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02/04/2021 às 00h00min - Atualizada em 02/04/2021 às 00h00min

Brasil: A Verdade Nua e Crua


  

Contam uma interessante e didática parábola sobre a verdade e a mentira, traduzindo, em si, uma lição moral para as pessoas que tem uma constante preocupação existencial de pautar sua conduta de acordo com os exigentes ditames morais. Transcrevo a parábola, de autor anônimo:

“No final do século XIX, no ano de 1896, foi contada uma parábola judaica referente à verdade e mentira. Desde então a expressão a VERDADE NUA E CRUA nasceu de acordo com esta parábola: “Em um belo dia a VERDADE e a MENTIRA se encontraram, assim disse a MENTIRA  para a VERDADE:

— Hoje está um dia lindo e maravilhoso. Não está?

A VERDADE deu um suspiro e olhou para o céu e teve de concordar, pois o dia estava realmente maravilhoso. Com isto, começaram a passear e caminhar juntas por um bom tempo até que elas chegaram perto de um belo poço de água.
A MENTIRA experimentou a água e disse para a VERDADE:

— A água está ótima, que tal tomarmos um banho.

A VERDADE ficou um pouco desconfiada, mas resolveu testar a água e descobriu que realmente a água estava muita, mas muita convidativa, desta forma, elas se despiram e começaram a tomar um belo banho. De repente, sorrateiramente, a MENTIRA saiu da água, vestiu as roupas da VERDADE e saiu correndo.

A VERDADE quando percebeu, saiu do poço furiosa e correu tentando encontrar a MENTIRA para pegar as suas roupas de volta. E assim saiu nua correndo pelas ruas, e a VERDADE ia abrindo caminho entre as pessoas que desviavam com olhares de desprezo, raiva e com vergonha.

A pobre VERDADE, depois de muito correr e procurar em vão as suas roupas, voltou para o poço, nua e recusou-se a vestir-se com a roupa da MENTIRA, sendo assim, por não envergonhar-se a VERDADE saiu nua a caminhar pelas ruas e vilas e, é por isto que, desde então, aos olhos de muita gente é muito mais fácil aceitar a MENTIRA vestida com as roupas da VERDADE, do que aceitar, simplesmente, a VERDADE que está totalmente NUA E CRUA.

MORAL DA HISTÓRIA

Desde que a VERDADE saiu do poço e andou nua aos olhos das pessoas, ficou mais fácil aceitar a MENTIRA com as roupas da VERDADE, do que aceitar a VERDADE NUA E CRUA.”

Lembrei-me dessa parábola, na noite desta terça-feira, dia 23 de março, após ouvir, um tanto envergonhado e com um esgar de riso contido, o pronunciamento do capitão do Planalto, que recebeu, pelo voto popular, o titulo magno de presidente da República do Brasil, quando o “equivocado” presidente da república dos dois ministros da saúde (agora só um, que não se sabe se é, ou se será ou não será, já que o próprio declarou que é apenas um executou de ordem das políticas governamentais) fez várias afirmações hilariantes, como: ?“Em nenhum momento o governo deixou de tomar medidas importantes tanto para combater o coronavírus quanto para combater o caos na economia, que poderia gerar desemprego e fome.” “Somos incansáveis na luta contra o coronavírus. Essa é a missão e vamos cumpri-la.” E outras sandices que não condizem com a verdade nua e crua.

Duas manifestações são mais que suficientes para demonstrar, de forma inequívoca, que o capitão do Planalto apropriou-se indevidamente da roupa da verdade para deturpar os fatos, até porque é notório o seu negacionismo quanto ao vírus e os efeitos catastróficos da pandemia, bem como a sua absoluta inércia. O primeiro posicionamento crítico é do jurista Luís Francisco Carvalho Filho, na sua coluna na Folha de SP, de 20/3/2021, ao escrever o texto O Duplo. Primeiramente, afirma: “A existência temporária de dois ministros da Saúde é um capítulo cômico da tragédia humanitária.” E no final: “Nunca um governante do Brasil foi tão acintosamente imoral, ridículo e perigoso.” O segundo posicionamento é do infectologista, professor sênior Marcos Boulo: “A gente brinca de Deus. Esse aqui tem alguma chance, vamos colocar na UTI; esse não tem, deixa fora da UTI.” Trágico, não? Ainda assim, a mentira, espertamente, como é seu perfil, vestida com a roupar da verdade, sai por aí propalando suas versões enganadoras e muitos, por serem incautos ou por força da ignorância, preferem a comodidade da crença, embora as assertivas sejam absurdas. E a verdade, vilipendiada, corre pelo Brasil, nua e crua, batendo às portas fechadas da ignorância e dos bajuladores da mentira. 
* Membro da AML e AIL
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AURELIANO NETO

AURELIANO NETO

Doutor Manoel AURELIANO Ferreira NETO é magistrado do Tribunal de Justiça do Maranhão

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