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02/04/2021 às 00h00min - Atualizada em 02/04/2021 às 00h00min

Ilhas Duas Irmãs


 
Este texto foi criado (na base) para a crônica PÁGINA DE SAUDADE (Programa Clube da Saudade, Mirante/AM, São Luís, domingos, oito da manhã.Todavia recriado e adaptado para estes... CAMINHOS POR ONDE ANDEI

Ainda era madrugada. Em casa alheia, na vila, a gente se “arrumava” e ia para o porto, para viajar na lancha. O destino era São Luís. Um destino finito e infinito que a todos nós “viageiros”, despertava nosso interesse, a  movimentação geral. Aliás que Roberto, na canção Fera Ferida, ele diz: “Animal arisco, domesticado esquece o risco”. Era a gente que nem pensava naquela distância, nem nos solavancos do perigoso Boqueirão em mar aberto, onde a certa altura só veríamos o céu e o mar. E a nossa embarcação, soqueada em altos e baixos!  Na minha bagagem pessoal eu levava um cofo de farinha e alguns ovos (na ida). E a minha inseparável e surrada maleta  com poucas roupas e outros pertences. Era só isso!
Era por volta das cinco horas, o dia aos poucos amanhecia. Agora estamos no Porto. Porto Grande. Ali mesmo uma “porção” de gente, com o mesmo destino – a capital. E, cada qual na sua empreitada  sua condição social e econômica, a sua finalidade. E... a sua bagagem.  No Porto Grande, um falatório danado porém SEU DAMA e BENTO DO PORTO, ao que ouso lembrar, entre outros, davam as cartas, pois eles como outros canoeiros conduziam as pessoas em suas canoas ou “cascos”, até à lancha que ficava a uma considerável distância, no lugar chamado “CURRAL”.

A primeira etapa da viagem, entre o Porto (Porto Grande) e a lancha no CURRAL, tinha seus vieses. No inverno, até que na beira do cais, o nível da água, permitia melhor deslocamento das canoas ou cascos, porém, no VERÃO, aí era um sofrimento! Os cascos, dois a dois, eram  içados um ao outro e os canoeiros, a princípio punham-se a empurrá-los com potentes varas sobre  um quase lamaçal e só mais adiante tais canoas podiam navegar impulsionadas a remo. Era, enfim, um serviço de puro braço. Enquanto muriçocas e maruins faziam a festa! Mas ainda assim o “converseiro” das pessoas era inevitável. Era bem aí que o meu pai recitava o seu cordel!

No CURRAL, quando alcançávamos a lancha fundeada era outra maratona: Não havia cais (como nunca houve) nem qualquer outro apoio para o baldeio (embarque) dos passageiros, o carregamento e organização das bagagens e mercadorias ao lastro. Ao entremeio dessa etapa compunha-se a maré. Até que a lancha zarpava lá pelas oito ou mais do dia. E toca viagem. Tudo rudimentar. No descampado a céu aberto, com ênfase em determinados períodos do ano – agosto, setembro, outubro -  havia uma latente preocupação com o Boqueirão, tais os solavancos, os riscos e perigos a que se submetiam passageiros e embarcação, além da preocupação com o inimigo invisível da época: O TUBARÃO, que era personagem das lendas e do terror nas viagens embarcadiças.

E quando lá longe na distância, já avistando o esbranquiçado-nevoento da capital, mas ainda assim em “mar aberto”, passávamos, já num “converseiro” mais aliviado, ali bem perto das ILHAS DUAS IRMÃS, duas pequenas e verdadeiras montanhas rochosas, simétricas, avermelhadas, uma ao lado da outra, dentro do mar, como numa arquitetura da natureza! E lá em cima uma vegetação. Afinal a gente aprendeu no modesto manual de geografia, no primário, que “ilha – é uma porção de terras, cercada de água por todos os lados”. Nessa viagem, avistava-se o Itaqui e seus navios e a Ilha do Medo. A Ilha do Medo me dava medo. Contavam lendas que mexiam com o meu imaginário.

Tantas  vezes quando eu passava por ali, 15, 17, 18 anos, próximo daquelas duas ilhas, como num corpo-a-corpo - tão perto que era -  eu me perguntava sobre os encantos da natureza e do mar, como se quisesse penetrar nos insondáveis segredos  da CRIAÇÃO. E eu concentrado em meus pensamentos, a mim me perdia  como se “em transe”, num questionário transcendental. E viajava disperso, envolto em uma crise existencial. Era assim quando eu passava na Ilhas DUAS IRMÃS!

Era ir passando ali e me concentrar sobre aqueles dois “montes” rochosos, em plena Baía de São Marcos, no Oceano Atlântico, no meio do mar, já aliviado da passagem do Boqueirão. E na minha fantasia, imaginava que aquelas ilhas guardavam e guardam segredos, encantos e desencantos. Riquezas, proezas, belezas. Sutilezas. Certezas e Incertezas.  Mistérios. E observava que aquelas águas verdes do mar eram como turquesas da sereia que por lá nasceu ou foi morar. E quando despertava, desses pensamentos, logo via que São Luís, estava perto de chegar.
                                  * Viegas questiona o social
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CLEMENTE VIEGAS

CLEMENTE VIEGAS

O Doutor CLEMENTE VIEGAS e advogado, jornalista, cronista e contesta o social.

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