Atualizada em 24/04/2021 às 00h00min

A SAGA DE NATORO

   
(série: personagens – vida real-I)

Esse nome NATORO me incomoda, me intriga e não é de agora! Faz tempo que lá pras bandas da minha banda, eu ouvia esse nome: NATÓRO. E não me conformava. E conjecturava:  Será Anatole? Será Anatório? Será Natório? E de “será em será”, nunca encontrei a resposta pretendida. Só agora, a propósito deste, vejo nas opções junto ao Google (o novo pai dos burros)  que o nome ANATÓLIO tem procedência entre os cristãos. Mas... enfim... NATORO.

Não me lembro de já ter visto esse homem, mas tenho notícias de que ele morava pras bandas daquelas bandas do meu lugar. Nem tanto que fosse longe mas porque, só o esticado das veredas, caminhos sombrios, casas distantes umas das outras, sem uma bicicleta, sem um telefone, sem um celular, sem redes sociais e sem mais nada, qualquer distância era distante. E daí que enfim, NATORO “morava pras bandas da beira do campo”, que era o dizer daquela gente quando se referia a um lugar indefinido e distante: “pras bandas da beira do campo” – que era pra lá que NATÓRO morava. Era como eu imaginava.

Não conheci, nem me lembro se já vi esse NATÓRO, mas dele, ao que ouvia, não tinha boa impressão. Pelo contrário: eu já ficava “arrupiado”. Diziam que ele,  morador da beira do campo, “virava carão”  nas noites e aterrorizava as pessoas, caminheiras daqueles caminhos estreitos e sombrios.Andaram dizendo também que ele “virava curacanga”.  Ave Maria Cruz credo! Credo em Cruz, Ave Maria! Era o esconjuro...

Não sei porque mas eu imaginava que ele fosse também uma espécie de “encantador de mulheres”, pois que essas pessoas portadoras de “fados” diabólicos, dizem, tem lá essa tendência. Certo porém é que diziam queNATORO, tinha diversas mulheres e que fechando esse ditério, ainda  diziam que ele “costumava ter uma mulher aonde chegava”. De outro lado eu tinha informações de que NATORO era trabalhador de casa de engenho (engenho de açúcar bruto) e cachaça. E, nessa peleja era um “fino cachaceiro”. Mas o que dele eu ouvia dizer era “só por dizer”.

Tinha breves noticias desse sujeito e era só isso. Até que um dia, até que dia conheci uma figura de mediana idade – Letra M – que me prestou alguns serviços auxiliares, com absoluta presteza e eficiência. Tornamo-nos brevemente aproximados. Acabei sabendo para espanto meu queLetra-M, era filha de NATORO. Então, pelas beiradas, perguntei à Letra M como era o seu  pai? Me disse que era uma pessoa carinhosa, legal, conversava com os filhos, carregava-os, aconselhava-os, até. Bem ali o meu imaginário sobre esse NATORO mudou de rumo, melhorou.

Até que um dia... até que um dia, bato de frente com Balbino de Virissode Norato. (O nome certo é Veríssimo de Honorato), mas a língua daquela gente só dá conta de dizer VIRISSO DE NORATO. E então, eu, farinha daquele saco, não mudo nem o rito, nem o tom e pronuncio fartamente: VIRISSO DE NORATO, tal como se dizia!

Pois bem: conversando com Balbino de Virisso de Norato, provoquei uma abertura com o nome de NATÓRO. E, como um sonso,  perguntei: Quem era?  Balbino fez uma breve pausa e sentenciou: Ah esse era especial! Como assim Balbino?, perguntei. – Sabia ler e escrever, tinha letra bonita, rezava via sacra pela cartilha. Era Presidente de Mesa Eleitoral. E até participava das Apurações Eleitorais. Eo que mais Balbino?: - Ele trabalhava em casa de engenho de cana, era “lambicador”, o maior salário do engenho, um operário especial. E concluiu:  “Lambicador não era para qualquer um...”

Mas... Balbino, diziam que NATORO virava bicho e brigava com ZéBicudo, este também virado bicho, provoquei. Balbino foi um tanto solene, parece que não queria adentrar nesse “diz-que”, mas acabou confirmando que “o povo dizia” queNATORO  virava bicho, mas não tinha  conhecimento se brigava com Zé Bicudo, até porque ambos tinham “fados” diferentes. Disse. E concluiu: “Natóro virava carão (ave do campo de hábitos noturnos), voava por cima, sendo que Zé Bicudo virava porco, andavapor baixo.Disse.

Aqui, o dever de explicar que, nas antigas Casas de Engenho, no sertão, (de rotina escravagista) haviam os ALAMBIQUES, um equipamento (maquinário) rude, antiquado, movido a fogo-baixo que destinava-se ao fabrico da cachaça pelo processo da destilação. O profissional graduado que ocupava-se com o alambique era o “alambicador” ou... LAMBICADOR, no dizer de Balbino de Virisso de Norato, função de NATORO, no engenho de Doca de Placídio – um engenho que tantas vezes passei por lá e tinha vontade conhece-lo mas nunca-nunca (até hoje), tive tal oportunidade.
Link
CLEMENTE VIEGAS

CLEMENTE VIEGAS

O Doutor CLEMENTE VIEGAS e advogado, jornalista, cronista e contesta o social.

Tags »
Relacionadas »
Comentários »
Loading...