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24/05/2021 às 00h00min - Atualizada em 24/05/2021 às 00h00min

IMGUINORAPULIS

Capítulo VII

Um bilhete que mudou tudo

Voltamos rapidamente para a pensão, e lá chegando fomos recebidos pelo rebolativo VIADINO, que nos entregou um papel um tanto quanto amarelado, dobrado em quatro partes, parecendo ser uma correspondência, no entanto sem ter o nome a quem a mesma era dirigida. VIADINO nos explicou que aquele papel foi deixado na portaria para ser entregue aos novos hóspedes da pensão. Ficamos surpresos com tal recebimento, afinal não conhecíamos ninguém naquela cidade e tampouco éramos conhecidos. Entramos no quarto e ficamos a discutir quem abriria aquela correspondência, e de comum acordo decidimos que o ZÉ seria o "abridor" e eu o "leitor". E assim foi feito.

Aberto o bilhete, lá estava escrito, com palavras cheias de erros: PRESSIZO CUMVESSA CUM VOISMECEIS AMAIAN NA PREIFEITURA. ACINADU: DOTO LADRONESIO FURTADO. "Será que o homem desconfiou que estávamos gozando dele na hora do discurso e agora quer uma explicação nossa?", perguntou-me o ZÉ ao ouvir a leitura do bilhete. O silêncio foi a minha resposta. Afinal, não sabia eu como responder a tal pergunta, haja vista também estar surpreso com aquele recebimento. Muito embora eu reconhecesse que o teor da correspondência nada tinha de agressivo, muito pelo contrário, era amistoso e cordial, eu também sentia um pouquinho de medo, por sinal mais que natural, devido a nossa provocação à autoridade máxima municipal. Mas como sempre dizia a minha defunta avó, "nada como dar tempo ao tempo". Nada nos restava senão esperar. "Vamos deixar como está para ver como é que fica", disse para o ZÉ, que estava já quase tremendo de tanto medo.

Deitamos na velha cama e fechamos os olhos para ver a noite passar, mas provavelmente devido à fome, já que o pedaço de rapadura não fora o suficiente para acabar com a "roncadeira do estômago"; ou talvez devido ao cansaço da longa jornada, pois tínhamos viajado o dia todo; ou ainda devido à curiosidade sobre o porquê daquele bilhete recebido, imediatamente adormecemos. E na manhã seguinte acordei bem mais cedo do que o costumeiro, graças ao canto de um galo, que transformara em poleiro a parte superior do nosso quarto, e aos constantes gemidos de dor por parte do companheiro ZÉ, que estava acometido de uma terrível e violenta cólica intestinal.


*Republicado a pedidos
**Publicado originalmente em 7 de outubro de 2012

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JAURO GURGEL

JAURO GURGEL

JAURO José Studart GURGEL, durante muitos anos Editor Regional de O PROGRESSO, em Araguaína (TO),

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