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20/03/2021 às 00h00min - Atualizada em 20/03/2021 às 00h00min

PRAIA DO OLHO D´ÁGUA: (A PRAIA DAS MINHAS LEMBRANÇAS)

  
Uma intensa lembrança me faz lembrar agora, um velho e distante tempo: o tempo daquele meu internato na Escola Federal; tempo em que a minha Escola realizava piqueniques para seus alunos do internato. Piqueniques que se davam na PRAIA DO OLHO D´ÁGUA, geralmente aos domingos. Hei tempão!

E lá vamos nós, uma macharada na carroceria de um caminhão ou dois caminhões, rumo à Praia de Olho D’água. Eu, aos 12 anos, saído do interior, aquilo, para mim, era uma novidade e tanta! Lembra-se você daquele velho tempo dos piqueniques? Com direito a uma radiola “três em um”, meia dúzia de discos de vinil e uma farofa com fritos ali do lado. Era um domingo saudável, cujo sábado já anunciava expectativas, emoções, alegrias... interrogações... O piquenique daquele domingo era na Praia do Olho D’Água. Um mundo de gente em trajes mínimos para lá e para cá. E até parece que uma banda da cidade, no fim de semana, tocava-se para o Olho D’Água, uma praia de plena energia, interação social e sinergia! 

A gente no Olho D’Água, no piquenique coletivo da Escola, tinha como referência e convergência o Bar – ACAPULCO. E então o Acapulco para mim era a praia e a praia era o ACAPULCO. Lembra-se você do Bar ACAPULCO, no Olho D’Água? A gente andava para um lado e para o outro, encarava o sobe e desce das ondas, ia e voltava, catava murici e guajuru, “azarava a mulherada”, curtia aquelas pernaltas “torneadas”, toda aquela anatomia e outras linhas sinuosas e bem desenhadas e imaginava sobre aquelas “colinas” que nos enfeitiçavam. Mas o nosso ponto de convergência era sempre as cercanias do Bar Acapulco. 

Foi no Olho D’Água o meu primeiro encontro com o mar, com as ondas do mar, com as águas do mar, em pés no chão. Estava na beira da praia, a turma esperava que eu fosse pegar a bola. Então eu olhei aquele horizonte sem fim, ouvindo as pancadas das ondas do mar. E tive medo do mar. Foi esse o meu batismo em pés no chão com o mar, no Olho D’Água, aquela “praia ensolarada”, como na canção de Cláudio Fontana, com mulheres seminuas, esbeltas, inteiras, desfilando liberalidade e sensualidade em trajes sumários que atravessavam-se sobre o meu e  nosso imaginário. Enfim, estávamos na praia! Na praia do Olho D’Água!

Outras vezes voltei por lá. Numa dessas eu estava à porta do meu segundo emprego público. Era dezembro de 1968, o Bar Acapulco era sempre a minha referência na Praia. O meu “ponto de estar”, no Olho D´Água. E então nas imediações à sua frente, naquele inesquecível domingo de dezembro de 1968, em plena areia da praia, um monte de cocos d’água, que o homem vendia aos banhistas e transeuntes. Então eu, na esportiva e no bom humor, feliz da vida com o novo emprego tomei um banho com água de coco, para comemorar. Foi como comemorei o novo emprego, em plena Praia do Olho D’Água, sorvendo o desfile da mulherada! E imaginando aquela montanha em carne e osso... ... 

O tempo passou – passou a praia e eu também passei. Certo dia, anos 80, perguntei a um amigo sobre a praia. Então ele me falou com certo desprezo. Disse que lá era um ambiente “povão” e que além de popular era “pouco recomendável”.  Aquilo me doeu. Logo ela – O OLHO D´ÁGUA, do meu batismo na água do mar e da sinergia daquele gente bronzeada pelo sol da orla ensolarada!!! Ela mesma lembrada no verso de João do Vale na Canção “Todos Cantam Sua Terra”, imortalizada pela conterrânea Alcione.

De lembranças tantas, lembro agora que conheci a Praia OLHO D´ÁGUA aos 12 ANOS. E nesse meio de caminho de lá para cá, após encontros e desencontros a gente se perdeu – cada qual para o seu lado, como bem assim fazem o destino e a vida. SÃO DECORRIDOS AGORA, 63 anos, depois de tê-la conhecido. (63 anos). Agora uma saudade bate à minha porta. 

Então eu peço notícia da praia ao meu conterrâneo João França (filho do mestre Cabacinha), e ele me diz tudo, sem dizer nada: “uma tristeza, uma tristeza”. O Silas me confirma: “Um abandono, só um abandono”. Então eu me permito entender que o que antes era uma alegria só, depois tornou-se “pouco recomendável” , hoje é uma tristeza só. O que antes era uma enchente só,  hoje é um vazio só. É a poluição que faz a gente torcer o nariz e evitar de andar por lá. E assim se fez e assim se faz a PRAIA DO OLHO D´ÁGUA.

Nesse raciocínio eu vou lá longe, no infinito do oceano e volto ao mesmo lugar para compreender enfim – que nesta vida tudo é princípio meio e fim – uma realidade a que nunca-nunca me despertou em face da Praia do Olho D’Água, que agoniza e morre – como numa terra sem lei - na teia imunda da ganância, da indiferença, do desmando e da especulação imobiliária. E quem conheceu o Olho D’água, como eu, feito de sítios, templos balneários, casarios de praia e verdadeiros oásis da natureza, naqueles idos do meu sagrado internato, e tempos antes e depois, jamais imaginaria que um adia chegaríamos a esta triste realidade, que escorre a céu aberto e nos faz torcer o nariz.

E então eu me lembro entre saudoso e doído daquela praia dos piqueniques da minha Escola; lembro do Bar Acapulco, lembro daquele monte de coco sobre a areia e eu comemorando o meu segundo emprego. Lembro da mulherada desfilando beldade e sensualidade. Lembro de suas dunas e eu à procura de muricis e guajurus e do banho de água doce, nas encostas. E assim eu vou fiando e desfiando as minhas lembranças tantas e as minhas saudades tantas  -  na composição desta PÁGINA DE SAUDADE

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Ouçamos um trecho da canção lhe dediquei: PRAIA DESERTA com Milionário e José rico) - Na praia deserta escrevo na areia o nome de alguém/  O barco partindo ao longe sumindo levando o meu bem / Se existe motivo aqui eu não vivo também partirei /  Minha dor é castigo quando estava comigo/ Eu nunca chorei /// A mágoa infinita se espraia e grita/  Doendo em mim/ O meu desengano é igual o oceano/ Também não tem fim ...
  
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CLEMENTE VIEGAS

CLEMENTE VIEGAS

O Doutor CLEMENTE VIEGAS e advogado, jornalista, cronista e contesta o social.

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