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10/05/2021 às 00h00min - Atualizada em 10/05/2021 às 00h00min

IMGUINORAPULIS

Capítulo III


Pensão 5 estrelas

VIADINO nos levou até um quarto localizado nos fundos da casa, dizendo ser aquela uma acomodação para gente muito especial. "É uma verdadeira suíte!", repetiu duas ou três vezes, com aquela vozinha característica e inconfundível. Ao penetrarmos no recinto, um quartinho que não tinha sequer 9m², coberto por velhas e quebradas telhas, por onde passavam alguns raios do astro-rei, que já se despedia no poente, ficamos ainda mais surpresos com a receptividade: fomos recebidos por uma afinadíssima orquestra de grilos, que tocavam uma linda sonata, capaz de causar inveja a Chopin, Mozart, Beethoven e alguns outros monstros sagrados da música clássica e erudita.

A tal suíte era decorada com uma mesinha de madeira, sobre a qual encontramos uma lamparina de lata enferrujada (para no caso do motor de luz da cidade não funcionar, explicou VIADINO), uma moringa com água barrenta e quente, um copo de plástico azul bastante encardido e dois tamboretes. Isso era tudo, para não citar a cama, móvel indispensável em qualquer suíte que se preze.

Encostamos um dos tamboretes na insegura porta de madeira, que além do péssimo estado de conservação, não dispunha de ferrolho ou fechadura. Deitamos na única cama existente e, ouvindo aquela sinfonia de grilos e observando o Cruzeiro do Sul, cujo brilho passava pelos buracos existentes no teto (daí o porquê da pensão ser considerada 5 estrelas), de imediato adormecemos. Não sei se a causa do "adormecimento imediato" foi o cansaço da viagem ou as doses de SETE QUEDAS consumidas, mas o que importa é que caímos no sono.

Mas, quando menos esperávamos, alguns tiros nos tiraram dos braços do MORFEU. De cueca samba-canção, haja vista não ser adepto dessas cuequinhas modernas, o meu amigo ZÉ saiu correndo em direção à porta principal para se cientificar do que estava acontecendo, enquanto eu procurava me livrar de um maldito mosquito, que confundira o meu ouvido com o seu lar doce lar.

Com muito mais intensidade, o tiroteio continuava, fazendo-me recordar o meu saudoso tempo de criança, quando assistia no "Cine Recreio", da minha cidade natal, Acaraú, aos filmes de "far-west", estrelados por Durango Kid, Buck Jones, Zorro, Hopalong Cassidy e muitos outros ídolos da minha época. Parecia até que a pacata cidade havia se transformado, como em um passe de mágica, numa praça de guerra.

Bem mais calmo do que quando saiu, o ZÉ voltou ao quarto. Ao me ver deitado na cama, tremendo de medo e coberto da cabeça aos pés por um lençol, que mais parecia um pano de limpar o chão, foi logo dizendo: "Não são tiros, mas sim foguetes!". Não quis acreditar, pois o medo que me dominava era tanto que fazia com que eu imaginasse uma infinidade de cadáveres estendidos no chão, totalmente vermelho.

"Sim! São foguetes!", garantiu o companheiro ZÉ, acrescentando que naquele momento seria inaugurada a INSCOLA MUNISSIPAU E. REI. "Eu já vou para lá, pois não quero perder a oportunidade de me divertir de graça!", afirmou, enquanto se aprontava para sair.

Já bem mais tranquilo, esqueci o mosquito que ainda me incomodava e, tal qual um felino, pulei da cama para também aprontar-me, mas um outro fato negativo me aconteceu, um terrível e humilhante acidente: meti o pé esquerdo dentro de um vaso côncavo, conhecido popularmente como "pinico", que se encontrava ao lado da cama, e o que foi muito pior: já com algum conteúdo. Fui socorrido pelo VIADINO, que - prestativo como ele só - de imediato me trouxe água para que eu lavasse os pés, que estavam com um odor insuportável.

Bati a poeira da roupa que usava ao chegar - era a única que eu possuía na ocasião, que se encontrava dobrada em cima de um dos tamboretes -, vesti a calça e a camisa, calcei as meias e os sapatos e me dirigi até a porta, onde o ZÉ já me esperava para juntos seguirmos rumo ao local da solenidade, caminhando a pé, já que tínhamos decidido deixar o fusquinha estacionado na frente da pensão.


*Republicado a pedidos
**Publicado originalmente em 9 de setembro de 2012

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JAURO GURGEL

JAURO GURGEL

JAURO José Studart GURGEL, durante muitos anos Editor Regional de O PROGRESSO, em Araguaína (TO),

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