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06/03/2021 às 00h00min - Atualizada em 06/03/2021 às 00h00min

Profa. Érica: construindo vidas


 
Conheci-a bem recentemente. Culturalmente, muito educada. Respondendo às perguntas como se estivesse ensinando lições aos seus alunos, numa rústica e improvisada sala de aula. A repórter faz sua apresentação ao mundo dos que se dizem civilizados e quiçá educados, informando que a profa. Érica exerce o seu difícil e quase impossível magistério em Coelho Neto, um município deste nosso Estado do Maranhão, onde se encontra encravada a Atenas brasileira, que ostenta a pujança dos grandes poetas e prosadores que fizeram o mundo ficar encantado com a pureza do falar da nossa língua, hoje abrasileirada, com todos os imos e vimos possíveis ou impossíveis. Pois é. Penso, como todo animal racional. A última flor do Lácio tem perdido em nossas plagas verdejantes as suas pétalas que a tornavam bela e em que o bardo lusitano Camões “chorou, no exílio amargo, o gênio sem ventura e o amor sem brilho”. Assim, foram-se todas as pombas despertadas. Mas, ainda assim, a profa. Érica faz despertar o sentimento nativista de luta libertária contra a ignorância que assola a nossa pátria amada.

Propugno que se altere a lei eleitoral e se faça da nossa mestra de todos nós candidata a ministra da educação. Não tenho dúvida de que ela não se deixará sucumbir pelos desafios que terá que enfrentar. Ora, ora, ora, Pedro II, ainda bem menino, de mijar nas calças, foi elevado ao alto cargo de Imperador Constitucional, embora sendo criança imberbe, e tutelado no início do 2º Reinado. Mas a profa. Érica não necessita de tutela. Demonstrou isso com absoluta evidência. Todos viram com esses olhos que a terra há de comer. Não há se comparar, em hipótese alguma essa mestra de Coelho Neto, com o pastor, que deixou provisoriamente o púlpito, e ainda bem, graças ao nosso bom Deus, para ser ministro da educação. De educação, matéria tão essencial para o Brasil, ele sequer sabe do que se trata, tanto que está tão só ocupando esse cargo tão relevante, ao invés de resolvendo os cruciais problemas educacionais da nossa querida pátria, sempre bajulada com uma expressiva continência, além da grave mão cruzada e posta no peito. 

Ah!, querida profa. Érica, eu a vi. Confesso: a inveja é um sentimento que nunca desejei. Mas, eu a invejei. A lembrança de outros tempos que já estão tão longe me emocionou. Na pessoa de mestra, preocupada como educar os seus queridos alunos, eu também vi as minhas professoras do curso primário, com um conhecimento global, a nos ensinar, no Grupo Escolar Sotero dos Reis, na rua São Pantaleão, todas matérias possíveis: matemática, gramática, ciências naturais, geografia, história e a escrever nos cadernos de caligrafia, além dos trabalhos manuais. Você professora do nosso distante Coelho Neto simboliza todo esse passado de luta para que a nós fossem transmitidos conhecimentos que nos ajudaram a construir a caminhada de nossas vidas. Ali, naqueles primórdios, foi plantada a semente da última flor do Lácio, que possibilitou a muitos sair pela vida e viver o seu esplendor.

Sei que estou sendo meloso neste momento de pura emoção. Queria ter mantido esse contato antes, embora a professora esteja tão distante de mim, mas, ao mesmo tempo, tão perto, que o seu gesto de desprendimento, dedicação, humanismo e, por que não dizer, lembrando o velho orador, de patriotismo, fez com que o Brasil do passado estivesse tão presente, isso em pleno século XXI, em que se luta contra uma pandemia viral, de um fatalismo cruel, enquanto o governante lá do planalto não governa. E a educação é entregue a um ministro que não teria condições de ser bedel dos nossos grupos escolares. Talvez seja um bom pregador, quem sabe. Mas de continência em continência vai se construindo o velho Brasil, ainda há pouco destituído por uma luta da nossa cidadania.

Falava acima da eleição da profa. Érica para ministra da educação. Sei, e qualquer pessoa menos informada sabe, que não há eleição para o cargo de ministro. Nesse caso, abrir-se-ia uma exceção. Enfim, apenas para compensar, porquanto há um general ministro da saúde, exímio cumpridor de ordens. É a sua cultura. Faz o que lhe mandam. Se o mandarem matar, em vez de curar, mata. Mas os ufanistas diziam há época que era um fenomenal estrategista. De quê? Não sei a resposta; se souberam, escrevam pra cá. De logo, aviso: as guerras não precisam mais de estrategistas. Basta a inteligência artificial, apertar os botões e o inimigo será abatido onde se encontrar. 

Estou iniciando a leitura de um livro do filósofo Luc Ferry: A Revolução Transumanista. Ele relata que estamos a viver a terceira revolução industrial. O mundo está se uberizando. A ideia é transumanizar a humanidade e viver-se o pós-humanismo. O suporte disso tudo é a IA. A profa. Érica, com a sua sapiência e paciência de suportar o descaso, já deve ter sido informada desses novos avanços, daí a sua preocupação em preparar os seus alunos para esse futuro que se avizinha. Ela, esta mestra de Coelho Neto, é a essência do existencialismo. Não o existencialismo ateu. De Sartre. Mas o existencialismo cristão, em que a ação humano, firmada nos postulados do amor, vence o desespero existencial. 
 
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AURELIANO NETO

AURELIANO NETO

Doutor Manoel AURELIANO Ferreira NETO é magistrado do Tribunal de Justiça do Maranhão

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